Robbie Jacks




Que espécie de espírito tacanho se apossa dos céus ao promover o encontro entre duas pessoas tão gastas da vida?


Ela chegou com um estrondo. Nervosa, quase animada, vigiava o relógio da estação, e não via a hora de embarcar. Em suas costas, carregava uma mochila sem grandes atrativos, a não ser pelo volume que contrastava com seu torso esguio. Redondinha, a mochila parecia lotada, o zíper quase não fechava, mas ela a carregava com tanta facilidade que podia-se jurar que continha nada mais que tufos e mais tufos de algodão.

Ele chegou manso, murcho, não por uma atitude soturna pensada, mas pelo peso de sua mala gigante, sóbria e marrom, dessas que se vê em filmes de 1930. Com um esforço contínuo e meticuloso, caminhava a passos lentos, quase como se não quisesse andar, ou se achasse inútil gastar seus passos com aquele peso todo o segurando.

Distraída pela ansiedade e pela procura do exato ponto onde embarcaria, ela não viu o trambolho marrom em seu caminho, segurado pelo menino do semblante triste. Um tropeção, um palavrão, mil desculpas, e uma mão que quase larga a mala gigante: foi o que bastou para abrir um sorriso no rosto dos dois.

Mas não era para ter acontecido. Quer seu ônibus tivesse atrasado só um pouquinho, ou o catchup do sanduíche sujado sua blusa, não estariam ali, cara a cara, ou melhor, sorriso a sorriso, descobrindo-se cada vez mais iguais.

Ah, o destino! Esse, que brinca com as nossas vidas e nos faz acreditar que, enfim, o calvário terminará, ou talvez, a nuvem se dissipe e dê praia no domingo... Ele também é responsável direto pelas maiores charadas e decepções sobre a face da Terra.

À medida que se conheciam, cada vez mais nossos jovens e intrépidos amigos se perdiam. Ele, que quase largou a mala (e esse quase é de extrema importância para esta história, prestem atenção!), percebeu que, passado o momento de euforia, não conseguia mais soltá-la. Desistiu de tentar. Arrastou a bagagem marrom-cocô para frente de si, criando uma muralha que intimidou a mocinha da mochila.

Ela notou seu olhar cansado, suas mãos que pareciam calejadas da vida. Era tão novo, meu Deus, por onde andara esse menino? Embora seu falar fosse otimista, notou que lhe faltava o entusiasmo na voz, o viço da ingenuidade não transparecia mais em sua pele. Tinha visto muita coisa, concluiu ela, seria possível recomeçar?

Neste momento, a menina amaldiçoou sua sorte. Por que lhe cruzaria o caminho justamente um homem com uma estrada mais longa que a dela, um ex-prisioneiro de guerra recheado de cicatrizes e coberto de pele dura feito couro de jacaré?

Sua mochila começou a pesar. Não queria que sua trouxa se apercebesse do que sentia, supôs que poderia viajar sem lhe dispensar atenção. Mas, como um ser subitamente animado, a mochila começava a lhe derrubar os ombros, fazendo-se notar, puxando-a para baixo. Pediu licença ao moço, que já nem parecia notá-la pois, absorto em seu próprio ponto de partida, alisava uma fina linha dourada que o ligava à mala. Sentou-se num dos bancos do terminal, respirou fundo, despiu-se da mochila e a abriu.

Estava tudo ali. Nada de novo, apenas todas as coisas que não podia deixar para trás, e mesmo assim se surpreendeu. Seu coração gemeu como um torturado que se apercebe da volta de seu algoz. Tudo tão bem embalado, separado, guardado na esperança de nunca mais ser revisitado ali, aberto novamente, pulsando, vermelho-vivo. O medo da nova jornada a fez se apegar à mochila ainda mais.

O apito soou. A hora havia chegado. Levantou-se com dificuldade, colocou a mochila nas costas. Agora pesava demais. É, ainda não conseguiria deixá-la para trás. Olhou para o carinha do malão marrom. Ele também ouvira o apito, e parecia não saber se embarcava ou não no trem. Olhava para o trem e para a mala, como na escolha de Sofia. Quis dizer-lhe que não precisava se decidir naquele momento, olha, eu também levo minha mochila, não fique assim, vai que, no meio da viagem, arrumemos coragem para jogá-las pela janela, eu jogo a minha e você joga a sua, que tal?

Mas ela nada disse. Embarcou no trem, escolheu um camarote perto da porta e acomodou sua mochila no bagageiro. Enquanto aguardava o último sinal, colocou mais uma vez nas mãos do acaso o seu futuro, esperando com todas as forças que o destino se encarregasse de fazê-lo entrar na cabine com ela, para que juntos iniciassem o que esperava ser uma longa e feliz viagem.
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Robbie Jacks



If I still had feelings
I'd be lying in this bed
As the sun begins to rise
Thinking about us.

If I still had feelings
I'd pretend you never left
And you'd be right here next to me
Lying in this very bed.

All the immensity of the sky
Wouldn't remind me of us
Holding each other and planning
On how many more cloud animals
We would be making up
Together.

If I still had any feelings
He wouldn't be in my thoughts
Although he's finding a little difficult
To settle in my heart.

I wish it was different
I wish this (we?) could be true
But it's hard to be honest
When I don't have any feelings for you.

There's this constant
Ache in my heart
Of a thought I usually get
It's a glimpse of your happy life
(and I'm not in it)
And you're so oblivious to the fact
That I no longer
Care.

Fantasies are never enough
Though now I miss them all
For they fulfilled my world
Since I can no longer feel it.

It's hard to be separated
From the one you thought you loved
It gets harder some nights
But days aren't any easier either
This is everything one would feel
If there were any feelings left.

As I leave for new arms
New promises, new tastes
A new body and new face
I keep thinking about how
Unfair life really is
To not grant one's wish
But to replace it with a new one
And make you think it's all OK
Because you just can't feel a damn thing
Anymore.

por Robbie Jacks

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