Robbie Jacks

Qual o sujeito da oração “choveu”? Sou eu. Eu sabia que ia chover. Mas não sabia que seria tão cedo.

O dia amanheceu brilhante, mas eu sabia que ia chover. A atmosfera muda, alguma coisa mexe lá dentro da gente, até bicho sente. Os ventos estavam fortes, mas não haviam derrubado a árvore podre. Ela só cairia com a chuva que veio a seguir.

E eu ainda pensei que não fosse chover. Achei que o tempo agüentaria, que o Sol sairia detrás das nuvens pretas. Achei que fosse passar, mas me precavi. E quando choveu, eu já estava preparada.

 Não para a melancolia que a chuva trouxe. Não para a cidade vazia, para a cabeça cheia, para o cheiro de chuva e saudade. Não para a torrente de água e sentimentos que inundavam a mim e a rua como se nunca mais fossem parar. Não pelos pingos gelados das nuvens que se misturaram com os pingos quentes dos meus olhos. Eu não estava preparada para nada disso. Eu só tinha um guarda-chuva.

Ao meu redor, alguns corriam apressados, tentando escapar da fúria dos céus. Tadinhos, eu poderia tê-los avisado: ó, vai chover. Porque eu sabia. Só não sabia que ia ser tão cedo. Outros, já encharcados, poderiam até saber que ia chover, mas não acreditaram. Agora que ela havia chegado com força, não lutaram contra, apenas aceitaram as consequências do aguaceiro. Eu pensava como eles, embora estivesse semi-protegida pelo meu teto de pano: vai chover? Claro que vai! Não se pode ter um belo dia de Sol sem um pouco, ou um muito, de chuva.

Passaram também diversos casais. Uns bastante molhados, uns se espremendo debaixo de uma mísera proteção, alguns mais preparados carregavam cada um seu próprio guarda-chuva. Mas todos unidos contra a intempérie. Tenho muita admiração por eles, por conseguirem enfrentar os tempos adversos juntos. Vão pra casa, tomam um banho quente, colocam uma roupa sequinha e pronto: acabou-se a tempestade. Não foi meu caso.

A chuva destrói, desanima, deprime. Mas ela também renova, alimenta, limpa. Sozinha, na chuva, eu e meu guarda-chuva esperamos. Não pela alma e meias encharcadas secarem, não pelo coração pesado de água voltar a seu ritmo normal. Nós simplesmente esperávamos. Um dia essa chuva há de passar. Um dia eu não irei mais precisar de proteção.
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Robbie Jacks
Only a person who wanted to find the Stone - find it, but not use it - would be able to get it.
Albus Dumbledore




Essa é a quintessência da não-realização. Por que nos sentimos incompletos, ansiosos, em busca de um não-sei-o-quê incrível que será capaz de nos preencher e nos tornar plenos?

Passamos a eternidade buscando sonhos, interessados em alguma coisa que vai além do nosso alcance. Queremos tê-la, pegá-la, usufruí-la em sua completude, e cremos piamente que só ela nos salvará de nossas sinas, de nossos destinos. A pedra filosofal encanta, envaidece, cega. Tendo-a ou não, o magnetismo que ela exerce nos torna alheios a qualquer outra conquista. Só ela serve.

Mas, como Rowling nos alerta, não cabe a nós pôr as mãos em nossa pedra. Pelo menos, não por ganância própria. Enquanto estivermos sedentos, ela continuará perdida aí, no bolso de algum garotinho despretensioso com cabelo rebelde, que nem liga para nossa preciosidade. Para ele, aquilo é só mais uma pedra, um pedaço de rocha perdido em sua vida.

Descobri também que tenho em meu próprio bolso pedras de outras pessoas. Talvez sejam pedras de Drummond. Ou talvez eu faça com elas meu castelo. Tenho coisas que jamais almejei, faço coisas que jamais sonhei, ando em lugares e com pessoas com quem nunca tive interesse em estar. No entanto, sei que muitos não apenas sonharam com o que tenho, mas desejaram com força, e nada aconteceu. A pedra deles ainda está comigo, alheia a qualquer esforço de sua parte.

Sei que alguém segura minha pedra. Não sei se mereço tê-la. Mas também sei como sou sortuda de ter uma pedra comigo. Preciso achar a filosofia nessas que chacoalham e se embolam enquanto ando. Que cuidem bem dela por mim. Um dia ela volta pra casa.
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Robbie Jacks







No momento em que meus olhos cruzaram com os seus, nós sabíamos. Sorrisos de cumplicidade, não havia nada a dizer. Tudo sincronizado, tudo esperado, nem uma palavra dita. Era pra ser.



O choro, necessário, era programado, já estava para acontecer. Dei início à minha parte, mas faltava você. Em pensamentos já estávamos juntos, cumprindo o que a profecia soprou em nossos ouvidos ainda no berço. Não havia como fugir, nem queríamos isso.



O tempo que levou era o tempo a se levar. Novas estruturas se formaram. Novos entendimentos foram aprendidos. O mesmo desejo, renovado. O passado recolhido, em toda a sua dificuldade. O presente é mero passatempo para o verdadeiro destino, o futuro esperançoso. Hora de viver o sonho prometido. Já estava combinado. Só falta você.
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