Robbie Jacks

Hoje está sendo um dia para questionar tudo nesse mundo.
No ponto de ônibus, a caminho do trabalho, sou interceptada por um caloroso "olá". Eu conheço esse rapaz desde criança, mas não me lembro de termos trocado mais do que alguns acenos cordiais em todos esses anos cruzando caminhos da vizinhança. Eu não ia nem escrever sobre ele, mas o que aconteceu mais tarde me forçou a incluí-lo neste relato.
Depois de falarmos amenidades, e perguntar sobre minha vida, meu conhecido me contou que era poeta e que o fato de eu tê-lo encontrado num bar fumando e bebendo em pleno sol de meio-dia numa quarta-feira nada tinha a ver com vagabundagem: era poeta, reforçou, e vendia livros usados em banquinhas pela cidade. No momento, estava lixando umas tábuas, intercalando com goles de cerveja, tragadas no cigarro e papos com estranhos conhecidos como eu. Para finalizar a abordagem, me pediu dinheiro, qualquer moedinha e eu, sem saber pra que, por que ou como, dei. Ele é poeta, pensei, e eu apoio as artes.
Meu ônibus chegou e me despedi, levando comigo um pouco da surpresa pelo pedido inusitado, mas também me sentindo um tiquinho extasiada, afinal de contas, havia sido uma quebra inusitada na minha monótona rotina.
Até que desci em Maria da Graça. E avistei um velhinho que se segurava no muro do metrô. Sua perna direita tremia muito, e ele fazia um esforço desajeitado para controlá-la e continuar caminhando. Meu coração doeu, meu foco mudou, meu passo diminuiu e parei defronte dele, atônita. "O senhor precisa de ajuda?". Uma moça parou comigo. "O senhor está passando mal?". Ela me ajudava a questioná-lo.
O senhorzinho falava coisas desconexas, gaguejava, parecia desnorteado. A primeira coisa coesa que falou foi que queria água. Corri para pedir ao moço que vendia suco de laranja, mas ele disse que não tinha. Comprei uma garrafa num ambulante. Ele bebeu e pareceu um pouco melhor. Disse que estava voltando para Rocha Miranda, que sua esposa estava de cama, que havia sofrido um AVC e que estava ali, em Maria da Graça, porque uma pessoa havia lhe prometido R$10 para comprar o café da manhã dos dois, mas não a havia encontrado. Disse que ia para a Uruguaiana pegar o mesmo montante com outra pessoa.
Nesse momento, eu já não distinguia ficção de realidade, pensei no meu pai, meu velho paizinho, e o que pode acontecer com ele na rua, sozinho e confuso. Já não sabia se a história do velhinho fazia sentido, se ele havia sido uma boa pessoa quando moço, se havia feito alguém sofrer, se seus filhos o abandonaram por algum motivo nobre. Todas as histórias dos últimos dias se embolaram na minha cabeça, pensei no maluco que atentou contra a vida da apresentadora, no pai que matou a mulher e a filha, no babaca que roubou a carteira da mulher morta no acidente de trânsito, essas pessoas se juntaram em um só grande monstro, mas só o que eu via era um velhinho que também havia se transformado em todas as vítimas e precisava de ajuda.
Tirei dez reais da minha bolsinha, da mesma bolsinha de onde saíram as moedas que dei com relutância para o meu conhecido, e coloquei no bolso do senhorzinho. Pedi, já com a voz querendo embargar, que ele fosse para casa, pelo amor de Deus. Ele me olhou, com olhos embaçados pela catarata, e me disse "Deus abençoe". Toquei em seu ombro e quase o empurrei, devolvendo o pedido e implorando pra Deus que abençoasse ele ao invés de mim. Me certifiquei de que a menina iria levá-lo até o metrô e vim trabalhar.
Mas não estou conseguindo trabalhar. Estou aqui, pensando no velhinho, querendo saber se ele chegou em casa, ou se está tendo um tratamento digno onde quer que esteja. Pensando se ele terá o que comer e, se não tem, o que deu errado na vida dele para que não tivesse.
Cheguei ao trabalho com lágrimas nos olhos, que desabaram de vez quando encontraram um colo. Estou me sentindo pequena, ridícula, incapaz. A nossa "chef de cuisine" me consolou , dizendo para eu ficar bem porque eu fiz o que poderia ser feito, e que Deus está vendo minha boa ação. Mas eu só consigo pensar: e quem é que está olhando por esse velhinho?
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Robbie Jacks

POOOOOOOTAMERDAAAAAAAAAAAAAAAA!! QUE MUNDO KOOOOO! QUE VIDA KOOOO! QUE LITERATURA KOOO!!!

Espera um minutinho só, estou tentando me refazer do baque.

"Que Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso e sabedoria para distinguir entre elas.”

A Lou é burra. Não soube distinguir. O Will é burro. Não soube aceitar. Eu sou burra. Não sei diferenciar uma coisa da outra, e caí nessa esparrela de história.


Eu ODEIO história que me faz chorar. Essa me fez chorar e me revoltar ainda mais com a vida. POR QUE, XESUS? Desce aqui e conserta tudo, tá tudo errado!


Mas aí vêm vocês, as supremas vozes da razão, apontar o dedo cheio de razão:

"Não foi você que disse que não queria clichê?"

"Não era você quem estava de saco cheio de historinha de amor?"

É, vocês estão certos. Eu queria cinismo, queria choque de realidade, queria ter todas as minhas esperanças frustradas, queria que essa merda desse livro fosse mais um indicativo que NÃO, as coisas não vão ficar OK. Pedido ruim a vida entrega por SEDEX. Agora, o meu 1 milhão de dólares ficou retido em Curitiba, só pode.

Enfim, se eu gostei do livro? Muito, gente. Tem clichê, tem um monte de situações que você já sabem como vão terminar, mas a Jojo escreve muito bem. Tanto que eu já comprei mais algumas obras dela para apreciação.

Só não me peçam para descobrir o que acontece com a Lou em "Depois de você". Mulherzinha idiota.
Robbie Jacks


Livro da semana: "Eu antes de você"
Vou te contar que não estou NEM UM POUCO animada para ler esse livro. Parece super clichê, bobinho, o tipo de livro que eu com certeza amaria antes de ter meu coraçãozinho completamente destroçado pela vida.
Massssssss, como é "UM FENÔMENO INTERNACIONAL", já vendeu "5 MILHÕES DE CÓPIAS NO MUNDO TODO" e "LOGO VAI VIRAR UM FILMÃO" (sério, todas essas informações imperdíveis estão na capa!), resolvi dar uma chancha.
Robbie Jacks


Acabei de ler "Vocação para o mal", e tudo o que posso dizer é: tente outra vez, J. K. Rowling.

Sou completamente apaixonada pela saga do Harry Potter, mas me sinto desapontada toda vez que pego um romance policial da autora. Já é a terceira vez que ela usa meu xará, o Robert Galbraith, para escrever uma história insossa sobre um crime que, no final das contas, promete mais do que entrega.

Para contextualizar, vou resumir a história do livro:

A secretária/ajudante/parceira do detetive Cormoran Strike, Robin, recebe um pedaço de um cadáver endereçado a ela no escritório, com um pedaço de uma letra de música super macabra. A partir daí, Cormoran e ela passam a tentar descobrir quem mandou o "presente", e chegam a três nomes de caras que tiveram relação com Strike no passado. 

Parece legal, né? Mas não é. É um enrola-enrola infinito que roda o Reino Unido e não chega a lugar nenhum. Quer dizer, chegar, chega, mas não é onde você queria. Eu, particularmente, odeio enredos paralelos que pouco acrescentam à narrativa, e isso acontece de montão. Para cada suspeito descartado pela dupla, uma série de desventuras sem a mínima graça acontece envolvendo os manos. Para dar um exemplo, sem estragar a (?) "surpresa", o desmascaramento de um dos meliantes envolve o depoimento de uma garotinha abusada, depoimento esse que acontece no meio de uma porradaria. Agora me diz: você já ouviu falar de alguma criança abusada que guardou seu segredo por medo de violência e, quando vê a família se esbofeteando, resolve gritar a verdade? Não, meus queridos, essa criança estaria encolhidíssima debaixo da mesa, olhando aquela cena inteira com pavor. Nem com terapia essa criança se abriria. Mas enfim, pra resolver um conflito, pra quê coerência?

O enredo principal, em si, tem muito potencial. Permeado por pedaços das letras do grupo de rock Blue Oyster Cult, que é sinistríssimo, o livro vai se revezando entre a perspectiva do assassino e dos mocinhos, e é bem legal ver como o serial killer pensa, sente e mata, embora relatos verídicos sejam super fáceis de achar com uma simples googlada. Enfim, foi um recurso e ela soube utilizar. Só que os motivos por trás dos assassinatos começam super complexos e terminam de maneira quase idiota. O meio do livro te prende por achar que há uma "razão maior" para tudo aquilo, mas J.K. pisa feio na bola e nos dá um final tão decepcionante que até esquecemos as formulações que fizemos ao longo da história.

Se você já leu Agatha Christie ou Sir Arthur Conan Doyle alguma vez, sabe do que eu estou falando: o assassino está sempre ali, rondando as páginas, de uma maneira que te deixa em eterno suspense, desconfiando de todos, procurando indícios de culpa em cada caractere, mas sem nunca descobrir. Aí, no final, quando finalmente é revelado o assassino, a surpresa é tanta que você volta as páginas correndo para reler as passagens importantes, bater na testa e pensar "putz, como não vi isto?".

Pois é, não tem nada disso no livro do Galbraith. A única pista, amiguinhos, é um fato que EU TE GARANTOOOO que você não vai saber, nem vai entender, nem vai achar graça nenhuma quando entender. E toda a história montada, todo o suspense, tudo o que o assassino fez para tentar incriminar o Cormoran, vai tudo pelo ralo nas poucas páginas que ela dedicou à solução da narrativa. Parece que já estava cansada de escrever, ou estava mais preocupada com o casamento da Robin.

Enfim, confesso que, desde "O chamado do cuco", não simpatizei com o herói/anti-herói da história,  Já me enerva pelo nome. Aliás, ela têm se superado na escolha de nomes escrotos para personagens. O que é "Lula Landry", Jesus? Nem Lady Gaga fere tanto meus tímpanos. Agora, há uma coisa com a qual eu e ele concordamos. No finzinho da história, Cormoran conversa com um policial que o ajudou a resolver o caso, e ele lhe dá mais um pedacinho de informação sobre a coisa toda, mas Strike, cansado, não entende.

He felt as though his exhausted brain had been purged of the details that had obsessed him for months. 
Ele sentia como se seu cérebro cansado tivesse se livrado dos detalhes que o obcecaram por meses.

Troca "meses" por "dias", e você vai entender exatamente como me senti ao chegar ao fim da história e não entender mais nada. Beijo!

Robbie Jacks


Um senhorzinho sorridente brinca com um balão preso do outro lado da grade. Enfia os dedinhos pelos buracos feito criança arteira e faz o balão dançar para longe. Observo. Ele me vê e sorri. Vem até mim sorrindo. Sorrio também. Cutuca meu ombro e aponta para um grande cartaz, onde estudantes felizes fazem propaganda de uma escola. Seus dedos estão sujos, mas ele nem liga. Sorri para mim. Sorrio de volta. Faz o mesmo movimento várias vezes. Acho que me acha parecida com alguma das meninas-propaganda. Sorrio ainda mais. Percebo que o vento trouxe o balão de volta e aponto para ele. O senhorzinho corre para brincar com o balão, e me mostra que o vento sempre sopra a bexiga para o mesmo lugar. Sorri para mim. Sorrio de volta, me deliciando com a brincadeira. Um ônibus pára no meio da rua e abre a porta. Espera pacientemente que o velhinho o veja, e nem liga para o trânsito preguiçoso de domingo. O senhorzinho pára a brincadeira, percebe a porta aberta e olha, curioso. O motorista estende-lhe algo.  O velhinho corre excitado para ver o que é. Sobe no ônibus e abre o presente. É uma camisa, tão branca e comprida quanto a que veste, bem maior que seu corpo franzino. O ônibus fecha a porta. O velhinho acena para mim, com sua roupa nova na mão. Ainda está sorrindo. Tento me despedir dele com a mesma intensidade, mas não consigo. Transbordo. Tento sorrir, mas já estou chorando.
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