Robbie Jacks



Nunca tive medo de voar. Quer dizer, até agora.

Quando se voa pela primeira vez, é aceitável bater um medinho, que vem do desconhecido, dos boatos, das histórias interrompidas por algum revés do destino.

Não... Voar, para mim, sempre foi uma delícia. Começa com a expectativa da viagem, os preparativos, a selagem do destino. Passagem comprada, todos a bordo? Que se inicie a mais nova aventura. E em quantas já não me aventurei...

Algumas foram curtas, como daqui a Paris. Outras, bem longas, cobriram milhas até a Austrália. Já tive viagens supersônicas e outras que, apesar da grande expectativa, nunca saíram do hangar.

Todas, absolutamente todas, terminaram em tragédia. Se, por um lado, me encontro viva para me jogar novamente, por outro estou destroçada, e pior: com medo de voar.

E se terminar em desastre novamente? E se não conseguirmos chegar ao destino? E se a viagem for novamente interrompida por um passageiro que, inadvertidamente, puxa a cordinha e pede para descer? São muitos nãos, entãos e senãos. Muitas dúvidas e muitas angústias.  Inúmeras mágoas.

Voar já não é mais um prazer, e sim uma jornada penosa e sacrificante, onde nunca chego a lugar nenhum, e tudo o que resta são pilhas de recordações e algumas fotos, que nem chegam a ver a luz do dia. Contudo, percebam que, apesar do medo quase paralisante, da vertigem e da aparente intransponibilidade dos penhascos que se erguem à minha frente, não consigo deixar de me jogar.

Voo, mas sem a excitação do novo, pois já sobrevoei essas montanhas muitas e muitas vezes, e sei de suas armadilhas, e sofro em antecipação por cada uma delas.

Vou, porque não tenho mais onde ficar.

Voo, mas acrescento ao medo do novato, o temor dos velhos inimigos.

Vou, pois meu lugar só pode estar no além de todas essas montanhas.

Voo, torcendo para que eu nunca mais tenha que voltar.



Robbie Jacks

"Morra logo", foi a primeira coisa que pensei. Sei que parece piada, ou pior, de mau gosto, mas meu primeiro impulso foi realmente desejar a morte. Já quis tantas vezes morrer nos últimos anos, por que não acabar logo com o sofrimento antes dele começar?

Meu instinto me dizia para avisar àquela menina de, sei lá, 15 anos, que a vida ia se complicar quinze anos depois. Sim, ela aproveitaria a adolescência ao máximo, e curtiria seus vinte e poucos anos ainda como uma adultescente, sem preocupações, com dinheiro no bolso e amigos ao redor.

Só que ela não saberia o tamanho do baque que sofreria ao chegar aos 30. Não tem mágica, não tem estalo, a vida só vai adquirindo um peso desnecessário, uma sombra meio fúnebre, um desgaste cada vez mais cansativo. E ela vai cansar de brincar. Vai querer descer do trem. Vai sentar no meio-fio e chorar de saudade dos seus vinte e poucos anos. Das noitadas. Do dinheiro. Das tardes vendo Vale a Pena Ver de Novo.

Morra logo, minha querida. Morra no auge. Morra com a certeza de que não vai ser melhor do que é agora, aos 15 anos, com a mamãe aí na sala, lendo, enquanto você escuta música trancada no quarto. Nem vou te falar para aproveitar mais a companhia dela, porque graças a Deus, nesse ponto, você não vai ter do que reclamar. Se você morrer agora, ou uma década depois, ainda vai fazer sentido. Eu é que não posso morrer agora aos 31, pois não veio nenhum eu do futuro me dizer se a vida ficou boa ou não. Infelizmente, tenho que pagar pra ver. O ingresso é caro, mas não posso deixar de estar presente para ver o final desse filme. Só espero que seja um bem feliz.

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Passado o primeiro instinto, me pus a pensar sobre o que implicaria voltar no tempo e dizer duas palavras a mim mesma. Supondo que eu não possa modificar o rumo dos acontecimentos, já que isso implicaria que o meu eu de hoje seria outra pessoa e, por isso, talvez não voltasse no tempo com essa brincadeira (hoje eu estou um pouco Sheldon Cooper, BAZINGA!!), a única coisa que eu poderia fazer seria alertar ao meu eu mais jovem sobre algo que irá ocorrer nesses quinze anos que virão.

Bom, eu não poderia dizer "cuide da mamãe"; primeiro, porque tem três palavras; segundo, porque seria colocar muita pressão numa menina de 15 anos que não sabe quando nem como sua mãe irá morrer. Deus me livre viver nessa angústia, e sem saber que o fim é inevitável. Não, melhor pensar em outra coisa.

Quando me pus a refletir sobre minha vida, percebi que não gostaria de mudar nada nela. Fui bem feliz em todas as fases e, se agora me encontro em meio a pepinos roxos gigantescos, são derivados de minhas escolhas. Mas nenhuma delas foi infeliz per se, porque fiz o que quis enquanto pude ter o direito de assim o fazer. Sendo assim, sou feliz. Agora que a vida está dura que nem coco é que me encontro nesses dilemas de Irene, sem saber que rumo tomar. Tô perdidinha, perdidinha, à espera de algo que me ache. Mas nem assim me arrependo.

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Conversando com a minha terapeuta, me toquei que eu nunca me senti merecedora de um elogio. Desde os mais simples, como "gostosa", sei lá, até os mais importantes, que falam de meu talento, ou inteligência. Mesmo agora, digitando isso, me sinto estranha, como se eu não pudesse dizer que sou inteligente sem parecer esnobe. O fato é que minhas notas azuis nunca foram apreciadas, porque não tive notas vermelhas. Nunca fui motivo de preocupação dos meus pais e, por isso, nenhum mérito era motivo de orgulho, muito pelo contrário: se eu demonstrava alguma felicidade por uma conquista acadêmica e queria falar sobre isso, encontrava resistência da parte deles, pois tinham outro filho que, por mais que se esforçasse (e eu nem acho que ele se esforça), não conseguia os mesmos feitos. Enfim, fiquei com a sensação de que me gabo demais, me orgulho demais. Graduei em três cadeiras diferentes na faculdade, e meu pai só foi a uma formatura, isso porque chorei e implorei que fosse. Quando defendi minha tese de mestrado, não havia um membro da minha família lá, só meus colegas de curso. Até hoje, meu pai não sabe quantos empregos tenho, ou onde escrevo.

Tenho a impressão de que levei esse "trauma" comigo a vida toda. Racionalmente, sei que me esforço, que sou boa, que posso e devo ter coisas boas, bons amigos, um bom emprego com um bom salário e um bom marido. Só não consigo acreditar que sou merecedora dessa felicidade toda. Agora que me toquei disso, iniciei um processo que só termina lá, no final feliz.

Então, se eu pudesse voltar no tempo, diria para o meu eu de 15 anos: "Você merece!". E mudaria todo o rumo da história...
Robbie Jacks
Um dos aspectos mais importantes da minha vida é o meu trabalho. Neste momento, aliás, ele é tudo o que importa, a única coisa que me faz feliz. Seja na sala de aula ou no jornal, é nele que consigo ser eu mesma, e é uma das poucas coisas que posso controlar nessa vida. Foi no trabalho que descobri que o o sucesso depende do meu esforço, mesmo que o mundo não me reconheça. Ele é o único lugar onde consigo exercer meu potencial, "gastar" esse amor que não cabe em mim, enquanto não chega meu pequenininho ou pequenininha na Terra.

Quem me conhece sabe que não me entrego pela metade, não rio sem vontade, não faço nada sem paixão. Ou é tudo ou é nada, por mais que me dilacere o coração.

Essa capa do jornal O Globo/Barra foi tudo. Essas pessoas que estão na capa são tudo. Conhecer cada uma delas foi uma experiência gratificante, e passar toda essa magia para o papel me levou a ficar na Redação até a meia noite de terça, e todo o expediente de quarta. Tanto esmero só tinha um propósito: não deixar uma vírgula fora da narrativa dessas pessoas. Espero que eu tenha feito jus às muitas histórias que ouvi, e que quem me leia consiga sentir o mesmo mix de choque, tristeza, gargalhadas e lágrimas que experimentei enquanto fazia a reportagem

Quem me conhece também sabe que acredito muito em qualquer coisa e, com a mesma velocidade, me decepciono. Por isso, fica cada vez mais difícil acreditar na felicidade. A história de superação dessas pessoas me fizeram acreditar, mesmo que por um segundo, que a felicidade é, sim, possível. Se isso vale para mim, para tudo o que ainda não vivi e quero viver, ainda não sei. Mas eu acreditei nesta capa (que quase não saiu) e, mais do que isso, acreditei nas pessoas da foto. E não me decepcionei.

Se você estiver na Barra hoje, me lê? Se não estiver, não se preocupe: a matéria sai em outros cadernos, já saiu no Ipad, na terça de manhã estará no site. Mas essa capa, símbolo da minha fé em mim mesma e nessas pessoas, essa você só encontra hoje, no Globo Barra.

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Pensamento mais rápido que a mão.

Blábláblá, tititi e nhenhenhém.

Frufru e muita firula.

Gente que finge que não sabe o que quer.

Disse-me-disse. O pior dos rumores.

Mimimi, ai, o mimimi!

Não-me-toques, nove-horas, guéri-guéri. Vai ter frescuris agudis na casa do cacete, como diz o meu pai.

Mise-en-scène, rendez-vous, déjà-vu.

Babado, confusão e gritaria. Exceto se forem com os outros.

Planos que não se concretizam.

Honoris causa.

Futricos e fuxicos. Inclusive os de tecido.

It-qualquer coisa. It's chato pra caraca.

"The carioca walk" nos shoppings, nas ruas, na vida. Gente sem rumo.

Sacode, balança, joga e remexe.

Tudo o que as más línguas dizem. Exceto se falarem dos outros.

Calças-frouxas e bundas-moles.

Blogueiras da Capricho.

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Você não sabe, mas o rosa das bochechas... é blush.
O sorriso, a educação... não são felicidade.
Tão forte, tão guerreira... Coitada, nem sabe pelo que luta. Briga para fugir de si.
A vontade de chorar por trás dos óculos escuros.
Tão virtuosa, tão imponente... e tão infeliz.

Escreve rápido pra não se atrasar.
Não sabe nem quem quer agradar. Vive correndo, e se esquece de correr.
Não tem nem tempo pra si, se perde no mundo.
Quer parar, mas não quer ser uma derrotada.

E continua correndo - já está atrasada.
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Que dificuldade que tenho, isso de começar pelo começo...

Começo pelo fim, então. Já virou especialidade da casa. Acordei com olhos novos, talvez olhos tristes. Não, tristes não, céticos, decepcionados. É isso!

Quando olham para trás, vêem o dia de Sol desperdiçado, o encontro com os amigos cancelado, o silêncio perdido. Se arrependem do que enxergam.

Esses olhos foram desnudados, invadidos, apossados por um passante. Um farsante? Definitivamente. Talvez tratante.

Os olhos foram consentidamente tomados por quem nunca desejou ver o mundo através deles, tampouco desvendar os mistérios por trás dos círculos cor-de-mel. Junto com o lacre, foi-se qualquer sombra de brilho. Anoiteceram.

De perto, o mundo é mundano. E sujo. E carne. E estranho. E oco. E eu.

Quem olha, e evita enxergar,
só vê o óbvio. E acho que o código é esse mesmo, como um robô que executa tarefas: abre aqui, fecha aqui. Põe aqui, tira aqui, entra aqui, desce ali. Automatizado, mecânico. Sem sobras nem porquês.

Parar e olhar nos olhos exige muita confiança, anunciam a intimidade, deixa escapar muito de si. Bobo são os olhos que perdem a profundidade. Vivem em 1D.

Você já não é mais aquela pessoa bacana, que estava sempre lá, com uma palavra amiga.

Nem eu.
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Robbie Jacks



 E quando você está pensando na pessoa, e a pessoa está pensando em você, mas falta coragem para se aproximar? Não, coragem não é a palavra certa, nunca nos faltou determinação. O que falta para este recomeço é o fim da etapa prévia, falta jeito, falta o chão à frente. O que fazer com todos os planos construídos, todas as promessas, toda a vida que se delineou à caneta? Não, o tempo não é certo.

 Mas aí eu me pergunto: e quando será? Seria o tempo que já foi e perdemos? Pois parece que os dias que virão não resolverão a questão. Os novelos tendem a se embolar cada vez mais ao passo que o gato (porque a vida é um bichano, que se alimenta de você e vai embora, ronronando sonsamente) brinca com as frágeis estruturas que você chama de porto seguro. E um dia, como um marionete descontrolado, os fios que te sustentam caem. Por força do “destino”, esse mal amado.

Não gosto de deixar minha vida na mão do acaso. Quem me conhece, sabe. Gostaria de brincar de destino e ser dona da minha própria sorte de vez em quando. Quem disse que há tempo certo e tempo errado para ser o que se quer, fazer o que se quer? Estou cansada de esperar por Deus (desculpai!). Ou pelo acaso. Ou pela sorte. Ou pela vida. Não espere até que seja tarde demais. E, se for tarde demais, mas ainda houver esperança, corra atrás do tempo perdido. Mesmo que não haja vista à frente, mesmo que haja bagagem, mesmo que objetos e sentimentos tenham se espalhado pelo caminho. Talvez o tempo não seja tão calhorda assim.
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