Robbie Jacks

O bar estava cheio, e isso a estava incomodando. Mesmo assim, pediu mais uma dose.
Pousou o copo vazio de conhaque junto aos outros, que formavam uma pequena fila indiana à sua frente. Ou eram duas? Ah, que importa!
—Ô mocinho, traz mais uma!
Torpor... e esse barulho de gente! O que que esse povo tanto tem para comemorar? Por que estão todos rindo? Paul odiaria isto aqui... Paul? Foda-se Paul! Ele não está aqui, está?
—Desce outra logo, garçom!
Ué, quem é esse cara aqui do meu lado?
—É comigo mesmo que você ‘tá’ falando?
—Sim, desculpe, é que eu te achei BFLRKSAORUEBWQA...
ALÔ-OU! Não estou entendendo nada do que você está falando! Estou bêbada, escutou? BÊ-BA-DA! Rá pra você!!!!!
Como a alegrava pensar isto, embora não tivesse coragem de dizê-lo! Sua mente estava acelerada por pensamentos incongruentes, mas seu corpo não sentia mais nada, além da vontade de tomar mais uma. Mas o carinha do lado dela continuou:
—... e eu não sei mais o que te dizer, mas estou com fome, vamos sair daqui?
Opa! É pra já! Tudo para fugir dessa alegria desvairada. Será que tem mais bebida para onde vamos?
Ao saírem do bar, o vento frio e contínuo que soprava na rua ardeu em suas bochechas, e a fez recobrar um pouco da sobriedade. Hm, que friozinho gostoso! Enquanto andavam pela camada finíssima de gelo que lustrava os paralelepípedos, seus pensamentos novamente se viram invadidos. Se Paul estivesse aqui, estaríamos tomando um chocolate quentinho e vendo filmes de 1927...
Sorriu. E, ao se dar conta do sorriso, fechou a cara. O acompanhante fitou-a com apreensão. O que passava na cabeça das mulheres? Achou por bem tirá-la da friagem.
Não vou pensar no Paul, não vou pensar no Paul. Maldito Paul! Por que me deixou? Maldito Paul! Você não me merece! A caminhada seguiu, rápida e silenciosa.
Horas antes, no pequeno café perto do trabalho, seus dois amigos a haviam encontrado. Unidos pelo pesar, começaram a beber ali mesmo. Não falavam nada, só bebiam. Pediram uma porção de batatas-fritas. Um mendigo já de idade fumava guimbas de cigarro que achava no chão. Enquanto a amiga comia sem gosto, e o outro jogava as batatas distraidamente no chão, ela ria sozinha. A bebida começava a fazer efeito.
O mendigo entrou no café. Catou algumas moedas no bolso fundo de um paletó fedorento e pediu uma média. Olhou as batatas esparramadas em torno da mesa, ajoelhou-se, timidamente, e recolheu uma a uma, comendo sob o olhar severo dela, que parara de rir. O amigo levou um choque, ajoelhou em frente ao mendigo e lhe deu o restante da cesta. Começaram a conversar. Ela e a amiga somente observavam, com ar de reprovação. O velho parecia consolar o amigo, que desatou a chorar. Pouco depois, o mendigo também chorou. A amiga logo se juntou, e formaram três cabeças chorosas naquele café. A raiva esquentou seu sangue. Traidores! Haviam iniciado a cura! E eu, o que faço com minha dor????

Ao chegarem no restaurante, não havia vaga do lado de dentro. Foram acomodados em uma mesa na calçada, colada à fachada. Onde estou?Ah, que diferença faz!
—Tem vinho aqui? — o carinha fez que sim.
—Pede uma garrafa para mim, então!
Sentada de frente para a vidraça do restaurante, ela podia ver o interior do salão à meia-luz, onde casais com ares de paixão conversavam amorosamente, obviamente aquecidos pelo ambiente convidativo, o tilintar dos talheres, a leveza dos garçons.
—... it is indeed a bad room with a good view! — disse ele, olhando por cima do ombro.
—HÃ? O que você disse? Repete!! —disse ela, num sobressalto.
Ele virou-se rapidamente e tentou lembrar das impressões comentadas.
—Quê? Hm, eu falava que a decoração é bastante convidativa, romântica até, com seus...
—NÃO,NÃO, O QUE VOCÊ FALOU POR ÚLTIMO? —até ela se assustou com o próprio tom.
—Er... olha, falei uma frase que me veio à cabeça! Que nós estamos “in a bad room with a good view!”
—Não, não, não, não… por QUÊ você foi falar isso? “A BAD ROOM WITH A GOOD VIEW”?? Por que você foi JUSTO falar sobre o lema DELE?
—Lema de quem, mulher de Deus? — ele já estava semi-arrependido de tê-la escolhido como a transa da noite.
—DO PAUL, SEU DESGRAÇADO! SEMPRE do Paul...
Deu um gole generoso no vinho e continuou.
—Ele sempre tinha uma dessas, sabe? Tinha mania de ver o lado bom da vida. Com ele, o consultório médico cheio era uma oportunidade para colocar a leitura em dia; o tênis molhado de chuva, uma desculpa para andar descalço. O lugar ruim sempre tinha uma vista boa...
Terminou o vinho da taça e agarrou a garrafa. Desatou a rir.
—Mas agora— disse, mirando nos olhos do estranho — não tem mais Paul. Não tem mais otimismo, não é verdade? NÃO TEM MAIS BOA VISTA!
Com um estrondo, derrubou sua cadeira e sentou no espaço do lado dele, chegando perto demais do seu ouvido e sussurando:
—Agora, não tem mais Paul para nada. Só eu e você...
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O quarto cheirava a mofo. Não sabia que horas eram, nem quanto tempo passaram ali. Deixou-o deitado na cama e levantou, ainda sem saber o que fazer. Reparou que o cheiro vinha das poltronas e almofadas bolorentas e esverdeadas que supostamente adornavam o quarto. Sentiu nojo de si e dali.
Caminhou vagarosamente pelo cômodo pequeno e mal iluminado. Passou o dedo nos móveis empoeirados. Parou defronte do espelho embaçado: jamais havia se visto assim, tão nua, tão mundana, num lugar tão fétido. Definitivamente “a bad room”, pensou. Resolveu abrir a janela. Deu de cara com uma parede decadente de tijolos vermelhos. “With a definitely bad view”, completou. E começou a chorar.
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Tinha, por hábito, sonhar todos os dias. O objeto de desejo mudava com frequência, mas sempre era mágico. Afinal, todos os seus sonhos continham a mesma temática amorosa.

E eram tão reais que até frio na barriga chegava a sentir. Ela idealizava, caprichosamente, cada aspecto da personalidade do escolhido, mesmo que não soubesse nada a seu respeito. E, todas as vezes que saía de casa, guardava no fundinho do coração a esperança de que aquele era O dia, o dia de encontrá-lo ali, esperando por ela, encostado na parede com seu jeito displicente e seu ar de "chega mais".

Sim, ela tinha sonhos. Muitos deles. E o sonho maior de todos era que todos os seus outros sonhos virassem realidade. Se não fosse tão ordinariamente comum, qualquer passageiro, passante ou pedinte poderia perceber que, embora ela por ali circulasse todos os dias, nunca estava de fato lá. Seus olhos brilhavam de ilusões por trás dos óculos escuros. Embalada pela música em seus ouvidos, lá ia ela pelas ruas, querendo encontrar o amor, mas sem realmente procurá-lo.

Pois ela acreditava em destino. Que tudo tinha um propósito. Que, se era para ser, nem sua abismal indiferença para com o mundo real atrapalharia os planos traçados para ela. Era assim que tinha que ser, e era assim que seria. Como todo bom conto de fada.

Por isso, ela vivia para dentro, perdida em devaneios, aguardando quem a salvasse de si mesma. Como a mais romântica das românticas, a cada relacionamento que iniciava, suas esperanças eram renovadas. "É esse!", afirmava para si mesma; sua busca havia terminado!

Mas o que o tempo não conta e a convivência não esconde é que algumas pessoas não foram feitas umas para as outras. Defeitos, que no início são um charme a mais, uma mostra de que a perfeição é chata, acabam por minar relacionamentos que, não fossem isso, poderiam durar. Mas ela não enxergava nada disso. Se aquela pessoa havia cruzado seu caminho, não media esforços para fazer dar certo, afinal, era o destino, certo?

Assim, aguentou muitas coisas. Traições, brigas sem motivo, hábitos pouco higiênicos, cigarro: nada a fazia desistir. Seu conto de fadas tinha que ser verdade e tinha que ser agora, mesmo que tudo em volta dissesse o contrário. Ela idealizava tanto sua vida, se agarrava tanto à ideia de felicidade, que não era de se estranhar que, a cada rompimento, seu mundo desabasse de forma colossal. Seus namorados, um a um, passavam a odiá-la, tamanha era sua falta de personalidade. Tudo estava sempre bem, tudo era sempre bom. Até que eles davam um basta.

A busca continua. Esperando, fantasiando, se iludindo. Se agarrando à promessa do final feliz. E o eco intermitente da pergunta que insiste em lhe angustiar: falta muito para acabar?
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Robbie Jacks
Isso não é algo que eu faça, ainda mais aqui no meu blog mas, quando vi este texto, não pude ficar alheia: é perfeito. Droga, Caio F. Abreu, por escrever este texto antes de mim. Eu o tinha pronto, em sentimentos dispersos, mas ele estava ali. Só precisava sair.

Agora, saia você da minha mente, viu?







Podia ser só amizade, paixão, carinho, admiração, respeito, ternura, tesão. Com tantos sentimentos arrumados cuidadosamente na prateleira de cima, tinha de ser justo amor, meu Deus?

Porque quando fecho os olhos, é você quem eu vejo; aos lados, em cima, embaixo, por fora e por dentro de mim. Dilacerando felicidades de mentira, desconstruindo tudo o que planejei, Abrindo todas as janelas para um mundo deserto.

É você quem sorri, morde o lábio, fala grosso, conta histórias, me tira do sério, faz ares de palhaço, pinta segredos, ilumina o corredor por onde passo todos os dias.

É agora que quero dividir maçãs, achar o fim do arco-íris, pisar sobre estrelas e acordar serena.

É para já que preciso contar as descobertas, alisar seu peito, preparar uma massa, sentir seus cílios.

“Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?” Não quero saber de medo, paciência, tempo que vai chegar.

Não negue, apareça. Seja forte.

Porque é preciso coragem para se arriscar num futuro incerto.

Não posso esperar. Tenho tudo pronto dentro de mim e uma alma que só sabe viver presentes. Sem esperas, sem amarras, sem receios, Sem cobertas, sem sentido, sem passados.

É preciso que você venha nesse exato momento.

Abandone os antes. Chame do que quiser. Mas venha.

Quero dividir meus erros, loucuras, beijos, chocolates…

Apague minhas interrogações.

Por que estamos tão perto e tão longe?

Quero acabar com as leis da física, dois corpos ocuparem o mesmo lugar!

Não nego. Tenho um grande medo de ser sozinha.

Não sou pedaço. Mas não me basto.


- Caio Fernando Abreu

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Robbie Jacks


"the shadows in your life have disappeared. Now, with my love comes the sunshine. Let your heart open and you will receive it...the passion of life... the gift of freedom"





—Amor, compra uma água pra mim?

A viagem não havia sido das melhores. Cansado, nem percebeu a parada no posto de conveniência, onde as castanhas mais carameladas que já comera repousavam em seu jarro, à espera de clientes ávidos como ele.

A volta àquele lugar era doce e amarga. Durante todo o tempo que esteve fora, desejou correr aquela estrada, parar naquele posto, chegar naquele paraíso. Mas algo estava fora de ordem.

—Nossa, que dia lindo, amor, vem ver!! Vamos pra praia logo, antes que o mundo acorde!

O lugar realmente era de uma beleza indescritível. Só agora, no entanto, podia ver com nitidez full HD todos os tons que pintavam a paisagem: do verde-azul que fundiam céu e mar ao vermelho-vivo das esculturas de barro enfileiradas na areia, que agradeciam o bom tempo para enfeitiçar os turistas.

Da outra vez que respirou esse ar, era tudo tão monótono, tão cinza, que ele se sentiu rejeitado. "Não se atreva a voltar aqui!", urravam as rajadas de vento e chuva que pareciam querer expulsá-lo dali. Mas, com a fé inabalada pela má recepção, decidiu voltar no ano seguinte. E o tempo bom o acolheu. Foi amor à segunda vista.

Mas nem tudo estava perfeito.

—Amor, cê conhece sorvete de cupuaçu? É uma delícia!

Sim, ele conhece. Aliás, ele já foi apresentado a quase tudo. Com bom ou mau tempo, já havia estado ali antes e, chegou à conclusão, havia sido perfeito. Da outra vez, o tempo estava péssimo, a comida fez mal, e o serviço de quarto era de uma incompetência ímpar mas, mesmo assim, não podia ignorar o sentimento. Mesmo com sol, mar e macaquinhos dançando alegremente, a peça que lhe faltava hoje havia estado lá anteriormente. E havia sido perfeito.

Esse era um erro que estava constantemente cometendo. Ele queria acertar, ou melhor, queria que as coisas fossem acertadas por ele. Por isso, tentou substituir a peça ideal por outra menos complexa em todos os quebra-cabeças de sua vida. Como um designer indeciso, testou seu manequim de papelão em diversos cenários. Posicionou-a ao lado de seus amigos na mesa do bar. Abraçou-a elegantemente na foto para a mãe. Ajeitou-a com esmero embaixo de suas cobertas. Não encaixou.

Por último, como se desse de ombros para os sinais, levou seu pôster em tamanho real para o cenário onde sua procura outrora havia terminado. O lugar onde descobriu exatamente por que dizem que viver não tem sentido se as experiências não puderem ser partilhadas com outra pessoa. O lugar onde ouviu que Ela o esperaria o tempo que fosse, desde que pudessem ficar juntos novamente. O lugar onde ele ficou de buscá-la.

Demorou-se longamente, ponderando se valia a pena. Olhou para a direita, olhou para a esquerda, pensou em recuar e lhe sussurraram que deveria ficar parado. Mas ele não deu ouvidos. E ali, naquele lugar que a ninguém mais pertencia além deles, tomou o rosto da outra, da Srta. Genérica, e a beijou. O céu não estremeceu, ninguém o castigou. Mas o que era esperança, virou pó. E o sagrado virou profano.

Hoje ele exibe, para quem quiser ver, a captura daquele momento, a prova irrefutável dos beijos partilhados e do momento dividido com a pessoa errada, com seu esboço de mulher. Dois pedaços de quebra-cabeças diferentes, juntos, formando uma figura pitoresca, grosseira. Mesmo lugar, mesma pose, mesmo sorriso. Só que com outra. Profano.
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Oi?
Robbie Jacks


How does it feel,
When you're alone, and you're cold inside?




Não me leve a mal, mas estou completamente apaixonada. Pela ideia de você. Não sei seu nome, nem onde trabalha, muito menos se gosta de cachorro ou ouve rock. Mas eu te amo.

Já te vi no nosso apartamento, à noite, depois do trabalho, com as mangas da camisa arregaçadas enquanto faz aquela bolonhesa deliciosa que só você sabe fazer.

Já fomos ao cinema, e você riu de mim quando chorei no fim de Toy Story 3. Mas eu bem peguei uma lagriminha tremendo no seu olho também.

Já nos beijamos debaixo d'agua, já fizemos amor no seu antigo quarto. Você conheceu meu pai e conquistou o velho com chocolate e muito papo sobre o Fluminense.

Viajamos para vários destinos exóticos, e tiramos fotos fazendo caretas engraçadíssimas. Jantamos fora todas as sextas, e alugamos filmes no domingo. Às vezes, deixo você escolher. Mas só às vezes!

Já tivemos conversas sérias sobre o futuro. Você sabe que eu te apoio em tudo, mas vamos manter o pé no chão? Já escolhemos o nome dos nossos filhos, e você me pediu em casamento no Central Park. E agora, mal posso esperar para acordar ao seu lado todos os dias durante o resto de minha vida.

Oi, meu nome é Roberta, e eu já vivi uma vida inteira contigo.
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Robbie Jacks






Dia desses, em debate com a dona de outro coração que passa pelas mesmas agruras que o meu, fui alertada para um fato surpreendente: em qualquer situação da vida, sempre há mais de uma opção.

Enquanto conversávamos sobre a dor que o silêncio causa, ela me propôs a seguinte lógica matemática: Se SILÊNCIO = DOR, logo, CONTRÁRIO DO SILÊNCIO = NÃO-DOR. Fiquei estupefata com tamanha simplicidade. Nunca fui boa de matemática, mas essa equivalência TINHA que estar certa.

Foi então que, agarrada na fé do resultado de nossas contas, peguei o telefone e disquei...

Gente, que burrada! A voz que me atendeu era a dele, sem dúvida, mas estava tão seca e fria que até meu coração congelou. Essa voz em nada lembrava a do meu amor, que sempre me atendia com carinho, e me fazia sentir única no mundo. Como as coisas mudam, eu não entendo.

"E o que você esperava, Mariquinha?", me perguntarão os desprovidos de emoção, os céticos e os ateus. Sinceramente? Eu esperava TUDO. Esperava que o tempo tivesse cicatrizado a dor, e não apagado de vez o sentimento. Esperava que a felicidade, já que não bateu à minha porta, estivesse, pelo menos, a um telefonema de distância. Esperava que fosse ser fácil. Esperava que ele estivesse me esperando.

Mas agora, com a certeza de que tudo o que eu NÃO esperava foi o que justamente aconteceu, descobri que talvez fosse melhor eu não ter descoberto nada. Descobri também que o fundo do poço tem um ralo e, quando coisas muito ruins acontecem uma atrás da outra, a gente murcha tanto que fica pequenininho e acaba escoando por ali. E eu fui parar no fundo do ralo do fundo do poço.

E naquela escuridão, tive a grande infelicidade de constatar que o contrário da dor não é a "não-dor". O contrário da dor é uma dor tão grande que chega a dar saudades da dor que havia antes. Já me falaram que a ignorância é uma dádiva. Pena que eu não levei fé.
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Robbie Jacks



Eu achei que Tanta Coisa...

Eu achei que o destino mudaria minha vida outra vez. Achei que, no meio da multidão, iríamos nos esbarrar.

Achei que o telefone ia tocar, que o carteiro ia me chamar, que as amigas iam me alertar: ele mandou lembranças.

Achei que, num arroubo de saudades, você ia aparecer nos lugares que frequentávamos juntos.

Achei que, mesmo se eu não fizesse nada, as coisas voltariam a ser como antes.

Achei que, se eu continuasse fantasiando, meus sonhos virariam realidade.

Achei que o cheiro do seu perfume que senti naquela praça era um indício de você.

Posso ligar a TV agora e ouvir do locutor do jornal o nome que me remete a doces lembranças e amargas memórias. Ouvi deles seu nome, seu lugar, não uma, nem duas ou três vezes, mas exatamente cinquenta e três, desde que sua ausência se tornou insuportável. Achei que era minha alma a te convocar, já que minha boca ainda se recusa a falar seu nome.

Abri meu armário e caiu um pedaço de nosso coração, que compramos juntos naquela lojinha metida à besta, lembra? E eu achei que era um sinal.

Consultei cartas do tarô, oráculos, horóscopos, e até minha prima vidente, somente para a unanimidade me fazer achar que éramos almas gêmeas, que nossos caminhos estavam praticamente trançados um no outro. Achei que era para ser.

E eu, no meu afã de delirar, achei que todo esse aperto no peito que sinto era punição suficiente, que Deus ia ter pena de mim. Achei que minha saudade era o bastante para reparar os danos, cruzar oceanos, construir pontes. Mas o amor não é unilateral.

Indignada, porém resignada, tentei minha última cartada e me fechei. Achei que o silêncio curava. Mas está doendo ainda mais.



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Robbie Jacks



Covarde.

Não há nada pior do que acordar e descobrir que a sua vida mudou. E que você não teve parte ativa nisso.

As mudanças mais intensas acontecem assim, não? Você está lá, tomando seu Nescau de manhã, com o olho ainda cheio de remela e, de repente, uma Grande Mudança arromba a porta da sua casa e te toma de assalto. Dá até para ouvir a onomatopéia.


E ela se vai sem nem ter a gentileza de deixar uma lembrancinha agradável.


Covarde e mentiroso.

Tudo o que você era, ou melhor, que o mundo achava que você era, destruído por uma atitude impulsiva e infantil. Onde estão as estrelas nos olhos? Morreram afogadas no mar da indiferença? Ou caíram no buraco-negro da falsidade, e saíram do outro lado, para formar uma nova constelação?


Covarde, mentiroso e sádico.

Não vou satisfazer seu ego ordinário com ilustrações de minha mente altamente fecunda e traiçoeira. Me recuso a pensar em você, exceto neste minuto em que escrevo este texto. Todos os outros serão dedicados à minha pessoa, e meu prazer. Mas não fique triste: a não-reação também é uma reação. Pegou a pipoca? Está pronto para o espetáculo? Desculpe, não tem função hoje. Que te baste isto que faço agora: a formalização de meu choque.

O que as palavras não conseguirão jamais colorir, no entanto, é a dimensão da decepção. Para quem sustenta ilusões, a verdade pode atingir como o impacto de um trem que viaja a toda força. Ironicamente, o fim de qualquer esperança de reconciliação é, de certa forma, reconfortante. Porque o fim de uma coisa sempre representa o começo de outra. E eu, como gentil refém deste loop, me sinto de volta ao meu aconchego. Recomeço.


Covarde, mentiroso, sádico e babaca.

É consenso geral, atestado pelos melhores institutos de pesquisa, que sua popularidade caiu entre meu povo. Que venham os chavões, aos borbotões. Conheço-os pelo nome, e enumero-os antes de completar a chamada.
Não era para ser? Perdi meu tempo achando que fosse.
Vou arrumar outro melhor? Bom, pior do que estava não dá para ficar.
Ele não me merece? Hell, no!
Foi melhor assim? Eu sei lá.

Recomeçar. Ontem eu dizia "ainda não". Preferi curtir o fim. Perdi uns bons dias lamentando o ciclo fechado, em luto pelo relacionamento morto. Agora, reaprendo a engatinhar, ainda sem a tal vantagem que os 28 anos de batalha supostamente outorgam aos sobreviventes das intempéries amorosas.

E assim vamos nós, eu e sina que o nome deste blog me faz carregar. E quer saber? Nem está doendo tanto assim.
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Robbie Jacks


Eu sei que já falei sobre isso no blog, mas estou num péssimo dia e preciso desabafar. Hoje, acordei empolgada pela perspectiva de alçar novos voos, iniciar novos ciclos. De repente, uma noticiazinha infeliz conseguiu acabar com toda a minha alegria.

Sério, é como quando você acorda no domingo e está um sol lindíssimo. Você liga para as amigas, passa o protetor, prepara um lanchinho (eu sou pobre e o biscoito Globo tá caro!), coloca seu biquíni e corre para a praia. Ao estender a canga, chove. Torrencialmente. Cai até granizo.

É foda.

Meu dia azedou como esse tempo maluco que estraga sua praia. E tudo o que sucedeu só me deu mais certeza de uma coisa: as pessoas não nasceram para ter o que querem. Pelo menos pobres mortais, como eu.

Não que eu queira me fazer de coitadinha. Aliás, nem estou falando de coisas materiais, como dinheiro. Porque o dinheiro só te leva até um certo ponto. Sorte, oportunidade, conhecimento, sagacidade, química, know-how, tudo isso faz falta também. Entre outras coisas, claro.

Hoje fiquei triste por não ter coisas que sempre desejei. Uma raiva se misturou à essa tristeza ao perceber que as pessoas que têm o que eu quero muitas vezes não dão valor. Ou às vezes dão, se elas sabem o quão importante é isso que elas possuem, o que me deixa com mais raiva ainda. Se é importante, eu também quero. Se não é importante, dá para mim?

Hoje é um dia em que tudo o que eu acho que quero na vida me pareceu negado. Veja bem, eu digo "acho" porque eu tenho um medo danado daquele ditado que minha mãe vivia dizendo: "cuidado com o que você pede: Deus pode te dar!". Sei lá, vai que o que eu quero vai me fazer um mal dos diabos? Melhor prevenir do que remediar.

Mas então, hoje foi um dia de sorrir amarelamente para o que eu tenho e supostamente agradecer a Deus por tê-lo. Sim, pois tenho plena consciência de que "alguéns" querem o que eu tenho. Coisas as quais eu não dou o devido valor. Ou dou, o que deve deixá-las com mais raiva ainda de mim.

E eu continuo perguntando: por que há pessoas que querem o que você tem, enquanto você quer o que elas tem? Por que cada um não tem o que quer e pronto? Seria TÃO mais fácil, hein?!

E foi esse desencontro entre "teres" e "quereres" que me deixou extremamente chateada. Fisicamente exausta. Saber que há certas coisas que eu vou querer muito, querer alto, querer até doer, e não vou conseguir é suficiente para me desanimar. Por hoje, pelo menos.
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1. Das atribuições do cargo

  • Fazer programas legais com regularidade
  • De vez em quando esquecer das calorias e se jogar numa cebola do Outback
  • Rir das minhas piadas (com sinceridade, please!) e me fazer rir também
  • Ligar uma para a outra para contar as novidades, desabafar, chorar, ou só para jogar papo fora
  • Concordar quando eu digo que o Michael Jackson está vivo e que o Alejandro Sanz é lindo
  • Ser uma amiga sincera, interessada, que genuinamente se importe com os outros e demonstre isso


2. Das vagas

As vagas, objeto deste Concurso, estão distribuídas por todo o Rio de Janeiro. Não importa onde você more, desde que seja relativamente fácil sairmos sexta à noite para beber um chope.


3. Dos requisitos

São requisitos necessários para a inscrição:
  • Companheirismo- para segurar a barra da melhor amiga nos momentos difíceis
  • Bom humor- porque eu não preciso de amigos emo
  • Reciprocidade- INDISPENSÁVEL para qualquer um que se diga bom amigo
  • Disponibilidade - amigos que nunca tem tempo para o outro não são amigos: há uma carga horária mínima que deve ser cumprida
  • Sinceridade- porque quem se cerca de sorrisos falsos vive numa prisão de dentes amarelos
  • Caráter- mais do que sincero, o cargo pede uma pessoa justa, que não seja filha do Harvey e, sendo assim, tenha apenas 1 "cara"

4. Das Inscrições

Para se inscrever, o candidato poderá mostrar, usando qualquer um dos vários veículos de comunicação disponíveis no mercado, que se importa com a autora. A seleção não é imediata, e pode sofrer alterações. Note-se que alguns canditatos poderão ser escolhidos no primeiro contato. Estes são do tipo "amizade à primeira vista". Isso acontece às vezes. De qualquer maneira, todos os candidatos serão passíveis de admissão, basta preencherem o perfil. Os organizadores deste concurso entendem perfeitamente que a amizade não se compra, não se encomenda, e muito menos se convoca. Mas, como o método tradicional só nos trouxe decepções, duvidamos que, desta maneira, os resultados possam ser piores.

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Robbie Jacks



Era uma vez um reino. Nem bom, nem ruim; nem pequeno, nem grande; nem melhor, nem pior que os outros reinos. Isto se dava porque, naquele reino, reinava uma certa ignorância sobre a existência de outros reinos melhores ou piores, maiores ou menores. Ali, o rei, que também não se considerava nem grande, nem pequeno, com certeza era o melhor para seu povo, pois se preocupava com o bem-estar geral, ajudando, guiando e até dando conselhos, na esperança de obter o melhor de seus súditos. Cada cidadão, satisfeito com as atitudes de seu rei, retribuía também com o seu melhor, garantindo assim a felicidade de todo o reino.

Um dia, um triste e chuvoso dia, o rei recebeu um comunicado de uma terra distante, cujo rei havia sido deposto. Esta cidade passava por um período turbulento e a fama do rei, que já era conhecida por terras além do que a vista podia alcançar, fez com que o povo de lá clamasse por sua ajuda. E ele, sempre muito caridoso, não pôde recusar o apelo desesperado da carta. Convocou todo o povoado e anunciou que teria de partir.

Nem um rosto ficou seco naquela noite. Após o anúncio, todos voltaram para suas casas com o coração pesado de tristeza e dúvidas. Quem garantiria o bom funcionamento do reino agora?

Pela manhã, o Sol nem havia saído, e os arautos do rei já podiam ser ouvidos de ponta a ponta, convocando com suas trombetas estridentes todos os cidadãos para a praça pública. Uma pontinha de esperança surgiu nos corações dos súditos, que pensavam em se tratar da volta de seu líder.

Em poucas horas, todo o povo já havia se reunido no centro da cidade, na frente do palco teatral. Todos se questionavam e conjeturavam sobre o motivo do chamado, até que o burburinho foi interrompido pela voz do mensageiro, que anunciou:

"Sua majestade se foi, e não deixou herdeiros. Portanto, devemos eleger um novo líder. Apresento um candidato, parente distante de nosso querido rei, e vocês decidirão se ele fica."

De trás das cortinas, que velaram inúmeros atores nas peças outrora encenadas naquele palco, surgiu uma criatura muito grande, muito alva, com cabelos que refletiam perfeitamente os raios do Sol. Todos ficaram admirados, pensando em se tratar de algo divino, melhor até que o rei que havia partido. Quando falou, a criatura soou decidida, engajada, disposta a fazer o melhor. E o povo a aceitou.

A vida no reino, no entanto, piorou. O novo rei, tão grande e tão magnânimo à primeira vista, se mostrou mesquinho e errático. Suas ações nunca visavam o bem da comunidade, apenas seu próprio bem-estar e de seus conselheiros. O povo, assustado e revoltado, apelidou a criatura de "a Cousa Loura" que, a cada dia, se tornava mais em mais inchada, peluda, áspera. E loura.

E os dias nunca mais foram de Sol. O tempo feio que pairava sobre o reino refletia o estado de espírito do povoado. Os cidadãos trabalhavam muito e seus esforços não eram reconhecidos. Todas as comemorações haviam sido proibidas pela Cousa Loura. O espírito da ditadura do medo se espalhou pela cidade. O povo passou a ser monitorado por espiões, e tudo o que faziam e diziam era reportado à Cousa, que imediatamente prendia e torturava possíveis rebeldes. O riso e a liberdade foram substituídos pelo ressentimento e censura.

Hoje, cansados dos maus-tratos e da coerção, correm silenciosamente pelas ruelas empobrecidas da cidade boatos sobre uma lenta, mas poderosa, revolução.

E assim, o povo do reino aprendeu sobre a pequenez do ser humano, e entendeu que, às vezes, os melhores atores não são, necessariamente, aqueles que são pagos para entreter.
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Robbie Jacks
(...)Entrei na sala dona de mim e do mundo. O riso me era solto, as palavras fluíam com facilidade, as pessoas todas me conheciam. Nenhum olhar de reprovação, todos pareciam animados com minha presença.

Ao fim, fui perguntá-lo se eu podia ficar. O professor, que havia pego uma escada para buscar seus chapéus no sótão da sala, não havia ainda ouvido meu desejo. "É difícil, né?", perguntei. E ele, do alto da escada, me respondeu: "é, é difícil".

Crianças, muitas delas, apareceram, vindas de todos os lados. Vieram me rir, me falar. Chamavam-me e eu as respondia, no mesmo tom de cumplicidade. E ele então entendeu minha liberdade.

"Sempre há uma saída, minha querida" disse o professor. "Escreva-me uma história. Mas uma história mágica, misteriosa, levemente suntuosa..."

"Sobre minha vida?" interrompi. "Devo falar sobre a verdade?" continuei. "Sim, porque se falar da minha vida, e sobre o maravilhoso, mentirei".

E o mestre, rindo, lembrou-me do velho ensinamento: "se o autor, no fim de sua história, revela que é mentira tudo o que escreveu, e ainda sim assina o texto, nega a própria mentira, descortinando a verdade. Parcimônia, minha querida. Você não quer esconder o todo. Quero mágica!".

"Fácil", pensei.

Em um pulo, eu já corria pelo hall, risonha e saltitante como as roupas estranhamente etéreas que me vestiam. Senti o gosto do desafio como um caramelo que desmancha na boca. O mundo era meu, entendi, porque quem o comandava era uma criança.

O professor passou por mim, com seus 3 chapéus brilhantes (e de cores berrantes), com seus óculos tortos na cara, e me lançou um olhar de cumplicidade, embora sua boca se abstivesse de lançar aquele sorriso que eu só vi durante minha performance em sua aula. Muito interessante, esse meu professor. Tem o charme (e o mistério) de Johnny Depp. Quem sabe um dia...

Corri pelos corredores com a leveza de um gato esperto. Cada obstáculo era delicioso, e eu me preparava com um sorriso desafiador para transpô-los. Quase escutei o tiro da prova que me levou a disparar e saltar sobre uma grande cama onde amostras enormes de tecidos coloridos, macios e felpudos se amontoavam e se alternavam. Procurei por etiquetas, quis saber o nome de cada peça que me tocava, mas deixei para lá, igualmente satisfeita: o mistério dos tipos de tecido era suficiente, risível, e deixá-los sem nome era mais interessante. E eu percebi que ali, enquanto eu corria feliz pela certeza do futuro garantido e da boa sorte, a história que eu sabia ser fácil escrever já estava sendo escrita, entre gargalhadas, sonhos e amostras de tecido.
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Robbie Jacks



Eu sei que o que você está sentindo agora é horrível, mas vai passar. Acredite, eu sei do que estou falando.

Eu sei que, neste momento, tudo o que você vê é uma grande nuvem negra, e acha que o Sol nunca mais vai sair, mas acredite, ele está lá. E você voltará a vê-lo.

Você vai sentir raiva, vai ficar inconformado, vai desejar que o tempo volte a qualquer custo, para que nada disto tenha acontecido. Eu sei que todas as vezes que você abrir os olhos após um sonho bom, a realidade vai te atingir como uma pesada pedra na testa, levando seus olhos a produzir lágrimas inevitáveis.

Eu sei que você vai perguntar "por que eu?", "por que agora?". Eu sei disso tudo, porque eu já estive onde você está agora. Sei de sua dor, pois ela já foi minha.

Queria poder te responder o porquê disso tudo. Melhor ainda, queria que você não tivesse motivos para perguntar nada. Queria que você ainda fosse a pessoa livre e feliz que você era antes disso tudo acontecer. Mas não posso nem te responder nem te acalentar. Só posso te dizer que vai passar.

Nada vai ser como antes. Acho que você já está sentindo isso. Mas, o que esta dor no seu peito ainda não te deixou ver é que essa mudança não é tão ruim. Pode estar péssima agora, eu sei, mas você vai se acostumar. É, eu também sei que ter de "se acostumar" parece um castigo de Deus, comparado ao que você tinha. Mas não é. Porque agora você vai crescer e, logo logo, quando estiver acostumado com sua nova realidade, verá que não é tão ruim assim. E você vai ser feliz de novo. Eu garanto.

Só posso esperar você chegar à conclusão que eu cheguei, de que a verdade é que não há um porquê. E, no seu devido tempo, você vai aceitar o fato de que não ter respostas não é reconfortante, mas também não é devastador. A vida, você vai ver, só tem 1 sentido, e é para frente. Aguardo ansiosamente o dia em que você, como eu, acordará uma manhã e verá que o Sol resolveu brilhar novamente.

Enquanto este dia não chega, lembre-se que estou aqui, como você esteve por mim.
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Robbie Jacks



Galera, acabei de ler o e-mail da Nathalia Duprat, a editora do Tudo de Blog. Através dele, soube que nossa coluna na Capricho acabou. Para falar a verdade, não estou nem um pouco triste. Pelo contrário, estou super feliz de ter participado do TDB desde a primeira turma, em 2006. Adorei conhecer as outras blogueiras, fiz amizade com várias, mesmo as que já saíram. Meu blog começou por causa do TDB, e hoje continua pelo prazer que descobri em ser lida.

O TDB foi uma escola, ou melhor, uma faculdade, já que durou 4 anos para mim, rs. Sinto muito orgulho de ter feito parte deste projeto, do início ao fim. Aprendi a sintetizar, a cativar, perturbar, incitar e emocionar com meus textos. Aprendi a ter opiniões sobre assuntos que nunca antes passaram pela minha cabeça. Aprendi a aceitar o sucesso e o fracasso com a mesma emoção. Mas a minha maior lição foi descobrir, através do TDB, que minha vocação está mesmo nas palavras.

Este ano deixo o Tudo de Blog (ou ele me deixa) e começo a estudar Jornalismo. Sei que, apesar de já ter até um Mestrado na bagagem, serei tão caloura quanto o resto da turma. Caloura sim, iniciante não. Tenho certeza de que entrarei na sala de aula com uma bagagem que nenhum outro aluno tem: essa grande oportunidade que a Capricho me deu de falar com a leitora que um dia eu fui. E essa experiência nenhum diploma do mundo vai me proporcionar.

Gostaria de agradecer à Nath, pelo apoio, carinho e dedicação à nós e ao projeto. Também deixo aqui o meu muito obrigada à redação da Capricho pela oportunidade e valorização de nosso "ofício", que acredito exercermos todos com o máximo de nossas habilidades. A Capricho e o TDB abriram uma janela para um mundo que eu nunca havia visto, o mundo dos editoriais, das pautas, dos prazos e das colunas criativas. Vou fazer de tudo para abrir também as portas deste mundo, pois é lá que pretendo morar.



PS: O Recomeço não acabou, viu? O que acabou foi o Tudo de Blog, coluna da revista Capricho do qual este blog fez parte de 2006 a 2010. Pensar em qualquer fim é muito triste mas, como eu sou a Robbie, meu ponto de vista é outro. Começo, Meio, Recomeço. O fim dando lugar a algo novo e, se Deus quiser, MELHOR! Beijos a todos e até o próximo post!
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Robbie Jacks




Ele achou que valia a pena. Largou a família, os amigos, o emprego chato (mas ainda assim, estável e na área que ele gostava), as partidas de críquete e a terra onde sempre viveu. Apostou todas as suas fichas no amor e na sensação de felicidade que só os sonhos matutinos dos românticos conseguem emanar.

E aqui, na terra do bangue-bangue, do calor de 50º, da pobreza e do Carnaval, ele descobriu que viver de amor é muito mais poético do que prático. O dinheiro era curto, o idioma, um grande obstáculo, a dependência era sufocante e o amor, ué, onde ele foi parar?

Amigos, família e um trabalho que te deixe feliz não são bens que podem ser substituídos com a facilidade de quem troca uma escova de dentes. O amor é lindo e maravilhoso, mas meio burro e bastante etéreo: se perde fácil no meio de contas atrasadas, trabalhos estressantes, pressão nos estudos e ninguém para dividir seus problemas. Quem joga tudo para o alto em nome desse sentimento esquece que a vida é feita de muitos pilares, cujas bases devem ser muito fortes para que, caso uma ou outra se quebre, o prédio inteiro não venha abaixo.

Quem tem um amor, um amor grandão, daqueles que fazem doer, rir e chorar ao mesmo tempo, deve tentar sim ficar junto. Se vai valer a pena, eu sinceramente não sei, pois creio que só pode responder a essa questão quem tentou. O carinha da minha história, ao tomar a decisão, achou que valia a pena. O amor, infelizmente, sofreu demais por muito tempo, tendo uma morte lenta e dolorosa. Ou talvez não esteja de todo morto, apenas congelado em algum laboratório da vida, à espera do soro da Pedra Filosofal, ou do encontro do meio-termo entre as vidas tão diferentes. Mas será que agora, depois de tudo que passou, ele ainda acha que valeu a pena largar tudo por amor? Só ele pode responder...


Pauta para o TDB: vale a pena tudo por amor?



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Robbie Jacks




Acho que levo jeito com as palavras.

Adoro assistir a reality shows de competição, como Top Chef, Project Runway e Top Design. Mas, sempre que os competidores começam a colocar a "mão na massa/tesoura/tinta", eu me pergunto: meu Deus, COMO eles conseguem escolher no meio de milhões de possibilidades???

Não tenho a mínima idéia de como fazer roupas. Se me soltarem numa loja de tecidos, provavelmente vou sentar no chão, com 1 metro de fazenda, e ter um pequeno ataque histérico. São tantos panos, cortes e tendências que fico zonza.

Decorar minha futura casa também vai ser MEGA trabalhoso. Tábua corrida ou piso frio? Pátina na parede vermelha ou um espelho psicodélico? Que diabos é um cachepot e o que ele está fazendo no meu quarto???

Quando o negócio é cozinhar, aí é que eu congelo de fato. Ou melhor, DEScongelo. No microondas, de preferência. E, em mais ou menos dez minutos, meu almoço/jantar está pronto para ser degustado. Me perco de tal maneira na infinitude de temperos, ingredientes, molhos, modos de cozinhar, que nem um livro de receitas para dummies me salva.

Agora, com as palavras eu sei mexer. Diante delas, o mundo de possibilidades que se abre não me assusta, me encanta! A busca enervante por aquele termo que está "na ponta da língua", o conto que flui a partir de uma frase, uma lembrança, a sensação de eureka quando um texto sai no papel do jeitinho que o idealizei; tudo no processo de criação é maravilhoso. Até o "bloqueio mental", que às vezes me frustra a ponto de eu ter que mudar toda uma ideia, apagando e reescrevendo até que fique perfeita, ou a insônia do dia seguinte a uma noite particularmente produtiva, onde uma torrente de insights invade minha mente justamente quando meu corpo tenta relaxar, são preços ridiculosamente pequenos a pagar face à sensação de orgulho que sinto ao colocar o último ponto final em um texto trabalhoso.

Eu juro que gostaria de ser boa cozinheira, designer, ou decoradora. Mas acho que sou boa mesmo é com as palavras. Escrever não é meu trabalho, é meu idioma. E tenho muito orgulho disso.
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Robbie Jacks

(a inspiração deste conto veio desta música linda de Alejandro Sanz & Shakira)

Sofia levantou-se, meio zonza, meio triste. A noite havia sido confusa, mas de nada lembrava. Seus olhos, ainda vermelhos de lágrimas e borrados da maquiagem pesada, vagaram pelo quarto. Tudo o que havia sobrado parecia estar no lugar. O teto em cima, o chão embaixo, a porta à esquerda e a janela à direita. Passado o torpor do primeiro piscar de olhos da manhã, Sofia se deu conta de que era ela quem estava deslocada. Seus ossos doíam, e, ao tentar levantar, uma dor lancinante na testa lhe obrigou a deitar-se mais uma vez, contorcida e amarga de uma ressaca mais física do que moral.

Com a dor ainda latejando em sua têmpora direita, olhou sua cama, e percebeu que estava vazia. Novamente. Será que ele realmente estivera ali? A noite havia sido tão insana, amigos, uma tequila, conversas, uma dose de whisky, risos, duas taças de vinho, um flerte, mais amigos, meia lata de energético e um pó estranho que, disseram, transformava rico em mendigo, preguiçoso em atleta. Tudo para esquecer aqueles olhos cor de fogo do dragão tatuado naquele braço que a envolvia por completo, protegendo-a dos dragões da vida real. Tudo, tudo, tudo caía no limbo entre a sensatez e o delírio quando saía com seus amigos.

No entanto, como pudera esquecer!, ali estava ele, forte como sempre, lindo como nunca. Sofia sentia que todos os drinks do bar não a fariam imaginar aquela silhueta máscula (e agora um tanto brilhante) desenhada pelas luzes neon no canto da pista de dança. O que ele estava fazendo ali? E estaria sozinho? Será que já estaria com outra? Sofia travou uma batalha mental por exatos dez segundos antes de partir, decidida, para cima dele. Se estivesse sozinho, pensou, será que ainda sentiria alguma coisa por ela?

Na pequena distância que separava o bar do canto esquerdo da pista de dança onde se encontrava seu ex, Sofia pensou no quão difícil estava sendo esquecê-lo. Os dias e as noites eram fisicamente computados por ela apenas pela execução de suas obrigações diárias, como trabalhar, jantar, levar Duke para passear. Em sua mente, no entanto, só havia um dia, ou melhor, fragmentos tão pequenos e tão similares que confundiam o calendário: como uma vitrola engasgada em um pedaço particularmente meloso de uma música de amor que estourou há 10 anos passados, Sofia se prendia loucamente aos momentos felizes que passou ao lado dele. Uma sequência de beijos apaixonados, danças, viagens, carinhos, e até as compras que faziam despretensiosamente no supermercado foram devidamente mixadas, glamourizadas e arquivadas na primeira prateleira de sua memória, ao alcance fácil do coração.

No meio dessa confusão de espectros felizes, toda a alegria se foi ou, como Sofia escreveu em sua agenda, "abriram o ralo da minha vida e todas as cores escoaram". Da casa que compraram e mobiliaram juntos, só restaram os móveis maiores, e as paredes nuas. Ah, e o cachorro. Aliás, o cachorro foi idéia dela, já que Sofia sempre morou em apartamento e nunca tinha tido a oportunidade de dar seu carinho a um bicho de estimação. Duke, por pura ironia, andava amuado e quase não comia, pois sempre havia sido mais apegado à ele. Sofia costumava achar graça da dedicação de Duke, sempre andando atrás do dono. Quando este se foi, Sofia percebeu que era Duke quem devia achar graça dela, que também vivia em função do ex-dono.

E ele, ao vê-la se aproximar, quase não acreditou. Por meses, havia tentado contactá-la, mas sem sucesso. Chegou a ir até o prédio onde trabalhava, mas Sofia se recusou a vê-lo. Talvez eu tenha esquecido de mencionar, mas Sofia era tudo, menos uma perdedora. Seu coração apertava como quisesse se enforcar em suas veias e artérias cada vez que pensava nele, mas Sofia era orgulhosa. Ele ainda veio com um papo de amizade, mas Sofia estava decidida. Se ele não a queria por inteiro, não teria nem a metade. E o ignorou completamente durante meses.

Mas ali, naquela luz que o deixava divino, com o nível de álcool acima do permitido a qualquer cidadão que não deseja ver o sol nascer quadrado, com a batida alta da música melosa de 10 anos atrás fazendo seu corpo pulsar involuntariamente, Sofia marchou com vontade para cima dele, postando-se a cinco centímetros daquele rosto que viu tantas vezes ao amanhecer, com os cabelos negros achatados e para cima, como se o travesseiro espertinho tivesse lhe dado um novo look moicano da noite para o dia. E aquelas linhas que se formavam pela expressão de seu sorriso já arriscavam aparecer mesmo em seu rosto sério. Sentia que os créditos não lhe haviam sido propriamente dados por aquelas marcas, já que tantos risos colocou naquela boca. Ai, aquela boca, sempre tão macia e convidativa, envolta pela barba, sempre por fazer, que fazia cócegas quando a beijava devagarinho, e esfolava seu rosto quando o clima esquentava...

Ele a olhou nos olhos e, por um minuto, foi como se nunca houvesse tido um fim. Beijaram-se como antes- os mesmos lábios, os mesmos movimentos, mas o antigo foi renovado pela excitação do esquecimento, e o resultado foi como se seus lábios nunca houvessem tocado. Seu hálito nunca esteve mais doce; o calor que subia seu corpo, nunca mais forte. Beijaram-se tanto que não se sabe como foram parar entre aquelas quatro paredes novamente. As paredes, que um dia testemunharam uma vida que se fluía junta, emoldurando o primeiro encontro, os aniversários, o dia em Paris, a noite em Santiago, tudo com o profissionalismo dos amadores da arte do Preto & Branco, agora eram cúmplices frias e silenciosas de um reencontro impetuoso e desajeitado que não devia acontecer. Até Duke, o cachorro, mesmo em toda a sua amargura, parecia sentir-se envergonhado, recusando-se a latir para o velho amigo que carregava sua dona pelo corredor, levando-a pelo labirinto da casa sem cerimônia nem hesitação para o quarto onde antes era feito amor. O que acontecia agora Duke não sabia, e o tamanho do bocejo que deixou à mostra os dentes afiados (que só mostravam sua bestialidade na bola colorida- presente da vovó) evidenciaram que ele, de fato, não se importava.

E Sofia, naquela manhã onde o Sol entrou pela janela pela primeira vez em meses, olhou para o lado e viu novamente seu outro travesseiro vazio, ainda com a marca (e com o cheiro, ah, o cheiro!) da cabeça de seu erro. Imaginou se seu cabelo ainda acordaria punk como nos velhos tempos. Velhos tempos. Tempos. Velhos.

Sofia se lembrou então de toda a dor que passou, de todas as vezes que acordou abraçada no travesseiro dele, inalando com fervor a fragrância que ele havia deixado para trás, fragrância essa que agora voltava a sentir, e que ficaria ali até o dia em que seu próprio cheiro dominaria novamente sua cama. Sua vida estava longe de ser ideal- ela ainda esperava um príncipe. No entanto, a claridade daquela manhã evidenciou o que não podia mais se esconder.


Suas resoluções foram interrompidas pelo aroma inebriante de café quentinho. É, Sofia também se esqueceu do café-da-manhã maravilhoso que ele costumava preparar. Antes, claro, das mentiras, das brigas e da solidão...

E lá vem ele, quarto adentro, com o café e o coração caprichosamente alinhados na bandeja. Oferece-lhe uma xícara, que ela sorve de bom grado. Passa manteiga em seu pão, que Sofia morde com gosto. Derrama mel em suas panquecas e em sua camisola, que faz Sofia sorrir, enquanto lambe dos dedos o excesso da delícia das abelhas. Por último, estende-lhe o coração, cuidadosamente envolto em desculpas e promessas de fidelidade e felicidade, ao que Sofia, com toda a educação que lhe foi dada, responde:

-Te lo agradezco, niño, pero no.

E o Sol brilhou mais forte.
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Robbie Jacks




Vou do céu ao inferno em um segundo. A cada momento, uma pergunta não respondida, uma armadilha vazia. Um falso alerta, numa manhã que desperta, onde o incerto me acerta: nem um sinal. A euforia de um novo dia tomada de assalto pela descoberta do velho, pela surpresa do comum: a euforia do mono-tom. E todos os dias, esse coração vive e morre, numa arritmia compassada aos passos lentos de uma marcha funesta rumo a onde jaz meu discernimento.

Meu coração me engana todos os sentidos. Sempre te sinto próximo e, quando olho, nada encontro. Meu coração engana minha boca, fazendo-me te chamar mais e mais, como se, à la BeetleJuice, a repetição de seu nome te conjurasse para perto.

Meu coração, tão vil e tão ingênuo, me engana a ponto de fingir que é amor essa dor que sente. Bobo e inútil, bate apenas para sustentar ilusões, imaginar castelos onde os olhos só veem tijolos. Aos olhos, aliás, só demandas lágrimas, punindo-os todos os dias por não cumprirem o teu desejo egoísta de encontrá-lo na multidão.

Quem foi o bastardo que te fez sensível assim? Sê ilha, sê rocha, sê qualquer coisa, mas sê eu de novo! Sou só coração, mas este coração já não é mais só, e muito menos meu. Deixou meu peito para se juntar a corações alheios que, muito ocupados com seus donos, não perceberam a petulância de seu tum-tum-tum distante e constante, que insiste em bater junto de quem não lhe dá abrigo.



É, eu estou muito mulherzinha hoje.
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Robbie Jacks




A idade adulta às vezes me faz esquecer como as coisas mais simples da vida, como um banho de chuva, podem ser libertadoras. A primeira chuva do ano, dizem, tem o poder de renovação espiritual. Sentada na praia escura, na primeira noite de 2010, pensando na minha insignificância frente àquele mar de águas negras, percebi o quanto isto era verdade. A chuva que me molhou dos pés à cabeça mudou meu jeito de ver a vida. Não quero acreditar que essa chuva, que me trouxe algo de bom, levou tanta gente embora não muito longe dali. Não a minha Lluvia. Não mesmo.

O que aconteceu foi inesperado. Não teve clima, pergunta ou porquê: na infinitude de um segundo, senti seu rosto perto do meu. Vi, ao me virar, por trás de seus olhos baixos, a alusão de um sorriso. O assunto de antes me fugiu à mente. Nenhuma pergunta, nenhum porquê, nem um olhar: simplesmente aconteceu.

E os lábios, ao se encontrarem, foram umedecidos não pelo desejo, mas por um líquido ao mesmo tempo refrescante e estranho. À medida que os corpos se aproximavam, os céus pareciam clamar por parcimônia, aumentando em igual escala o ritmo de seu desague. O que era para separar, no entanto, acabou unindo mais, e a chuva se tornou parte de um momento que, sem ela, talvez não fosse tão especial. Sei que a fantasia do ideal me prega peças, mas tenho a liberdade dos escritores para dizer que aquela chuva não foi igual à nenhuma outra que já experimentei. La Lluvia, como gosto de me lembrar, só não foi papel principal pelo fato de um estranho ter me roubado um beijo e, com isso, a cena. La Lluvia fria e firme como um tapa do pai que desperta o filho para a vida veio para lavar minha alma, se misturar às lágrimas que derramei em 2009 e carregá-las para o mar, onde o vai e vem maternal das ondas acalentou e reaqueceu meu coração.


Ali, na beira do mar, as ondas quebravam suavemente em nossos pés, enquanto o tempo parava para que eu pudesse enxergar toda a grandiosidade da Lua como se fosse a primeira vez. Neste momento, quis ser como a ela que, embora o céu estivesse carregado de nuvens, se exibia, impassível e cheia de si, como se dissesse que nada, nem uma noite chuvosa, poderia atrapalhar seu brilho. E assim, em completo transe, eu falava abobrinhas, divagando sobre passados e futuros. Ele, por sua vez, me escutava pacientemente, talvez entediado, talvez confuso, parando aqui e ali apenas para oferecer um comentário, um sorriso, um carinho, tentando (em vão, posso adiantar) me garantir que as coisas das quais eu falava realmente tinham um propósito.

E assim minha virada foi feliz. Depois de um 2009 tão violento, tão difícil, fui encontrar meu otimismo, meu Recomeço, perdido no abraço molhado de lluvia de um estranho tão estranho que, do jeito que veio, se foi, assim como minha lluvia. Dois perfeitos estranhos. Dois estranhos perfeitos.


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