Robbie Jacks





À beira do lago, ele desponta. Uma grande caixa vazada, ladeada por etéreas cortinas brancas, que voam como vestidos de mil e uma noites. A delicada seda acariciando e abraçando grossas vigas de madeira, alicerces de toda aquela construção.
Incrustado no centro, um colchão cor de creme meio sujo convida, mais por educação do que por vocação, os passantes ao descanso, sob o marchar preguiçoso das garças que por lá passeiam.
Ela nunca havia andado por aquele bosque. O perfume almiscarado que impregnava suas roupas e ardia em seus olhos também lhe era inédito. Nunca havia apreciado o voo suave do martim-pescador; sequer lhe conhecia de nome, só ouvira falar. Tudo era novo, especialmente aquela construção imponente, que completava a paisagem em tinta à óleo como um detalhe de última hora acrescentado pelo pintor.
Um bangalô.
Claro, já havia visto outros bangalôs. Ali, na beira do lago mesmo, vários outros cubos de madeira maciça se deixavam entrever por entre as molduras das vigas, produzindo um incômodo efeito caleidoscópio.
Mas aquele bangalô era diferente.
Aquele estava ocupado.
Sentiu vontade de chegar mais perto, mas não o fez. Talvez pelo zumbido das abelhas, ou pelo farfalhar das folhas, recuou. A indiscrição da luz do dia a inibiu. Decidiu voltar à noite.
.......
Coberta pelo pseudo-anonimato da escuridão, cumpriu a promessa que fez a si mesma e marchou de volta ao lago. O brilho dos tecidos brancos, soltos, que valsavam lentamente ao gosto da leve brisa, tingidos de prata pela luz das estrelas, era quase cegante. Nunca havia visto tanta delicadeza, tanta leveza em uma fôrma que parecia tão quadrada, tão simétrica, tão fácil de definir. Mas ela não conseguia definir. Nem quis tentar, na realidade. Mas notou.
O bangalô continuava ocupado.
Contemplou, ainda de longe, sua rígida estrutura. “Não chegue perto!”. Chegou. Teve medo. Queria entrar, mas não queria. Quer dizer, queria, mas não sabia se podia. Quer dizer, sentia que podia, vem aqui, sinta-se em casa, mas não muito. “Esse bangalô tem dono, e não é você ainda!”. Ela sabia, sentia que não seria bem-vinda. No plano das ideias, a vida se resolvia com folga, mas e se ela realmente abrisse a cortina e sujasse a alvura do pano com suas mãos de carne mundana?
Olhou para o longe e reviu os outros bangalôs. Todos repousavam impassíveis, adormecidos em seus latifúndios. As cortinas, recolhidas, exalavam um muxoxo triste por não poderem brincar na noite estrelada. As toras de madeira se arreganhavam numa carranca banguela, deixando à mostra os mesmos colchões de cor de creme sujo em seu interior. Vazios e sem vida, e muito menos convidativos.
Sentiu-se uma intrusa por querer estar no único bangalô ocupado. Mas não podia negar a fascinação. Veja bem, não era o mistério que a atraía, era o próprio bangalô. As cortinas deslindadas ocultavam as aberturas e criavam um sólido sóbrio e terno, fascinante e aterrorizante, e deixavam entrever apenas fragmentos do que realmente existia ali dentro. Será que havia, existia ou acontecia? Ou será que era ou apenas estava? Ela não sabia dizer. Ela já não distinguia seus devaneios da realidade. Havia mesmo este bangalô?
Sim, havia. E estava ocupado.
Demorou-se em sua frente, não sabe por quanto tempo, mas sentia em ondas nauseantes que ora deveria, ora não deveria estar ali. Não deveria querer abrir as cortinas, solucionar o mistério, descerrar a verdade. Não estava interessada em nada disso. Só queria que aquele bangalô estivesse vazio para ocupar com tudo o que carregava dentro de si. Estava cansada de caminhar, de contemplar. Queria descansar no colchão pouco convidativo. Mas ele estava ocupado com alguém talvez mais cansado ainda de estar ali, mas que não levantava, não ia embora, não vagava o bangalô. Isso deveria bastar para afastá-la.
Mas ela era teimosa, essa minha anti-heroína .
Ela quis ficar. Não porque gostasse de bangalôs, muito menos os ocupados, mas não havia casa, chalé, puxadinho ou tenda que lhe apetecesse naquele momento. Sentiu um apego surpreendente por aquela estrutura que pertencia a outrem, e se sentiu mal por isso. Não queria rasgar as cortinas, expulsar os ocupantes, fincar sua bandeira no meio do colchão sujo e proclamar aquele couro. Não mesmo. Só queria que aquele bangalô fosse dela, e só dela, e que pudesse entrar e sair e viver e deitar e apreciar a paisagem daquele ponto do lago.
Então resolveu esperar. Sentou-se na grama úmida, naquela noite fria e suave, e enrolou a barra do longo casaco de lã em volta do corpo e dos sentimentos. Estava pronta para descarregar, mas ainda não era a hora. Abraçou as pernas e encostou o queixo nos joelhos. Por quanto tempo esperaria, ela não tinha como saber, e confesso que também não sei. Enquanto escrevo esta história, talvez ela já tenha se contentado em dormir ao relento mais uma vez, agarrada em sua mochila de sonhos. Ou talvez ainda esteja lá, na beira do lago, sentada na grama, queixo batendo de frio nos joelhos, esperando apenas o sol aparecer, a cortina se abrir, o mistério se liquefazer na noite escura. Talvez ela ainda esteja esperando um sinal para entrar no bangalô. Talvez ela ainda esteja esperando para ser feliz.
Robbie Jacks


Lute contra os (m)achismos de pai, avô, marido, filho, namorado, chefe, vizinho, tio.

Sê mulher. 

Respeite as manas, as minas, as monas, as ex, as atuais, respeite AS.

Sê mulher.

Se olhe, se goste, se conheça, se aprofunde, se reconheça. Você é parte de um todo, de uma família, de uma sociedade, de uma sororidade. Vamos juntas?

Sê mulher.

Mesmo que você não se enquadre naquele pensamento. Mesmo que você ache que é tudo mimimi (não é mimimi). Respeita quem não atingiu o teu nirvana. Só respeita e você já vai estar fazendo um grande favor.

Sê mulher.

Entenda que as mulheres existem em todas as cores, tamanhos e formatos disponíveis no mercado. Tem quem goste de pêlos, tem quem não goste de batom. Tem quem use roupa curta, tem quem pilote avião. Às vezes, isso tudo aparece junto na mesma mana. Aprecie cada uma a seu jeito, deixa as minas serem as minas.

Sê mulher.

“Louca, mimizenta, histérica”. Não reproduza discurso de ódio, amiga. Sê mulher, vai? Entenda que, por trás de cada denúncia, há uma dor. Não minimize o fardo da outra. Não se use como régua pra medir o sofrimento alheio. Sejamos solidárias.

Sê mulher.

Não pergunte “mas a MULHER tava onde que deixou uma coisa dessas acontecer?”. A gente não carrega o mundo nas costas porque quer. Aliás, se fosse pra seguir a (i)lógica do machismo, quem tinha que carregar o mundo nas costas era o homem, né, já que eles têm a tal da testosterona sobrando. Mas não. Em todas as situações onde os homens fazem cagada, tem mina culpando uma mulher: a mãe, a filha, a namorada, a esposa. Como se todas fôssemos Evas perpetuamente expulsando esses (vi)Adões do paraíso. Mais amor, por favor.

Sê mulher.

O mundo que a gente quer precisa ser (re)construído. (Re)Clamado. A gente mora nele, mas ele ainda não é nosso. A gente cuida dele, mas ainda não temos a escritura. Então lute, lute, lute sempre. Porque a vida da mulher é luta atrás de luta, até o dia que não for mais.

(Feliz?) Dias de Mulher.
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