Robbie Jacks



Eu= sujeito simples.
Amo= verbo transitivo direto
Você= objeto direto

E, no entanto, é tão difícil compreender as implicações contidas neste período...

Entre o “eu” e o “você” há muito mais do que um verbo. Há uma vida, um laço, um compromisso indelével que, muitas vezes, não quer dizer coisa nenhuma. Mas eu divago.

As pessoas dizem “eu te amo” por um infinito de razões, e me pus a pensar o porquê disto.

“Eu te amo” porque você me faz bem.
“Eu te amo” porque não apareceu ninguém melhor do que você. Ainda.
“Eu te amo” porque você é lindo/rico/sarado/bom de cama, ou qualquer adjetivo fútil que se encaixe aqui.
“Eu te amo” porque não sei o que é amar, mas deve ser isso aqui.
“Eu te amo”, mas vou ali pular a cerca e já volto.
“Eu te amo”, mas não quero cuidar de você.
“Eu te amo” mas, na verdade, não amo, pois, se amasse, não estava te deixando.
“Eu te amo”, mas só daqui a dez anos.
“Eu te amo” porque já passei por um milhão de coisas ruins, e esse é o melhor relacionamento que já tive.
“Eu te amo”, mas não podemos ficar juntos, porque meu pai é um Mezenga, seu pai é um Berdinazzo e nós vamos morrer no Vale a Pena Ver de Novo.

Foi-se o tempo em que eu sonhava com um amor de cinema. Não um amor perfeito, porque os do cinema não são perfeitos, muito pelo contrário: os mocinhos começam atrapalhados, engatam o relacionamento e logo um dos dois faz merda. Aí rola um chororô pra cá, uns bons drinks pra lá, e quando parece que nada vai dar certo, uma puta coincidência aparece, e os dois reatam, felizes para sempre até os créditos finais.

Este foi um dos primeiros sonhos que tive massacrados. Meu criador nunca me escreveu numa “feliz coincidência” do destino. Minhas histórias terminam sempre no chororô pra cá, e nos bons drinks também pra cá. E depois mudam meu coadjuvante, mas o enredo é sempre o mesmo, o desfecho é sempre trágico. Talvez eu esteja assistindo ao gênero errado...

Nessas histórias, todos os “eu te amo” que ouvi parecem ter saído de um script. Ocos e superficiais. Uma vez, cheguei a ser chamada repetidamente de “amor” enquanto o sujeito admitia que só gostava um tiquinho de mim. Esquizofrenia, a gente vê por aqui.

Não vou dizer que eu também não tenha usado essas três palavrinhas em vão. Já disse “eu te amo” no calor de um momento. Já jurei amar alguém para não magoar a pessoa. Já amei e desamei com igual rapidez. Olhando para trás, nem sei te dizer se amei mesmo alguém.

Meu primeiro “eu te amo” saiu quase como um vômito. Já havia tido outros namorados, já havia ouvido outros “eu te amo”, mas, de mim, nunca havia saído algo parecido. Eu não sabia o que aquilo significava, o que comia, onde vivia. Só tinha amado de verdade, e muito profundamente, a minha mãe, e havia acabado de perdê-la.

Foi em circunstâncias parecidas que proferi as três palavras pela primeira vez.
Esse namoro foi diferente de todos os anteriores. Me tirou da zona de conforto, me fez conhecer um milhão de lugares, um milhão de pessoas. Pela primeira vez, eu estava completamente fora de mim, entregue para o outro. Queria agradá-lo, mimá-lo, ficar bonita para ele. Mas não vivíamos em um conto de fadas, e eu sentia o fim próximo. Assim, depois de um dia murcho, com a tensão fria e cortante pairando no ar, soltei as três palavras. Foi uma surpresa para nós dois. Em cinco meses de namoro, havia carinho, havia bom humor e companheirismo, mas nunca achei que houvesse amor. A impetuosidade da boca foi paga pelos olhos, que derramaram um turbilhão de lágrimas. Aliás, preciso dizer que, desde este dia, nunca mais parei de chorar por esse tal de “amor”.   


Que tipo de amor eu quero? Quero um “eu amo você” onde o “amo” seja sempre a ponte entre eu e você, que nos liga, nos aproxima, nos faz cruzá-la dia e noite. Onde o “amo” seja o elo que nos ligue ao mundo, que nos faça mais forte para enfrentá-lo. Onde o amor seja sempre um verbo ativo, companheiro, transitivo direto a mim (que me perdoe Mário de Andrade), impenetrável a terceiros, compartilhável com nossos filhos e multiplicador de anos de felicidade. Desejo, do fundo do meu coração, um "eu amo você" para a vida toda.
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Robbie Jacks


Demorei a me pronunciar sobre o assunto, em parte porque minha opinião é irrelevante para o conflito que se desdobra na França, em parte porque não sabia pra que lado cair.
Na semana passada, uma entrevista do Renato Aragão causou uma leve revolta nas pessoas, que acharam um absurdo o humorista sentir falta de poder fazer piadas de raça e sexualidade e não ser taxado de racista e homofóbico. Pessoas bradaram que a crescente vigilância e a criminalização desses atos é uma vitória para a sociedade (verdade) e não um retrocesso ao humor (verdade?).
No mesmo fôlego, veio a notícia do atentado ao Charlie Hebdo. À princípio, discutiu-se a radicalidade do ato, a violência desmedida em nome da religião, da moral e dos bons costumes islãs. Certíssimo. Logo depois, começou o trabalho de "contenção do ódio", para que a revolta não descambasse para o preconceito religioso/racial cego e generalizador. Mais do que justo. Mas aí vieram os ultra-politicamente corretos e colocaram a culpa do atentado nos próprios jornalistas. Aí ferrou.
É como se o estupro fosse culpa do short curto. É como se a pedofilia fosse culpa da criança. É como um crime racial fosse culpa da melanina da vítima. É como se a homossexualidade ferisse a moral hétero. É como se o Rafinha Bastos pudesse ser assassinado pela Wanessa Camargo ou, mais recentemente, pela Marlo Meekins só por fazer piadas de mau gosto sobre elas. Não justifica.
Ou se tem liberdade de expressão, ou não se tem. Escolham seu lado. Ou se pode brincar com raças, credos, sexualidades, ou não se pode. Rir da piada de loira pode, mas de negro não pode? Fazer piada de português pode, mas de nordestino não pode? Por favor, decidam.
Aos que defendem que há um abismo entre opressor e oprimido, e acham que fazer uma piada de gaúcho, por exemplo, é bem menos danoso do que fazer uma piada de cearense, eu digo: apenas parem. Os papéis de vitima e algoz não são lineares, mas cíclicos: ao ser humano, qualquer vantagem sobre o outro se torna uma arma em potencial. Logo, uma anedota jocosa sobre alguém que, na sociedade, ocupa uma "casta" mais alta, transforma automaticamente o alvo em vítima como qualquer outra.
Antes de sermos "politicamente corretos" em tudo, sejamos coerentes. Uma piada não dá o direito de tirar a vida do outro, por mais sem-graça que ela seja. Pode se sentir ofendido, pode processar, pode repreender. Pode censurar? Não sei. Pode matar? Claro que não. Viu, Rafinha? Te dei uns anos a mais de vida. Não precisa me agradecer.

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