Robbie Jacks

“Concheta Bibiana”. Sim, é isso mesmo que você leu. Esse palavrão em outra língua ia ser meu nome, reza a lenda aqui de casa: “Concheta Bibiana”. Mas uma sociedade racista fez minha mãe mudar de ideia.
Não que eu esteja triste por não ter sido homenageada com os nomes das minhas bisavós guerreiras. Embora elas tenham sido mulheres de fibra na época delas, os nomes escolhidos também devem ter sido maneirões só na época delas. Mas não é por isso que escrevo este texto.
Veja você: minha mãe é negra. Negra, professora, inteligente, linda, criativa, independente, forte, austera e muito educada. Ela já faleceu, mas isso é só um detalhe. Pois bem. Quando engravidou de mim, aos 45 anos, mamãe quis colocar na filha a combinação dos nomes de mulheres que vieram muito antes de mim e deixaram suas marcas na Terra. Talvez mamãe quisesse que eu herdasse a força delas. Ou a resistência. Ou a doçura, sei lá. E esta foi a maneira que encontrou.
Mas a barriga de mamãe começou a crescer, e as dúvidas também. “Como seria minha filha? Que aparência teria?”, mamãe pensava. Seu esposo, meu pai, era um italianão branco de cabelos negros e ela, negra de olhos de jabuticaba. Meu irmão nasceu “café com leite”, com o olhar de mamãe e o sorriso de papai. E eu, como viria? Mais “leite” ou mais “café”?
Seus devaneios a levaram a me imaginar numa sala de aula. Primeiro dia do ano letivo, turma cheia de pequeninos seres ávidos por aprender. A professora adentra o recinto, toda pomposa. Apruma-se na cadeira e abre seu caderno de frequência pela primeira vez.
Anelise...
PRESENTE!
A professora olha para a aluna, com a mãozinha levantada, dá um sorriso e volta a anotar no caderno.
Alfredo...
PRESENTE!
Bárbara...
PRESENTE!
Cláudia...
PRESENTE!
Concheta...
Mamãe enrijece no cantinho da sala. A professora pára e olha aquele nome inusitado. Volta os olhos ao início da linha para ter certeza de que não está ficando míope.
“Concheta Bibiana”. Sim, é isso mesmo. “Que nome diferente, deve ter saído de algum livro de história de 1927”, ela pensa. “Bom, esse nome deve pertencer a alguma menininha linda, branca, de cachinhos tão loiros quanto os de um anjinho”, conclui a mestra. Mamãe a olha, aflita. Já sabe o que está por vir.
“CONCHETA BIBIANA”, a professora chama, com entusiasmo, e procura a dona do nome com o olhar.
De lá do fundo da sala ergue-se uma mãozinha tímida e magrela. A palma da mão rosada contrastando com a pele pretinha.
“Pre-presente, professora”, diz a menina de olhos de jabuticaba e cabelos muito crespos amarrados com lacinhos vermelhos em duas marias-chiquinhas. A professora olha com cara de espanto, que logo se torna desdém como se duvidasse que tal criança fosse capaz de carregar um nome tão grandioso e antigo. O coração de mamãe se parte ao meio e, resignada, ela decide que talvez esse não seja o melhor cartão de visitas para sua filha.
E foi por isso, meus queridos, que hoje me chamo Roberta. Nome, aliás, sugerido pelo meu irmão. Mamãe não suportou a ideia de que sua filha passasse pelas humilhações que ela mesmo já havia passado, mesmo que tudo não passasse, naquele momento, de hipótese.
Porque o racismo faz isso com a gente: nos leva a imaginar o pior, a pensar o pior, e sabe por quê? Porque existem pessoas que SÃO o pior, que FAZEM o pior, e muitas vezes temos o desprazer de cruzar com esses infelizes em nosso caminho. O racismo faz com que a gente deixe de fazer muita coisa que gostaria por medo do preconceito, e nos faz tomar muitas outras atitudes pelo mesmo motivo.
O racismo existe. Machuca a alma e, por muitas vezes, o corpo. Enfraquece e fortalece. E tem seu preço.
Minha mãe tinha uma força descomunal, mas não há proteção materna no mundo que te impeça de sofrer preconceito. Eu só gostaria que ela soubesse que podia ter me batizado Concheta. Que aquele bebê que ela estava gerando ia carregar com força esse nome, e ia desafiar qualquer um que ousasse lhe levantar a voz. Mas ela não sabia que quem estava na barriga dela era eu.
O jeito que minha mãe encontrou foi o de me dar um nome forte para me fazer forte. E hoje eu sou Roberta, ou Robbie, como vocês me conhecem. Geniosa, sarcástica, defensora ferrenha dos meus ideais, amiga dos amigos. E muito orgulhosa da minha pele misturada, dos traços africanos e europeus que se misturam no meu rosto. E orgulhosíssima, é claro, dos meus cachinhos louros e crespos, que mamãe tanto sonhou mas não botou fé que eu ia ter.

Robbie Jacks




Roseli acendeu a última vela e colocou no altar. Ajoelhou-se, juntou as mãos, fechou os olhos e rezou com o fervor de sempre. Perdeu-se no tempo e nas orações, até ser interrompida por uma batida na porta.

“Vambora, Rose, o jantar tá na mesa”, gritou a avó, impaciente. 

Roseli terminou a última prece, fez o sinal da cruz e levantou-se. 

“Daqui a pouco eu volto, meu amor”, disse, dando um beijo em uma foto em preto e branco. 

“Eu já falei que essa minina tá ficando maluca, daqui a pouco tem que internar”, disse a avó, enquanto trazia a travessa de macarrão da cozinha. 

”Isso é coisa da idade, vai passar”, respondia a mãe, passando a mão nos cabelos de Roseli. 

“Que idade, fia? Acorda! Minha neta já tá beirando os trinta, tá virando uma solteirona encruada. Isso é falta de homem”, retrucou a avó, dando ênfase na última palavra. 

Roseli já estava acostumada com esse tipo de troca entre a mãe e a avó. As duas tinham suas opiniões acerca de sua vida amorosa, mesmo que a delas não tenham dado certo. Os comentários da avó costumavam magoá-la muito antigamente, mas não mais. Agora, Roseli tinha um amor, o amor mais puro e verdadeiro que existia no mundo, e ela duvidava que alguém já tivesse sentido o que ela sentia naquele momento. 

“... eu tô dizendo, minha filha, não é normal alguém ficar enfurnada num quarto acendendo vela pra morto que nem conhece”, continuava a vó, falando sobre Roseli como se ela nem estivesse ali. 

“Mãe, vamos jantar e deixar essa conversa pra outra hora, sim?”, suplicava a mãe, olhando com pena para a filha. De cabeça baixa, Roseli fazia o máximo para engolir rápido a comida e voltar para seu amado. 

Depois de terminar de lavar a louça, Roseli voltou para o quarto e trancou a porta atrás de si. Ao contrário do resto da casa, era ali que se sentia realmente à vontade. Ali era seu santuário, onde guardava suas melhores lembranças. Uma explosão de rosa cobria as paredes, enfeitadas com fotos de sua infância e pôsteres de seus artistas favoritos. Suas bonecas continuavam enfileiradas nas prateleiras, todas muito bem arrumadas e penteadas. No entanto, era na penteadeira que estava seu cantinho favorito. Ao invés de maquiagens e produtos de cabelo, Roseli havia transformado o local em um altar. Era ali que passava incontáveis horas, rezando. E não era para um santo qualquer não. Era para seu noivo, Alberto, com quem se reuniria muito em breve.

.......

“Solange, você tem certeza de que a Roseli tá bem?”. Vó Alda estava preocupada. 

“Mãe, eu também me preocupo, sabe? Mas acho que não vai ajudar em nada ficar falando mal da Rose na frente dela”, respondeu a filha.

“Mas minha filha, como é que ela pode estar apaixonada por esse tal de Alberto se ela nem nunca o conheceu?? Ele morreu antes dela nascer, isso é doença!!”

“Eu sei, mãe, mas eu acho que ela vai melhorar quando conhecer um homem de bem”

“Mas COMO que ela vai conhecer um homem de bem se ela só sai de casa pra ir ao maldito cemitério? Ela vai casar com quem, com o coveiro???”

“Deus te ouça, mãe, Deus te ouça...”

Sentada à penteadeira, Roseli, terminava seu penteado. Estava se achando linda em seu vestido rosa cheio de babadinhos, e arrematou o look prendendo uma flor no cabelo. Colocou seu melhor perfume, pegou uma das várias cópias da única foto de Alberto que possuía e colocou-a ao lado de seu próprio rosto, mirando o espelho. 

“Você gosta deste vestido, Alberto? Comprei especialmente pra você”.
Rose sorria, enquanto olhava para o reflexo dos dois. “A gente faz um casal lindo, e logo, logo estaremos juntos para sempre”. 

Rose pegou um buquê de flores e saiu porta afora sem dar atenção para a mãe e para a avó na sala que, para variar, estavam falando dela. 

“Olha lá! Lá vai ela pro cemitério namorar o morto! Ela nem sabe se esse cara foi direito na vida! Pra morrer cedo desse jeito, boa coisa não deve ter sido”, lamentou a avó, largando o crochê.

Realmente, Rose sabia pouco sobre o amado, mas isso era até melhor. Gostava do mistério em volta de sua personalidade, tentava desvendar quem ele havia sido e o que o levou a falecer tão jovem. Não que não tenha investigado. Procurou nos arquivos da biblioteca da cidade, mas ninguém tinha registro da morte de Alberto Lima, ocorrida em 1986. Foi até o cartório, mas a certidão havia sido perdida num grande incêndio em 1990. Assim, Roseli só tinha a lápide do morto para montar sua versão dos fatos. Sabia que ele havia nascido em 1950 e, portanto, tinha 36 anos quando faleceu. Não devia ter família, já que ninguém o visitava desde que começou a frequentar o cemitério. A foto em sua lápide era a única evidência de seu corpo físico, e foi por ela que se apaixonou há dois anos, quando esteve no local para o enterro de sua tia-avó. 

Foi amor à primeira vista, como dizem. Rose passou o enterro todo vidrada na lápide de Alberto e, quando o cortejo se preparou para deixar o cemitério, roubou a foto e escondeu-a no sutiã. Assim que chegou em casa, inventou uma desculpa para sair de novo, e foi correndo para o bazar da esquina. Lá, pediu para ampliar a foto e fez várias cópias, todas laminadas, e voltou para casa. Era o começo de seu namoro com Alberto.

Roseli chegou com as flores e depositou-as carinhosamente no túmulo de Alberto, como fazia todos os dias. Retirou as flores secas dos dias anteriores, sacou um paninho e um frasco de sua bolsa e pôs-se a polir o túmulo, enquanto conversava com o amado. 

“Feliz aniversário, meu amor. Olha o vestido que comprei pra você, gostou? Hoje à noite, meu amor, nós vamos ficar juntos para sempre. É uma pena que eu não conheça a sua família, aquele bando de desnaturados que nunca vieram te visitar - er, desculpa, mas é verdade”, disse Rose, jogando perfume em volta da lápide. “Mas não importa, né? A minha família é como se estivesse morta também, ninguém liga pra mim. Me chamam de louca porque eu amo você, acredita? Mas eles não te conhecem como eu te conheço, não sonham com você como eu sonho. E hoje é nosso grande dia!”, Rose se levantou com um pulinho animado. “Até daqui a pouco meu querido, vamos selar nossa união e aí todos vão ver que nosso amor é verdadeiro e eterno!”

..........

Na hora do jantar, Rose estava animadíssima, tanto que sua mãe e sua avó perceberam e, claro, comentaram. 

“Que bicho te deu, hein, menina? Parece que viu passarinho verde!”, disse a avó, entre uma garfada e outra. 

“Vai ver que ela conheceu um rapaz de verdade”, respondeu a mãe, esperançosa.

Rose não dizia nada. Não tinha fome, mas se forçou a comer para não levantar suspeitas de seu plano. Absorta em seu mundinho, às vezes deixava escapar uma risadinha, para a consternação da avó.

“Ih, não sei não...”, disse Vó Alda, pressagiando algo muito sinistro. 

Às onze e meia, quando todos na casa estavam dormindo, Rose terminou de ajeitar o véu sobre a cabeça. Afofou as mangas bufantes de seu vestido de noiva. Olhou-se no espelho da cômoda com a foto de Alberto ao lado e sorriu. “Estou pronta, meu amor”, anunciou. Pegou um buquê de rosas brancas, uma mochila e dirigiu-se até o cemitério. 

Apesar da escuridão, Rose chegou com facilidade ao túmulo de Alberto. Já conhecia o caminho de trás pra frente. Ajoelhou-se em frente ao túmulo, retirou as rosas que havia trazido de manhã e pousou o buquê em seu colo. Tirou de sua mochila um gravador, colocou a mão esquerda na foto de Alberto e apertou o play. 

“Senhoras e senhores, estamos aqui reunidos para celebrar a união de...”

“ALBERTO E ROSELI”, proferiu Rose, abafando a voz do padre.

“em sagrado matrimônio”, continuou a gravação. 

“Cláudio, você aceita a mão de Dalva em nome de Jesus?”

“ALBERTO”, corrigiu Roseli.

“Aceito”, respondeu o áudio. “Dalva, você aceita a mão de Cláudio em nome de Jesus?”

“ROSELI”, corrigiu a noiva novamente. “Claro que aceito, Alberto, meu amor”.

“Pelo poder investido em mim, eu vos declaro marido e mulher”. 

Roseli pausou a gravação. Lágrimas brotavam de seus olhos. “Foi lindo, meu amor, este é o momento mais feliz da minha vida”, disse Rose, enxugando as lágrimas. “Agora é a hora da nossa lua de mel”. 

Ainda emocionada, a noiva tirou da mochila um pé de cabra. Afastou o véu do rosto, encaixou a ferramenta no túmulo e fez força. Lentamente, a tampa começou a deslizar, deixando entrever um buraco fundo e fétido. Com mais alguns empurrões, Roseli conseguiu afastar a tampa por completo, e agora estava ali, a um palmo, ou melhor, a sete palmos, do amor da sua vida. 

Desceu o buraco com cuidado para não sujar muito o vestido, afinal, não queria que Alberto a visse toda desarrumada. De pé em cima do caixão, Roseli pegou o pé de cabra novamente e forçou, forçou, forçou, até que a tampa do caixão se abriu...

.......

A manhã seguinte foi de burburinho intenso na cidade. Dizem que o coveiro levou um susto quando encontrou uma lápide violada. Mas o cara quase bateu as botas mesmo quando foi investigar e viu que dentro da cova havia um vestido de noiva cuidadosamente dobrado e mulher seminua, morta, envolta em um cadáver putrefato que vestia com um terno novinho, ainda com a etiqueta pregada. Dizem também, mas aí eu não sei se é maldade do povo, que o coveiro relatou a mulher morreu sorrindo, e que estava segurando uma parte bem pouco ortodoxa do falecido Alberto Lima...


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Robbie Jacks


Júlio mal podia esperar para chegar na escola. Estava animadíssimo com o novo celular que havia ganhado do pai, mais potente, e queria mostrá-lo aos amigos. 

“Nossa, mano, esse é o último modelo!”, admirava Patrick, tirando o celular da mão de Júlio. “Dá aqui que eu quero ver que jogos você tem”.

“Ah, eu baixei os melhores, né”, respondeu Júlio, se gabando para os amigos. “Zombie War, Hunter Jack, Danger Zone, Ghoul Attack...”

A lista era enorme. Enquanto Júlio recitava todos os jogos violentos que cabiam na sua RAM, Patrick ia confirmando no celular, um a um, uma pontinha de inveja lhe amargando na garganta. Até que viu um ícone que não reconheceu.

“Ué, o que é esse aplicativo aqui, ‘Sanatório’? Nunca ouvi falar!”

“Como não? Esse é um RPG maneiríssimo, acabou de ser lançado, cara!”, disse Júlio, tomando o celular de volta. “A galera vai jogar na hora do recreio, vai lá assistir a gente”, disse Júlio, desligando a tela. “Vambora que já está na hora da aula de Matemática e eu tô quase reprovando nessa matéria”.

No intervalo, Júlio já saiu da sala com o celular na mão, e encontrou seus amigos em um canto mais quieto do pátio. Cada um sacou seu smartphone e a batalha começou, em meio a muitos gritos e palavrões do grupo. O objetivo do jogo era matar uma penca de monstros assassinos para escapar do manicômio onde os personagens estavam presos. João estava encurralado entre um cara com uma serra elétrica e um zumbi sem braço, enquanto Silas lutava no terceiro andar contra uma horda de aranhas gigantes. Pedro e Júlio estavam em um porão escuro e assustador, tentando encontrar a chave da porta para poderem sair e lutar com os outros personagens. Já haviam feito algumas descobertas mas, como tudo o que é bom acaba, o sinal tocou e os amigos se viram obrigados a voltar para a aula. A aventura teria que esperar. 

Ao fim do dia, Júlio só tinha um pensamento: jogar Sanatório. Chegou em casa ansioso e já foi colocar o celular para carregar. 

“Boa noite, filho, você não vai me dar um beijo?”, perguntou a mãe, da cozinha.

“Ai, fala sério, mãe, eu hein”, gritou Júlio do quarto. 

“Seu pedido é uma ordem”, retrucou a mãe, chegando na porta do quarto do filho. “Vamos falar sério: cadê o boletim?”

“Er...”, Júlio olhava para a mochila e para a mãe, o medo passando por seus olhos.

“Anda, dá cá logo, vamos ver se as aulas particulares adiantaram alguma coisa”, ordenou a mãe. 

Sem saída, Júlio abriu a mochila e tirou um boletim pontilhado de notas vermelhas e entregou. Viu as bochechas da mãe ficarem muito vermelhas e a maldita veia na testa começar a pulsar, nervosa. Lá vinha o sermão... 

“EU FALEI PRA VOCÊ PARAR DE FICAR VENDO TV E JOGANDO JOGUINHO E METER A CARA NO ESTUDO, MOLEQUE! VOCÊ TÁ ACHANDO QUE EU SOU RICA, QUE VOU TE SUSTENTAR O RESTO DA VIDA? E TEU PAI AINDA TEM A CO-RA-GEM DE TE DAR UM CELULAR NOVO DE PRESENTE? ALIÁS, ME DÊ CÁ ESSE CELULAR QUE VOCÊ ESTÁ PRO-I-BI-DO DE MEXER NELE ATÉ SUAS NOTAS MELHORAREM!”, gritou a mãe, arrancando o celular com fio e tudo da parede.

Júlio estava revoltadíssimo, mas sabia que não adiantava discutir. Bateu a porta do quarto e ficou a noite toda com a raiva fervilhando por dentro, achando a vida muito muito injusta e prometendo a si mesmo que iria fazer as malas e se mudar para a casa do pai. 

De birra, Júlio não saiu do quarto nem para jantar. Lá pelas tantas, no entanto, a fome era tanta que ele não conseguia pegar no sono. Sem querer dar o braço a torcer, abriu a porta devagarinho para ver se a mãe ainda estava na sala. Não estava. Foi até a cozinha pé ante pé e abriu a geladeira. “Hmmmm, frango com batatas”, pensou, enquanto devorava uma coxa gelada e enfiava umas batatas na boca ali mesmo. Quem tem fome não tem frescura, não é mesmo? 

Com o bucho forrado, ia voltar para seu quarto quando viu: o fio do carregador de seu celular estava pendurado em cima da mesa, com uma ponta dentro da bolsa da mãe. Júlio olhou para o corredor para se certificar de que a mãe não iria surpreendê-lo (o que resultaria em coisa pior do que o esporro que acabara de levar) e abriu a bolsa. Lá estava ele: grande, estalando de novo, e com seu avatar lhe esperando para abrir a maldita porta do porão. Júlio não pensou duas vezes: agarrou o aparelho e correu para seu quarto, fechando a porta atrás de si.

Com a luz apagada para não levantar suspeitas, Júlio sentou-se na cama, conectou o carregador na tomada e escondeu-se debaixo das cobertas. Com uma mistura de nervosismo e excitação, abriu o aplicativo do jogo e ficou olhando a barrinha de carregamento 

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“Anda logo, vai”

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“Nossa, que lerdeza”
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“QUE???”

O celular apagou. Júlio sacudiu, apertou todos os botões, mas o celular não ligava. Tirou a coberta da cabeça e procurou a tomada, mas o fio estava pendurado ao lado da cama. “Ué, será que se soltou?”, se perguntava, enquanto tateava no escuro pelo buraco da tomada. 

Assim que encostou a mão na parede, Júlio sentiu uma gosma muito gelada escorrer por ela. “Eeeew, que porcaria é essa?”, falou baixinho, limpando a mão na camisa. Seu quarto estava mais escuro que o normal, e não enxergava um palmo à frente. “Talvez tenha faltado luz no bairro”, pensou. Deixou o celular na cama levantou-se para ir até o quarto de sua mãe, mas deu uma topada em alguma coisa muito dura no meio do caminho. 

“Aaaaaah, sh@&$*#%!”, gritou Júlio, segurando o pé que latejava de dor. “Bem que a mãe falou para eu guardar os brinquedos”, falou para si mesmo, tentando mover o dito-cujo do caminho. 

Mas não era um brinquedo. Era grande demais, largo demais. E estava preso ao chão. Júlio se ajoelhou no chão e, com as duas mãos, começou a explorar o objeto. Parecia uma grande caixa de concreto. Subiu em cima e colocou as mãos à frente. Achou mais uma um pouco mais adiante. Continuou tateando. Outra mais acima. 

Era uma escada. 

Júlio levou um susto tão grande que se desequilibrou e caiu com um estrondo onde tinha começado. A adrenalina era tanta que o menino não sabia nem por onde começar a pensar: “onde estou?”, “cadê meu quarto?, “o que tá acontecendo?”, “como essa escada veio parar aqui?, “cadê minha mãe?”, “será que eu vou morrer aqui?”, eram só algumas das perguntas que passavam zunindo por sua mente. 

Júlio desligou o sensor de “vai dar M” e ligou o Modo Ação. Agora precavido, pôs-se de joelhos e foi, devagarinho, tentando achar alguma coisa para acender a luz. É, aquele definitivamente não era seu quarto. Esbarrou em vários móveis que nunca existiram em seu quarto, derrubou o que parecia ser uma bandeja cheia de objetos metálicos, tropeçou em sua cama que, pela finura e frieza da cabeceira, deduziu ser uma maca de hospital (o que lhe deu um frio tenebroso na espinha), até que chegou em uma cômoda. Algumas gavetas estavam trancadas mas, na última, achou um fósforo e uma vela. Procurou por cima do móvel e achou um cinzeiro. Acendeu a vela e prendeu-a ali. 

Júlio parou por um segundo, orgulhoso de sua própria sagacidade, e olhou em volta. Pelo que a chama fraca da vela lhe deixava perceber, o lugar em que estava tinha um aspecto asqueroso. Das paredes escorria a tal gosma que ele havia tocado, o chão de tábua corrida estava sujo e empoeirado, assim como os móveis, grilhões e instrumentos que só poderiam ser de tortura dividiam espaço com vários itens de hospital. Apesar de repugnante, o ambiente não lhe parecia totalmente estranho, parecia que já o tinha visto antes em algum lugar. 

Júlio perambulava com a vela, bem devagar, quando se deu conta de que algo se mexia em um canto que ainda não havia visto. Morrendo de medo, mas decidido a sair dali a qualquer custo, Júlio caminhou até o canto inexplorado e aproximou a vela. 

“AAAAAAAAAAAARGH!”

Júlio deu um pulo pra trás tão alto que quase apagou a vela. Uma aranha enorme correu por entre suas pernas, fugindo daquela luz incômoda. Do canto de onde saiu, o menino viu, através da chama amarelada, uma fração de rosto com um olho aberto, caído de lado no chão, imóvel. Pensando que fosse um boneco, Júlio reuniu toda a sua coragem e se aproximou novamente para investigar. Passou a vela pelos pés, pernas, tronco. O boneco estava vestido com um uniforme branco, desses de hospital. Tinha mais ou menos o seu tamanho, o que o tornava ainda mais ameaçador. Viu os cabelos ruivos e longos, que cobriam parte do rosto do boneco. Tremendo, tirou os cabelos do rosto do boneco e tomou outro susto: era seu amigo de escola, Pedro. 

Com a mente a mil, Júlio começou a sacudir e chamar pelo amigo, mas logo percebeu que realmente era só um boneco idêntico ao amigo. Além do mais, por que Pedro estaria ali naquele buraco com ele, usando aquelas roupas, se há um minuto atrás ele estava em seu quarto prestes a jogar ‘Sanatório’? 

“Ei, espera um pouco”. Júlio começou a juntar o quebra-cabeças. Colocou a vela no chão e começou a investigar as roupas do boneco Pedro.

“Ahá!”, gritou, triunfante, quando descobriu uma pequena insígnia em forma de triângulo com o símbolo da Dharma, empresa fabricante do jogo. 

“Quer dizer que estou preso dentro do jogo, justamente na parte que Pedro e eu paramos antes da aula de Matemática”, concluiu o menino. Júlio só não entendia o que um boneco de Pedro estava fazendo ali. “Esse deve ser o avatar do Pedro, e como ele está dormindo, o boneco também não está jogando”, concluiu, satisfeito. 

Mas ainda restava um problema: como iria sair dali? E outro problema bem maior: será que não estava mais seguro ali dentro? Pelo que tinha ouvido falar, o jogo era um dos mais sangrentos e aterrorizantes dos últimos tempos. E se ele morresse no jogo, será que morreria de verdade, ou voltaria para morrer mais mil vezes enquanto o game existisse? 

Júlio decidiu enfrentar um dilema de cada vez. No momento, o que ele queria era abrir a porta. O que quer que o estivesse esperando do outro lado iria ter que fazer justamente isso, esperar. 

Subiu as escadas para tentar forçar a maçaneta, mas ela continuava impassível. Não adiantava: ele ia ter que jogar. Tentou então refazer os passos que já tinha explorado com Pedro no recreio. Correu para a maca, tateou embaixo do travesseiro e achou novamente um pedaço de barbante. Foi até a parede mais distante, abriu o quadro de luz e encontrou um canivete. Lembrou-se que Pedro havia encontrado um pedaço de papel. Voltou para onde estava o boneco e colocou a mão em seus bolsos, tomando o cuidado de não iluminar aquela cara assustadora dele. 

De posse do papel, Júlio aproximou a vela para ver do que se tratava. “Q-7-T-11”, era só o que dizia. Olhou em volta para procurar um possível cofre onde pudesse usar o código. Aproximou-se da cômoda e viu que a última gaveta estava trancada com um cadeado. A escuridão do porão era agonizante, e o menino mal podia esperar para se aproximar do fim daquele pesadelo. Usou o código para abrir o cadeado, e BINGO!, a gaveta destrancou. Animado, Júlio esperava encontrar a chave da porta, mas havia apenas um ímã dentro da maldita. 

Agora Júlio tinha um canivete, um pedaço de barbante e um ímã. O que fazer com aquilo? Ele queria pensar, queria que Pedro estivesse ali para ajudá-lo, queria se lembrar de outros jogos que já havia jogado, mas o medo de estar numa situação tão insólita tornava muito difícil focar. Júlio se forçou a parar e analisar, mas um barulho incômodo não o deixava em paz.

Ping-ping-ping

“Que barulho é esse?”

Ping-ping-ping

Seria um cano? Júlio seguiu o som do vazamento pelo porão. Descobriu que vinha de uma pia imunda, cuja torneira pingava um líquido escuro e fedorento. 

Júlio tentou abrir a torneira, mas ela estava emperrada. Pensou em usar o canivete, mas achou mais prudente não fazer jorrar aquela água putrefata. Examinou a pia em busca de alguma pista, até que viu: no fundo do ralo havia um brilho metálico, que poderia ser uma chave. Sem pensar, Júlio enfiou o dedo indicador no ralo, e imediatamente sentiu uma dor lancinante. As bordas eram afiadas e haviam rasgado seu dedo, fazendo o sangue jorrar. Urrando de dor, o menino correu até a maca, rasgou um pedaço do lençol e amarrou em volta do dedo. E agora, como iria tirar aquela chave dali? 

Júlio lembrou-se dos itens no bolso. Com dificuldade, amarrou o fio em volta do ímã e, devagarinho, desceu a isca. BINGO, a chave grudou no ímã! Muito lentamente, Júlio puxou o barbante de volta e, com um sorriso triunfante, pegou a vela e correu escada acima para abrir a porta. Mas a chave não coube na fechadura. 

“AAAAAAAAAH!”. Desesperado, Júlio chorava, urrava, o dedo latejando e a cabeça também. “Eu nunca mais vou sair daqui, eu nunca mais vou ver ninguém”, pensava. Fez o possível e o impossível para se acalmar de novo. 

“Essa chave tem que abrir alguma coisa”, pensou.

Voltou a percorrer o quarto, procurando por cofres, alçapões, paredes falsas. Às vezes acontecia da porta principal não ser a porta de saída nos jogos, racionalizou, como se quisesse se acalentar. Por fim, encontrou uma caixa de metal debaixo da maca. Estava trancada. Tentou pôr a chave na fechadura e BINGO, ela se abriu. Dentro, havia uma foto e um bilhete. Colocou a foto mais perto da chama. Se surpreendeu ao ver a imagem dele e de Pedro, juntos no recreio, celular em punho, olhos fixados na tela. Parecia que tinha sido tirada naquele mesmo dia, na hora do recreio. Seus olhos arregalaram, Júlio engoliu em seco. Com as mãos trêmulas, abriu o bilhete. 

DOIS AMIGOS SE JUNTARAM
NUMA AVENTURA PERIGOSA
QUEM VAI SER O MAIS CORAJOSO 
E SE LIVRAR DESTA BANANOSA?

O PRIMEIRO VIROU FANTOCHE
O SEGUNDO ACORDOU NUMA MACA
QUER SAIR DESTE PESADELO?
EXPERIMENTE USAR SUA _______ 

Júlio ainda estava assimilando a charada, quando um barulho arrastado no outro canto da sala lhe deu um susto. Instintivamente, Júlio botou a mão no bolso e retirou seu canivete, caminhando de lado em direção à escada. 

“Quem tá aí?”, gritou, sem vontade nenhuma de descobrir a resposta. 

Júlio ouviu passos lentos e pesados vindo em sua direção. 

“Pe-Pedro, é você?”, perguntou, com a vela empunhada em uma mão e o canivete do outro. 

De repente, a chama iluminou fracamente a cara bonequizada de Pedro. O avatar do amigo estava de pé, e vinha em sua direção, com as mãos esticadas e uma expressão demoníaca no rosto. Júlio sufocou um grito enquanto tropeçava ao subir as escadas de costas, enquanto aquele filhote de Chuck se aproximava, vela e canivete tremendo violentamente. 

“Pe-Pe-Pedro, eu sou seu amigo, pa-pa-para com isso”, implorava Júlio, mas o boneco continuava avançando, cada vez mais ameaçador. Júlio chegou no topo da escada, a porta trancada atrás de si. Estava encurralado. A criatura estava a um degrau de distância, seus dedos pálidos se aproximando dos ombros de Júlio, que já tinha deixado cair a vela e o canivete, esmurrava a porta desesperadamente, gritando e chorando, quando sentiu um par de mãos geladas em seu ombro. 

“Que que houve, meu filho?”, perguntou sua mãe, consternada. 

Ouvindo a voz familiar, Júlio abriu os olhos e se viu no corredor de casa, bem na frente da porta de seu quarto. Sua mãe o segurava pelos ombros e o olhava, preocupada, pois ele tremia dos pés à cabeça.

“O que foi, meu filho, você tá pálido, tá tremendo, e que cheiro é esse?!”, disse a mãe, torcendo o nariz.

Júlio estava confuso. Uma hora estava em seu quarto, noutra estava no porão, agora estava novamente em casa. Olhou para trás, e seu quarto estava ali, do jeito que se lembrava. Pensou em mentir, mas não conseguiria criar em nenhuma desculpa plausível naquele estado. Pensou em contar a verdade, mas quem acreditaria nele? Decidiu um meio-termo. 

“Mãe, foi horrível! Me desculpa, eu peguei o celular pra jogar ‘Sanatório’, mas foi tão real, tão real que eu quase morri”. As palavras jorravam numa torrente de culpa e alívio. “Mãe, me desculpa, eu nunca mais vou te desobedecer, eu prometo que vou estudar, não quero mais saber desses jogos!”, respondeu Júlio, com sinceridade.

Eu gostaria de dizer pra você que Júlio nunca mais desobedeceu sua mãe. Mas não é isso que os garotos fazem, né? A mãe de Júlio também sabia disso. Mas tudo bem, ela já tinha outros cenários terríveis como o daquela noite preparados para quando seu filhinho amado resolvesse sair da linha novamente. 

“Tudo bem, filho, que esse susto te sirva de lição”, retrucou a mãe. “Vem, vamos lá na cozinha tomar um leite quente para te acalmar”, disse, enquanto tirava a chave da porta do quarto do filho e colocava novamente no bolso.

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Robbie Jacks


As lágrimas caíam dos olhos de Elias, que se mantiveram fechados por todo o tempo em que estivera ali. 

“Meu amor, já faz um ano que você não está aqui. A dor só aumenta, está insuportável viver. Por favor, me leva com você, não consigo trabalhar, não consigo mais comer, afastei todos de mim. Não quero mais essa vida maldita, nada mais faz sentido, por favor, me leva...”

Com um suspiro, Elias abriu os olhos devagar. O sol já descia no horizonte, e só aí se deu conta de que passara a tarde toda no cemitério. Em prantos, colocou a rosa que carregava no túmulo de sua amada, fez o sinal da cruz e se despediu, prometendo voltar no dia seguinte. 

Elias caminhava lentamente, ainda embalando seu luto, quando sentiu uma presença bem próxima de si. Atordoado, olhou em volta e não viu ninguém. “Deve ser a minha mente me pregando peças”, concluiu. Retomou o seu passo e logo parou de novo. Havia realmente alguma coisa que o acompanhava. 

“Samanta?”. Elias nem pensou que pudesse estar ficando louco ao chamar pelo nome da falecida esposa. Se havia alguém ali com ele, que motivo haveria senão para preencher o vazio deixado por ela? 

“SAMANTA?”, Elias gritou mais alto. Os pássaros que repousavam numa árvore próxima levantaram voo, incomodados com o barulho. Os arbustos do jardim deram uma leve farfalhada, e detrás saiu um grande cão negro. 

Assustado, Elias deu um pulo para trás, tropeçou em um túmulo e caiu, batendo a cabeça na lápide. Perdeu os sentidos. 

Elias voltou a si por conta dos latidos incessantes do grande cachorro, que corria e voltava para junto dele freneticamente. Demorou um segundo para se recordar de onde estava. A noite já havia caído, o que dava ao cemitério um ar ainda mais assustador. 

O cão, percebendo que ele havia acordado, parou de latir e passou a olhar fixamente para algo atrás do homem. Elias tentou se levantar, mas uma dor lancinante lhe cruzou o crânio, e aí lembrou-se do tombo e da batida. Sentou-se como pôde na beira do túmulo e pôs-se a analisar o cão. Por que parara de latir? Para onde olhava? Tentou virar-se para investigar, mas a dor novamente lhe fisgou a cabeça. 

Uma luz muito clara acendeu-se atrás de Elias. O cão, com medo, começou a ganir e recuar, até que, num pulo, sumiu por detrás dos arbustos. Elias não conseguia se virar para ver de onde vinha a luz que se aproximava dele, cada vez mais azul e forte. 

“Samanta”?, Elias perguntou. Nem cogitou a hipótese de ser o coveiro, ele queria mesmo era ver sua amada. 

“Sim, meu bem”. Elias congelou ao ouvir essas três palavras. Era ela! A voz de sua esposa, de sua tão amada esposa! Elias não sabia o que fazer, o coração quase saindo pela boca, tremendo dos pés à cabeça. Decidiu reunir suas forças para virar a cabeça quando ouviu novamente a voz como um trovão. 

“NÃO! Não se vire!”

“Ma-mas porque, amor?”, Elias estava confuso. “Por favor, deixa eu te ver, me leva com você, é tudo o que eu mais quero!”

“Eli, meu querido, eu também quero ficar com você por toda a eternidade, mas onde estou você não pode entrar. Para ficarmos juntos, você precisa me trazer de volta para o mundo dos vivos”.

“Eu faço tudo o que você quiser, Samanta, minha vida”.

“Ótimo. Tudo o que eu preciso é que você me traga o corpo de uma jovem para que eu possa reencarnar. Você deve matá-la aqui, neste local, para que a alma dela saia e a minha entre em seu corpo”, disse a voz, com autoridade. 

“Meu Deus”, respondeu Elias, chocado, “e-eu não posso fazer isso, quem é você, você não é assim!”, Elias estava atordoado. “E-eu não sou capaz de fazer uma crueldade dessas!”

“Mas amor, essas são as regras daqui deste lado. Eu nunca te pediria algo que fosse te machucar. Mas você não quer que a gente fique junto?”, a voz havia adocicado, e falava quase ao pé do ouvido de Elias. “Nós ficaremos juntos para sempre. É só escolher uma mulher jovem e saudável, e nada mais vai nos atrapalhar. Traga-a amanhã à noite”.

Elias viu um clarão muito forte, depois tudo escureceu. Tremendo e chorando, assustado e ansioso, o viúvo voltou para casa com a mente fervilhando. Sim, sentia muita falta da esposa, e até entendia não poder se juntar à ela, que sempre foi tão boa em vida, mas daí a matar uma pessoa? 

A madrugada foi em claro. O sol nasceu e Elias continuava deitado, olhando para o teto, sem saber o que fazer. Queria a esposa mais do que tudo, e se convenceu de que o plano de Samanta era sua melhor chance. 

Passou o dia pensando em potenciais vítimas, até que lembrou-se de Carol, filha de um de seus amigos do bar. Morava na rua de baixo, e já devia ter seus vinte e poucos anos. Elias a viu crescer e desabrochar em uma linda mulher, cujas feições lembravam as de Samanta quando mocinha. “Bom, já que ela vai reencarnar, que seja numa mulher que me atraia”, pensou. 

Não foi difícil sequestrá-la. Elias simplesmente bateu à sua porta e, contando com uma mãozinha do outro mundo, viu que a mulher estava sozinha em casa. Quando ela percebeu suas intenções, já era tarde: Elias lhe deu uma pancada tão forte na cabeça que a fez desmaiar. Depois de amarrá-la, colocou-a no carro e foi ao cemitério. 

O sol já havia se posto quando Elias finalmente teve coragem de tirar Carol do porta-malas. Se certificou de que ainda respirava, pegou sua mochila e levou-a no colo por entre as vielas, tomando cuidado para não cruzar com o coveiro ou algum andarilho. Procurou o túmulo no qual havia tido o encontro com a falecida esposa e deitou a desfalecida por cima dele. Para se distrair do ato horrível que estava a ponto de cometer, começou a pensar em tudo o que faria com a esposa assim que ela voltasse à vida: os passeios, as viagens, quem sabe ter o primeiro filho...

Os pensamentos de Elias foram interrompidos pelo clarão, que lhe fez virar o rosto e fechar os olhos. 

“Samanta, meu amor, eu fiz o que você pediu”, disse o viúvo, ansioso. 

“Ótimo, ótimo”, disse a assombração. “Agora, acerte-a bem no coração!”

Elias suava frio. “Está bem, está bem. Depois disso, vamos ficar juntos, né?” 

“Para sempre, meu amor”

Elias tremia feito vara verde. Abriu sua mochila, tirou de lá um punhal longo e fino e se posicionou por cima de Carol, que estava se recobrando da pancada. Em pânico, a menina viu o amigo de seu pai por cima dela, chorando e levantando um punhal com as duas mãos até que...

AAAAAAAAAAH!

Elias caiu ao lado do corpo, com as mãos na boca, lágrimas, suor, sangue e baba misturados em seu desespero, sem acreditar no crime que acabara de cometer. O grito de morte de Carol tinha sido a coisa mais horrível que havia presenciado até aquele momento, quer dizer, antes de ele virar para trás e ver coisa muito pior. 

O clarão azul havia se transformado em uma sombra gigante, de bordas avermelhadas. Aquilo que Elias julgou ser um demônio ria de gargalhar, e num movimento brusco e bem doloroso, passou por dentro do corpo do viúvo, que novamente caiu para trás, e se alojou bem dentro do corpo de Carol. 

Elias se pôs de joelhos e estava prestes a ficar de pé quando a recém-morta levantou o tronco. Sentada na tumba, ela olhou para o punhal fincado em seu coração e, rindo, o retirou com um puxão. Dele pingou uma gosma negra e putrefata, e Elias assistia com horror e náuseas. 

“Sa-Samanta?”, chamou, inseguro.

A morta-viva se virou para ele. Seus olhos faiscavam de vermelho. 

“Sa-Samanta?”, ela o imitou, com a voz igual à dele. “Você é mesmo um idiota, um carneirinho”, disse o que quer que fosse aquilo. 

“Vo-você me enganou, eu quero minha esposa de volta!”, bradou Elias, com uma coragem que só quem está prestes a morrer possui. 

“Você quer a sua esposa?”, a coisa rugiu. “Hahahaha, mas você NUNCA MAIS VAI VÊ-LA, seu idiota! Sua esposa querida morreu santa, sem pecados, e você cometeu o pior pecado que o ser humano pode praticar! Você quis ser maior do que a morte, e matou esta menina, aliás, que bom gosto, hein?”, riu a figura sobrenatural, analisando os atributos de Carol. “Agora a sua alma é MINHA, você vai para onde MERECE!”

E, com um movimento rápido, a demônia voou para cima de Elias, agarrou-o pelo pescoço, levantou-o no ar e o apertou como um sachê de catchup. Elias foi ficando roxo, sua língua inchou e ficou pendurada para fora da boca, os olhos saltaram e, em questão de segundos, seu corpo ficou mole. Como se estivesse esperando um novo inquilino, o túmulo onde estava repousado o corpo de Carol se abriu, e a capirota jogou Elias, que parecia um boneco murcho, fechando a tampa e se afastando calmamente, enquanto a lápide, onde se lia 

† Emilia Rosa - 1952-1976 †

era lentamente substituída por 

† Elias Carneiro - 1974- 2017 †

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Robbie Jacks


Os últimos dias foram de muito trabalho para Maria Cosete. Com a festa da padroeira chegando, o pequeno ateliê improvisado na sala de sua casa não parava de receber clientes. Esposas querendo exibir vestidos extravagantes (e seus maridos), maridos querendo exibir suas posses (e suas esposas); solteiras querendo exibir as curvas, para ver se agarravam um bom partido; coroinhas tirando medidas para novas túnicas e, é claro, a nova estola feita sob encomenda para o padre que acabara de chegar na paróquia. 

Maria passava o dia recebendo a gente de toda a cidade, e quase não tinha tempo de costurar. Por isso, deixava para a noite, quando o sol deitava e o povo se aquietava, para botar a mão na massa, ou melhor, nos tecidos. Apesar de trabalhar muito, o dinheiro era parco e pouco. Maria não tinha nem luz em casa. Para fazer suas encomendas, Maria acendia a lamparina e posicionava sua máquina de costura em frente à janela, de modo a aproveitar a luz da rua e, entre um ponto e outro, observar noite adentro a vida que se desenrolava na cidade. 

Num desses serões, passou pela janela Dona Henô, uma das rezadeiras mais antigas do local. Estava voltando de uma extrema-unção, pois o moribundo lhe tinha muita reverência e havia pedido sua presença. Já passava das duas da madrugada, e voltava para casa, exaurida. No entanto, viu a luz trêmula na janela de Maria e decidiu fazer uma parada. 

“Ô, Maria, a senhora ainda tá no batente, fia?”, perguntou a rezadeira, apoiando os braços na janela.

“Pois é, Dona Henô, eu ainda tenho que alinhar essas barras todas aqui antes de amanhecer pra ver se consigo tirar uma pestana antes dos filhos da Chica virem”, respondeu Maria, mostrando uma pilha de roupas inacabadas. 

“Maria, xá eu te dá um conselho, fia: não bote trabalho na hora de descanso. A madrugada pertence aos mortos, tem que respeitar, senão eles vêm te cobrar”, avisou, muito séria. 

“Podexá, Dona Henô, já vou guardar meus paninhos. Muito gradicida pelo conselho, visse?”

Com um aceno de cabeça, Dona Henô se despediu. Ao caminhar, olhou para trás e resmungou para si mesma: “Hmmm, anjo da guarda não vigia quem o olho não prega...”

Quando Maria finalmente "guardou os paninhos", os primeiros raios de sol já despontavam no horizonte. Mas mal caiu no sono e os clientes começaram a bater em sua porta novamente. 

O seguiu frenético, e logo já era noite. Maria pensou em tirar um cochilo rápido, mas a festa estava se aproximando e as encomendas não podiam esperar.

Acendeu a lamparina, pegou o terno preto de Coronel Matos e começou a forrá-lo. Já estava pregando as últimas flores no vestido de Carminha quando notou uma comoção do lado de fora. Largou linha e carretel e espichou-se na janela para ver melhor. Uma longa procissão se estendia pela rua. Vestidos de preto, homens de chapéu e sobretudo e mulheres com longos véus marchavam lenta e silenciosamente pela sua janela, de cabeça baixa, cada um segurando uma vela acesa na mão. 

A costureira estava confusa. Não conseguia ver os rostos das pessoas, queria saber se havia morrido algum conhecido seu, mas como poderia não saber do fato se ela conhecia a cidade inteira? E por que fariam um cortejo a essa hora da madrugada? Maria virava a cabeça de uma ponta a outra da rua, mas não via caixão, nem padre, nem viúva. Apenas mais e mais pessoas apareciam nas esquinas e se juntavam ao cortejo. Maria estava distraída com sua curiosidade, e não percebeu que uma das mulheres da procissão havia chegado bem perto de sua janela. 

"A senhora não deveria estar acordada a essa hora da noite", a mulher de preto disse, assustando Maria, pega de surpresa.

"Creindeuspai, senhora! Num me dá um susto desse a essa hora da noite não! É que eu tô cheia de costura atrasada para a festa da padroeira, então tenho que trabalhar noite afora. Mas me diga, pra onde vai esse tantão de gente, hein?", perguntou, tentando achar os olhos de sua interlocutora por baixo do véu.

"A senhora não deveria estar trabalhando a uma hora dessas", repetiu a mulher, "o dia é dos vivos, já a noite...", não terminou a frase. 

Maria estava cada vez mais confusa. 

"Deixe esta vela aqui na janela", disse a mulher, pingando cera e prendendo a vela no batente. “Vá dormir, e ela se apagará. Amanhã eu volto para buscá-la, mas cuidado: se ela estiver acesa, você virá junto com ela", proferiu a mulher, e se afastou.

“Eita, que mulher estranha”, pensou Maria, fitando a vela. Tentou apagar a chama com um sopro, dois, dez, mas nada da maldita apagar. Molhou os dedos, pegou água na cozinha, mas a chama nem tremelicava. Tentou tirar a vela com a mão, com faca e tesoura, mas ela parecia cimentada em sua janela. Parecia coisa de outro mundo. Maria rezou dez Pai-Nosso e cinco Ave-Maria e foi dormir. 

Na manhã seguinte, Maria foi novamente acordada pela clientela, ávida para experimentar suas roupas novas, nem teve tempo de pensar na vela da janela, que agora estava apagada. A costureira passou o dia ocupada, medindo, apertando, alinhavando e esperando os clientes. Ao final da tarde, estava exausta. Parou para tomar um café. Assim que ia dar uma dentada no bolo de fubá quentinho que acabara de fazer, ouviu baterem à porta. 

“Dona Maria, ainda bem que a senhora está em casa! Preciso da sua ajuda, é uma EMERGÊNCIA!”, era a Madame Luzia, mulher do prefeito.

“Pois não, o que posso ajudar?”, perguntou Maria, lançando um olhar triste para a fatia de bolo esfriando no prato.

“Pois a senhora nem imagina! Eu trouxe um vestido CHIQUÉRRIMO lá da capital pra festa da padroeira, sabe? Mas o INFELIZ do capataz deixou o embrulho cair na lama e agora ele está arruinado, Dona Maria, ARRUINADO! Por favor, a senhora tem que fazer um vestido novo pra mim!”

“Mas Madame, a festa é depois de amanhã!”, protestou Maria, aflita. “Eu não vou ter tempo de fazer um vestido novinho pra senhora e terminar as costuras que ainda tenho que entregar!”

“Você está me negando esse favor? Se for dinheiro, eu pago o quanto a senhora quiser. Quer dizer, não tanto quanto paguei por um vestido da capital, mas pago um preço justo pelo seu trabalho. A senhora não gostaria de ver a PRIMEIRA DAMA com um vestido velho na maior festa da cidade, gostaria?”

E Maria, com todo seu bom coração, pegou para si mais esse pepino. Depois de tirar todas as medidas e se despedir da esposa do prefeito, percebeu que iria passar mais uma noite em claro. Engoliu o bolinho e o café, ambos frios, sentou-se à máquina e riscou o fósforo. 

A vela, que estava na janela, acendeu-se ao mesmo tempo que Maria acendia a lamparina. A costureira levou um susto - tinha esquecido completamente do encontro sinistro da noite anterior. Lembrou-se então das palavras da senhora de preto, “se a vela estiver acesa, você virá comigo”, mas não podia deixar de trabalhar. Se a mulher voltasse para buscá-la, teria que levá-la à força. 

As horas passaram, e Maria estava completamente imersa no vestido. Queria provar para a primeira-dama que era tão boa quanto qualquer costureiro de fora. “Vamos ver quem costura melhor, se sou eu sou aquela gente esnobe da capital”, pensava, enquanto criava, tinha que admitir, um dos vestidos mais lindos que já havia feito, e em tempo recorde. 

Estava já nos detalhes finais quando os viu. A multidão havia se multiplicado desde a noite anterior. De longe, Maria estimava que umas cem pessoas marchavam muito juntas. Uma massa negra pontuada de pingos flamejantes vinha pela rua, em direção a sua janela. Maria estava aflita, mas não podia parar. Pegou linha e agulha com mais força e costurou com fervor. Sua mão estava queimando de dor, mas tinha que terminar antes que aquela viúva negra voltasse e tivesse que perder tempo argumentando com aquela louca. 

Nem bem deu o último nó na linha, a senhora de preto brotou em sua janela. A vela ardia mais forte, e por algum motivo não derretia. Maria congelou de susto, o vestido em uma mão, a agulha em outra. 

“Eu avisei que viria te buscar se a vela estivesse acesa”, anunciou a mulher de preto. “Você violou o descanso dos mortos. Agora, você vem comigo”

“Ah, não vou não”, protestou Maria, empunhando a agulha”. “Só por cima do meu cadáver!”

“Que assim seja”.

Neste momento, a porta da casa de Maria se abriu e foi invadida pela multidão de preto que estava do lado de fora. Maria deu um longo grito, mas foi engolfada pelos enlutados e carregada para fora, sumindo na noite escura.

No dia seguinte, todo mundo só falava no sumiço da costureira, mas o assunto durou pouco. A festa da padroeira foi o grande destaque das rodas, o evento onde a cidade inteira desfilou com os modelitos novos criados por “aquela-costureira-gente-fina-que-sumiu-de-repente-mas-pelo-menos-terminou-minha-roupa-ufa”.

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53
Robbie Jacks




A noite caía lá fora, mas minha intuição não me deixava ir embora. Cansada, abri a porta do necrotério para analisar novamente o corpo. A versão de suicídio imputada pelo companheiro não me fazia sentido. As circunstâncias eram muito suspeitas, e eu senti que deveria me dedicar mais àquele crime.

Puxei a gaveta do número 52, que deslizou com facilidade. Ali estava ela, tão maltratada e desgrenhada como da última vez que a vi. Duas névoas cinzentas cobriam seus olhos, e as marcas no corpo indicavam que sua morte não havia sido fácil.

Percorri seu corpo com os olhos, e parei em sua mão direita, fechada firmemente em torno de algo metálico. Como eu não havia visto isso antes?

Fiz força para abrir a mão dela, já enrijecida pelo rigor mortis e pelo frio da câmara. Quando consegui,um objeto prateado reluziu em sua palma. Um bisturi.

O choque me fez dar um passo para trás. A lâmina, muito afiada, havia feito um corte profundo em sua carne, mas não havia sangue, o que indicava que tinha sido colocada ali depois de sua morte. Mas como?

Deixei-a de lado por um segundo enquanto procurava minhas anotações. A gaveta seguia aberta como uma grande língua gelada no meio de uma parede repleta de outros terrores, outras mortes. “Que tipo de morte vai me levar para essa parede?”, pensei, enquanto revirava os papéis de minha mesa.

Click!

O barulho foi quase inaudível, mas eu ouvi. De costas para a câmara frigorífica, senti o peso de passos lentos e uma respiração ofegante se aproximando cada vez mais de mim. Em pânico, não consegui me mover, até que uma voz gélida e arrastada sussurrou no meu ouvido: “Você não deveria ter voltado aqui”.

E foi assim que eu vim parar na gaveta de número 53.
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Robbie Jacks


Nélia começou a se sentir mal depois de voltar da academia. Com falta de ar, ela ligou para a emergência e pediu uma ambulância. Quando os paramédicos chegaram, ela estava desmaiada. 

Quando recobrou a consciência, Nélia olhou ao redor. Deitada em uma cama reclinável, cercada de aparelhos que emitiam bipes em intervalos regulares, Nélia se deu conta de que estava em um hospital. “Graças a Deus”, pensou. 

Procurou a campainha para chamar algum enfermeiro que pudesse lhe explicar exatamente o que teve mas, por algum motivo, não conseguiu se mexer. 
Tentou manter a calma. Resolveu chamar por ajuda, mas percebeu que também não conseguia mexer a boca. 

Uma sensação de mais puro terror lhe subiu à garganta. “Meu Deus, meu Deus, o que tá acontecendo comigo?”, se perguntava. Queria chorar, mas nenhuma lágrima saía. Nada. Seu corpo continuava inerte, embora conseguisse ver tudo ao redor. 

Nélia ouviu um barulho de porta abrindo e fechando. Rezou para que fosse algum médico ou enfermeiro vindo ver como estava. Tinha tantas coisas que queria saber! Queria perguntar o que estava acontecendo, por que não se mexia e não conseguia falar, queria saber se iria melhorar, há quanto tempo estava ali, quem estava cuidando de seus gatos...

A cortina se abriu, e surgiu uma enfermeira. Vestida impecavelmente de branco, com um chapeuzinho pra lá de ultrapassado, ela poderia passar despercebida não fosse pelo vermelho em seus lábios, cujo forte rubor destoava do resto do figurino, e contrastava absurdamente com a palidez de seu rosto delicado.

“Bom dia, minha querida, como estamos hoje?” cumprimentou a enfermeira enquanto mexia no soro, sem nem olhar para a paciente. Nélia tentou abrir ainda mais os olhos para dizer que estava acordada olha, eu tô aqui dentro, por favor me ajuda, eu não sei o que está acontecendo comigo, que dia é hoje, eu estou aqui há quanto tempo, por favor, olha pra mim, você sabe se tem alguém cuidando da Minnie e do Ricky? 

Mas nada, a enfermeira nem olhava para ela. Movia-se em volta da cama com agilidade, apertando botões, dando petelecos no soro e fazendo anotações. Nélia acompanhava com furor o movimento da enfermeira, na esperança de que ela notasse que tinha acordado, mas não conseguia fazer contato.

“Fica aí bem bonitinha que à noite eu volto, tá?”, disse a enfermeira, fechando a cortina. Nesse momento, Nélia achou que tinha visto a enfermeira olhá-la, e sua boca escarlate esboçar um leve sorriso de meia-boca. 

As horas seguintes foram cruéis. Confusa, sozinha, desesperada, sem poder se mexer nem falar, só restava a Nélia tentar se acalmar. Apesar de achar que seu coração ia sair pela boca, o aparelho que a monitorava não registrava nenhuma alteração em seus batimentos. Não sabia quantos outros pacientes estavam ali naquele quarto, pois não podia vê-los e não ouvia suas vozes. Não sabia se estava em alguma ala crítica do hospital, pois ninguém ali recebeu visitas. As únicas pessoas que entravam eram os enfermeiros, e todos sempre seguiam o mesmo protocolo: cumprimentavam o paciente, zanzavam em volta da cama, mexiam nos aparelhos, escreviam na prancheta, se despediam e fechavam a cortina. 

Nélia ouviu o mesmo procedimento sendo repetido algumas vezes, e passou a contar esses eventos. Além dela, parecia ter mais três pacientes, uma mulher e dois homens, ou uma “querida” e dois “queridos”, todos visitados por diferentes enfermeiros. Os checkups não duravam mais que cinco minutos, que Nélia contava através dos bipes de seu próprio monitor cardíaco. Após a visita, todos os enfermeiros prometeram voltar à noite.

Já havia se passado muito tempo desde que o último paciente havia recebido a visita do enfermeiro, o que deu a Nélia tempo para divagar. Logo ela, que era tão saudável, o que estava fazendo ali? Tentou recordar-se de todos os passos que deu no dia de seu mal estar. Acordou às 7h, como sempre, tomou seu café usual, bem forte com duas torradas de pão integral e tofu, já que era vegetariana, brincou com os gatos, se arrumou e saiu para malhar. “Até aí nada de mais”, pensou. 

Na academia, nenhuma grande surpresa tampouco. Era aniversário do professor, então a turma preparou uma festinha surpresa mas, como precisava trabalhar, entregou sua lembrancinha (uma camiseta escrito “1,2,3,4, Marcelinho é um barato”), se despediu de todos e voltou para casa sem provar nenhum dos quitutes. Assim que chegou em casa, começou a falta de ar. 

“Não, espera!”. Subitamente, Nélia se lembrou. Enquanto fazia sua corrida de volta para casa, sofreu um encontrão com uma mulher que vinha correndo na direção oposta. Apesar da calçada larga, a mulher não fez nem questão de desviar dela, e o choque fez as duas caírem no chão. A mulher, já bastante enrugada, pôs-se imediatamente de pé como se tivesse o fôlego de uma jovem de 20 anos, e voltou a correr como se nada tivesse acontecido. Nélia, ainda no chão, assistiu incrédula à cena, sem saber como reagir a tamanha grosseria.

Ao se levantar, Nélia sentiu um leve cheiro de almíscar, uma estranha escolha de perfume para a mulher, e percebeu que seu braço direito estava um pouco quente. Ao analisá-lo, notou um pequeno furo perto do ombro, justamente onde havia se chocado com a outra corredora. Na hora, não pensou nada de mais sobre o assunto, achou que fosse uma picada de mosquito mas agora, com todo esse tempo livre, se perguntava se havia alguma relação entre entre os eventos. 

Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo. Já era noite? Presa naquela cama cercada de cortinas, distraída apenas pelo que o campo de visão lhe deixava ver, Nélia não fazia ideia do tempo real, só conseguia enxergar o agora e relembrar o passado. 

Nélia ouviu muitos passos, como se várias pessoas tivessem entrado ao mesmo tempo. Alguns paravam logo, outros se distanciavam de onde estava. Um par de sapatos parou bem em frente ao seu cercado. 

Como uma coreografia ensaiada, a cortina de Nélia e dos outros pacientes foi puxada de uma vez só. Nélia viu a mesma enfermeira que a visitou de manhã, mas seus lábios estavam pálidos como sua pele. Parecia até mais velha, ou seria sua imaginação? 

A enfermeira não lhe dirigiu a palavra dessa vez, estava muito ocupada com sua prancheta. Nélia aproveitou para estudar as feições da profissional, que agora lhe parecia tão familiar. A enfermeira se aproxima da cabeceira da cama e tira uma bandeja de prata de dentro de uma gaveta. De relance, ela consegue ver uma infinidade de instrumentos cirúrgicos tilintando enquanto a enfermeira os coloca em cima da cômoda. A ansiedade toma conta de Nélia, que se sente impotente, indefesa e, o pior de tudo, consciente. 

Nélia assiste, aflita, a enfermeira desplugar o soro de sua veia. Um forte cheiro de almíscar invade suas narinas, e aí ela tem um estalo: o esbarrão, a picada, o mal estar, a corredora. Tudo havia sido parte de um plano para colocá-la ali. Será que foi mesmo uma ambulância que a resgatou? Será que aquilo ali era mesmo um hospital? Por que ela, meu Deus? E o quê, exatamente, estavam preparando para ela? Nélia tinha a incômoda sensação de que estava perto de descobrir a resposta dessa última pergunta, e não ia gostar nem um pouco do que estava por vir.

A enfermeira/corredora acoplou uma mangueira fina no mesmo acesso de onde havia tirado o soro. Na ponta, havia um dispositivo que parecia uma chupeta transparente. Ela puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Nélia, cujos olhos queriam saltar da órbita de tanto pavor. 

“Fica tranquilo vai doer só um pouquinho”, disseram todos os enfermeiros em uníssono, como um coral bem ensaiado. A mulher colocou tal chupeta de plástico na boca e começou... a chupar.

Nélia sentiu uma dor como nunca havia sentido na vida, como se sua alma estivesse sendo sugada violentamente pelo dorso da mão. Ela assistiu, com horror, um líquido vermelho brilhante subindo pela mangueirinha (“MEU SANGUE!!”) e sendo bebido diretamente por aquela infeliz, como uma mamadeira. 
Queria gritar, queria arrancar os tubos, matar aquela piranha, desmaiar, morrer de vez, quem sabe, mas só conseguia testemunhar sua própria tortura e sentir suas entranhas ardendo como fogo do inferno, enquanto a enfermeira bebia seu sangue alegremente, como um milkshake do mais puro morango, e seu rosto voltava a enrubescer. 

Ao final do procedimento, a enfermeira tirou o plástico da boca e revelou lábios ainda mais carnudos e vermelhos, ainda pingando sangue. Acoplou novamente o soro em Nélia, que havia desmaiado de tanta dor. Limpou e guardou os instrumentos com cuidado de volta na gaveta, fez anotações na prancheta e recolocou a cadeira em sua posição inicial. Ao sair, virou-se para a paciente, cuja pele pálida estava toda enrugada e colada nos ossos como um sacolé que chega ao fim e se despediu.

“Boa noite, querida, até amanhã”, e fechou a cortina.

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Robbie Jacks


“Ah, vocês já vão embora? Nãão, fiquem mais um pouco...”

Realmente, a noite havia sido ótima, mas Carlos estava decidido. Enquanto a anfitriã se despedia de Lana com um olhar choroso e um abraço daqueles bem bêbados, Carlos sacava o celular para pedir um Uber. O casal havia passado do limite na festa, e não seria prudente para nenhum dos dois pegar o volante de volta casa. 

Beijos, beijos, abraços, abraços, tchauzinhos e muitos au revoirs depois, o celular de Carlos treme. 

“A cavalaria chegou! Boa noite para todos!”, anunciou, quase puxando Lana pelo braço, que ainda estava firmemente agarrada da dona da festa.

“Beijo, gente, eu amo vocêêês”, gritou Lana pelo corredor. 

“Aaaai, que festa BOA, né, amor?”, suspirou a esposa no elevador, com um sorriso bobo nos lábios. 

“Sim, foi ótima”, respondeu Carlos, distraído, saindo rapidamente do elevador e procurando na portaria do prédio o carro do Uber. Nada encontra. 

“Ué, o aplicativo disse que ele já estava aqui. Deixa eu ver de novo”, disse, tirando o celular do bolso.

“P**^% M^**^%!! A bateria arriou! Não tô acreditando nisso”, xingou, enquanto fazia menção de zunir o infeliz do celular no meio da rua. 

“Calma, amor, a gente pode voltar lá na festa e...”

“Não, que mané voltar na festa”, interrompeu o marido, já boladíssimo. “Se a gente voltar lá você não vai largar nunca mais a sua amiga!”, respondeu, fechando o portão da entrada atrás de si.

Neste momento, um táxi desponta no final da rua onde estavam. 

“É nesse mesmo que a gente vai”, avisa Carlos, puxando Lana novamente pela mão e fazendo sinal para o carro. 

O táxi era bastante antigo, modelo duas portas, com a pintura desbotada e um ar meio vintage, mas parecia estar bem conservado. Carlos pensou em esperar passar um modelo mais novo, não queria que o carro quebrasse no meio do caminho até sua casa, em outro município, mas como já estava tarde, e a rua estava deserta, decidiu arriscar. Mal o táxi parou, Carlos já foi instruindo o motorista. 

“Boa noite, meu camarada, a gente vai para Canoas, chegando lá eu te dou as direções direitinho”, disse, enquanto ajeitava Lana no banco de trás e sentava-se ao lado dela. 

O motorista já era bem velhinho, franzino, curvado, de cabelos ralos e brancos, daqueles idosos que dá vontade de levar para casa e ouvir suas histórias. Ele ia abrir a boca para responder, mas uma forte tosse lhe acometeu naquele exato momento. 

“COF COF COF COF”

Quando o acesso amainou, o motorista colocou o carro novamente em marcha e respondeu com uma voz rouca e sofrida “Sim, senhor”.

Assim que se acomodou, Carlos reparou. Por dentro, o táxi era ainda mais velho. Bancos de couro sem apoio para cabeça, um volante minúsculo, uma enorme bola de caranguejo adornando o câmbio, um par de sapatinhos de criança já encardidos pelo tempo chacoalhavam no espelho do motorista, junto a um emaranhado de terços, figas, fitas do Senhor do Bonfim e santinhos. 

“Poxa, que bom que o senhor está rodando a essa hora da madrugada. Se não fosse por você, a gente iria ficar aí na rua a noite inteira”, disse Carlos, tentando puxar conversa.

“Na verdade, vocês são minha última...COF, COF, COF... corrida”, o motorista teve novo acesso de tosse. 

“Moço, cê tá bem aí?”, perguntou Lana, ainda meio distraída. 

“Estou sim... COF COF COF... senhora”, disse o motorista, emendando com uma série de pigarros altos e vigorosos.

O primeiro a sentir foi Carlos. Um cheiro insuportável de carniça lhe subiu às narinas e lhe embrulhou o estômago, fazendo-o engasgar. Lana sentiu logo depois, e soltou um “NOSSA” bem alto antes de tentar freneticamente abrir a janela do banco da frente, que estava vedada com largas tiras de fita marrom.

“Meu Deus do céu, moço, cadê o botãozinho de abrir a janela?”, indagou a mulher, sacudindo todos os orifícios do carro.

“Não tem... COF COF COF... botão... COF COF COF... não senhora”, respondeu o motorista. 

“Mas COMO ASSIM NÃO TEM COMO ABRIR ESSA JANELA, MOÇO?”

O cheiro ficou mais forte, e Lana já estava delirando de nojo. Ia começar a protestar, mas foi interrompida por Carlos, que percebeu que a janela do lado do velhinho também estava coberta de pedaços de fita.

“Amor, fica quietinha, por favor. Se ele ficar de boca fechada, acho que o cheiro diminui”, sussurrou.

Carlos não sabia direito por que o hálito daquele motorista era tão fétido, mas teve pena do velhinho, que parecia muito frágil até mesmo para aguentar o tranco da própria tosse. Além do mais, já estavam na estrada, e era melhor estar dentro do veículo do que no acostamento, esperando alguma viva alma lhes ajudar.

O resto da viagem transcorreu bem, dentro das circunstâncias. Carlos respirou (literalmente) mais aliviado quando o velhinho parou de falar e, consequentemente, tossir, e o cheiro de podre foi ficando menos pungente. O velho motorista estava distraído ouvindo a rádio que, estranhamente, só tocava músicas de 1927. “Deve ser uma coletânea”, pensou Carlos, embora visse com seus próprios olhos que o rádio em questão não tinha nem tecnologia para tocar fitas cassetes, muito menos CDS. 

Ao chegarem na cidade, Carlos passou a guiar o caminho, mas não estava sendo fácil, pois o velho taxista sempre pedia para que ele repetisse as instruções duas ou três vezes. Cada vez que abria a boca, o cheiro de coisa morta invadia o veículo, fazendo com que Carlos concentrasse todas as suas forças para não vomitar e esquecendo de repassar as instruções. 

Numa dessas instâncias, o taxista entrou em uma rua na contramão. Assustado, Carlos sinalizou o erro, e o velhinho prometeu fazer o retorno mais adiante. Desacelerou o carro e foi devagarinho até o final da rua, onde havia um cemitério. O taxista fez o retorno e, ao invés de acelerar o carro, parou em frente ao portão, e teve um acesso de tosse violento.

“Amor, o que que a gente tá fazendo aqui?”, Lana, que havia se fiado em sua bebedeira para tirá-la da situação incômoda em que se encontrava, se viu obrigada a entrar em estado de alerta quando viu o muro do cemitério.

“Senhor, por que parou aqui? É para o senhor voltar por esta rua e pegar a próxima à direita, nossa casa fica a três quarteirões daqui”, disse Carlos, tentando disfarçar a mão no nariz e ainda querendo manter numa normalidade que não existia desde que entrou naquele táxi. 

O motorista não falava mais nada. Só tossia, curvado sobre o volante, cada vez mais forte. Carlos fez menção de ajudar o velhinho mas, quando foi tocá-lo, percebeu que ele estava muito pior do que parecia. O casal assistiu, horrorizado, ao velhinho expelir o que supunham ser seus órgãos, já enegrecidos, um por um: rins, fígado, pulmões, um a um caíam no tapete prateado do carro, fazendo um som de gosma na queda. O cheiro já havia passado do nível de insuportável, mas os passageiros estavam tão em choque com o que viam que não conseguiam reagir. Em um último e violento acesso, o velhinho vomitou o que parecia ser seu último resquício de humanidade: um coração, murcho e empapado, caiu no banco do carona, ainda pulsando.

Lana levou um choque em cima do choque, e deu um grito ensurdecedor. Chorando, ela batia no vidro traseiro freneticamente, tentando fugir daquele filme de horror. 

“Moço, pelo amor de Deus, deixa a gente sair, eu faço o que o senhor quiser!”, gritou, chorando de desespero.

O velhinho estava imóvel, como se o esforço de botar os bofes para fora tivesse consulado todas as energias. Carlos não se mexia tampouco; a única alma viva ali parecia ser a de Lana, que se encolhia e tremia no banco de trás. Lentamente, o velhinho se virou para Lana e Carlos. Ele estava irreconhecível. No lugar de seus olhos, dois buracos muito negros e fundos haviam aparecido. A pele de seu rosto sobrava e dobrava, como uma roupa muito larga para sua figura ainda mais franzina. Já não parecia um velho frágil e bondoso, e sim um esqueleto revestido com um saco de peles, oco, e com um ar muito mais triste. Lana mordia e babava a própria mão para não gritar, e com os olhos muito arregalados, ouviu as últimas palavras do velhinho: 

“Eu falei que vocês eram a minha última corrida...”

A visão foi demais para o pobre casal. Na manhã seguinte, Carlos e Lana estranharam o fato de acordar em sua própria cama, com as roupas da noite anterior, sem saber exatamente como foram parar ali. No entanto, eles jamais pararam para comentar sobre o que acontecera na noite anterior, culpando a bebida pelos flashes de momentos de puro horror que eles provavelmente nunca passaram. De fato, Carlos e Lana poderiam até se convencer de que tudo o que viveram foi apenas fruto de uma noite regada a tequila, não fosse o fato de cada um ter herdado uma tosse seca e persistente que, por uma estranha coincidência, tinha um leve cheiro de carniça.

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