Robbie Jacks

Bom, não dá pra dizer que me sinto do mesmo jeito que há 1 ano atrás. Se 2015 fosse um parque de diversões, seria um "Terra Encantada": largado à própria sorte, vazio, monótono e com alguns perigos em potencial.

No entanto, ele também escondeu passagens secretas e festas clandestinas. Reza a lenda que, vez ou outra, foi possível ouvir ecos de milhares de risadas descompassadas, de adultos e crianças que deixaram um pouco de suas almas ali.

Há também quem jure de pé junto que, no meio da madrugada, ouviu o ranger dos carrinhos estremecendo os trilhos da montanha-russa, sentiu o delicioso aroma da pipoca e do algodão-doce, se assustou com os sussurros do trem-fantasma, e até sentiu uns respingos do lanche mal digerido de algum pobre coitado preso lá em cima, no Evolution.

2015 foi um parque de diversões abandonado: está tudo lá, só que com uma grande fita amarela que afugentou  os pagantes comuns. Somente os aventureiros mais intrépidos foram capazes de extrair do meu 2015 alguma centelha de vida. Fagulhas essas que renderem foi fogo, não tenho que me queixar. Let it burn, baby, let it burn!

2015 esse amontoado de coisas de que, olhando agora, não pareceram nem um pouco amontoadas. Ele passou como um flash, e não posso dizer que não estou agradecida por isso. Foi um ano bem 'blé', com alguns 'mimimi' e muito 'hahahahahaha'. Tive uma cota de 'buááá' para fazer inveja a qualquer reservatório, chorados com o vigor do pulmão de um recém-nascido. Recém-morri no final de 2014 e só recém-nasci de novo no final de 2015. Mas valeu. Fiquei quietinha, me embalando à noite, me encorajando de manhã, me dizendo para levar a vida, só mais um dia, só mais um dia. E o dia finalmente chegou.

Que em 2016 os risos voltem a ecoar com força, de verdade, e sem parar. Que as guloseimas nunca deixem de me inebriar. Que só os fantasmas me assustem, que o choro seja de felicidade e que, se for para passar mal, que eu tenha sempre um Eparema na bolsa e um amigo à mão. E que tudo fique em paz. Não por abandono, e sim por plenitude. Feliz ano-novo!
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Robbie Jacks


Acordei descabelada, como todas as manhãs, e fui tomar meu nescau. Liguei meu celular despretensiosamente, só para checar a atividade do dia anterior (vai que alguém importante resolve me mandar mensagem de madrugada?). Constatando que ninguém se lembrou de mim às 3 da manhã, resolvi dar uma passada básica no Tinder, pra ver o nível da galera.

Desliza pra esquerda, desliza pra esquerda, desliza pra esquerda, ai meu dedo, desliza pra esquerda, que mania esses caras têm de tirar foto do peitoral, desliza pra esquerda, mais um cara que surfa não, desliza pra esquerda, Prestobarba tinha que fazer uma ação de marketing aqui, desliza pra esquerda, Beyoncé já tá cantando "To the Left", desliza pra...

PARAAAA! Que que eh isso aqui, meu Deus? Que escultura, que entalhe, que detalhe, parece alguém que eu conheço... Opa, é o Kevin dos BACKSTREET BOYS a 14km de distância da minha pessoa??

Gente, não cri na minha sorte. Sob a alcunha de "Felipe, 29 anos", estava nada mais, nada menos do que meu ídolo desde os 15 anos! E ele estava logo ali, talvez pelo Méier, ou dando um rolê em Rocha Miranda, talvez tomando um pingado na feira de São Cristóvão. Dei logo um Super Like pra ele me notar, né? Apesar de a gente ter se conhecido no começo do ano e termos passado momentos maravilhosos na companhia um do outro, achei que ele talvez não fosse se lembrar de mim...

Mas ele me curtiu de volta, que emoção!! Já fui dando um "hi" pra não perder tempo, e ele me disse "oi linda" de volta. Aaaaaai, gente! Isso às 7 da manhã, e eu achando que meu dia ia ser banal...

Perguntei "how are you", com meu inglês de Open English mesmo. Ele demorou para me responder, achei que tinha se arrependido de falar comigo, mas logo o aplicativo apitou.

"vc e muito linda"

AAAAAAAH! Kevin, assim eu fico vermelha! Fiquei tão nervosa que quase não consegui digitar.

"Você fala português, Kevin?"
"Pra vc eu falo"

Ploft, me joga pelo muro do cemitério!! Ele aprendeu português POR MIM, gente! 

Mas aí eu comecei a pensar: o que o Kevin estaria fazendo no Brasil que ninguém sabe? E pq o nome dele tava diferente no app? Não resisti e perguntei. 

"To no brasil de passagem linda vim t ve
O nome e p naum me acharem fala pra ning n ta"

Claro que não, Kevão! Seu segredo está salvo comigo! 

"Voce e gostosa p c********"

OPA! KEVIN, seu danadinho! Já está até familiarizado com as gírias brasileiras! O que a Kristen vai pensar???

"Kem?"

Tomei isso como um sinal de que queria resguardar sua futura ex-esposa. É um lorde esse meu Kevão.

"Gostosa manda nude"

Keviiiin, seu assanhado!! Ó, eu disse que mandaria, mas só se ele mandasse primeiro!! Jamais perderia a chance de ter um registro daquele corpo escultural que logo seria meu.

"Comigo eh aivivo eu mato a. Cobra e mostro o pau na hora k vc kiser"

Nesse ponto, gente, eu já não sabia mais o que fazer com tanta emoção. Já estava imaginando nossa casa, nossos filhos, ele matando cobras todas as noites e eu sendo obrigada a ver o pau incessantemente, maravilhosa. 

Já sinto o bafo quente da boca das invejosas, destilando veneno e jurando que nosso amor é fake. Pedi para vê-lo e matarmos essa vontade louca de ficar junto.

"Por favor, Kevin, preciso muito te ver. Você é o homem da minha vida!"

..............

Ele demorou algumas horas pra responder.

"Ok,mas eu to um pko diferente da foto ta"

Claro que tá, meu lindo! Essa foto é velha, você está mais gato ainda! Lembra quando a gente se conheceu em julho? Então, nunca vi ninguém mais lindo em toda minha vida!

"Eh lembro"

"Então, vamos nos encontrar?"

Marcamos nosso encontro para o fim de semana, no calçadão de Madureira. Eu sei que o lugar é um pouco exótico, mas acho que ele não quer chamar atenção, por ser uma celebridade, e quer se misturar ao povo. Eu entendo. Ele disse que é um pouco mais baixo do que aparece na televisão (os empresários o fazem usar botas de salto para parecer mais alto), e que também está com alguns quilinhos a mais e perdeu um pouco de cabelo por causa da idade. Ah! Ele também disse que o sol do Rio deixou sua pele um pouco mais escura e enrugada, mas isso é normal. Para facilitar, ele vai estar usando crocs e pochete, mas é claro que não preciso de nada disso para reconhecer meu homem.  Vamos nos encontrar e vai ser lindo e eu não vou chamar nenhum recalcado para ir no backstage na próxima turnê do meu marido! Hunf!

Robbie Jacks


Quando o McFly chegar, vou pedir o DeLorean emprestado. Quero voltar a 1985, sentir o cheirinho da pele e o calor do abraço da mamãe, brincar com minha boneca favorita, dar um beijão na minha babá. Do alto dos meus três anos, quero refazer minha história, dividir meus brinquedos com as pessoas certas, e abrir o berreiro mais alto quando outras crianças chatas aparecerem.
Quero impressionar a tia da escola com minhas artes, deixar a mamãe orgulhosa com a arrumação dos meus brinquedos, quero que papai ande comigo na rua e todos digam "que gracinha a sua filhinha".
Quero andar de Chevette, tomar sacolé da fruta, beber meu Nescau na mamadeira, andar só de fraldinha pela casa e pedir pra mamãe me dar banho de baldinho.
Quero tentar me desculpar com meu irmão por ter roubado o lugar de bebê que antes era só dele. Tó, toma a minha babá, ela vai te tratar bem também. Eu gosto de você, por favor, goste de mim.
Quero voltar a 1985 e colocar Balão Mágico na vitrola, ouvir histórias da vovó, pedir colo quando estiver cansada, e dormir o sono dos puros, embalada pela voz de mamãe.
McFly, me empresta seu DeLorean? Preciso voltar a 1985 para finalmente viver, pois em 2015 eu me sinto morta.

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Robbie Jacks

Se você tem mais de 30 anos, está solteira e não sabe bem como aproveitar a vida, este clube é pra você!

Nosso clube é o que existe de mais decadente na face da Terra, e é a sua cara!

Nossas reuniões acontecem todas as sextas-feiras, à meia-noite, em algum point xexelento da cidade.
Nosso uniforme é o tubinho: pode ser preto, branco, colorido, o que importa é ser o mais envasado a vácuo possível! Se tiver transparências em lugares estratégicos, melhor! Menos pano=mais sucesso!

Nos pés, nada menor que um salto 15, por favor. Chapinha e make de teatro kabuki são um must. Dica: abuse do rímel. Ele vai fazer você pensar duas vezes antes de chorar as mágoas depois de ser tratada como um pedaço de carne na balada.

Nosso clube também oferece diversos cursos pra você se dar bem (?) na arte do amor:

- Workshop de "como fingir que não ligo se ele não liga";

- Palestra motivacional, feat. "Não era para ser", "Seu dia vai chegar", "Foca no trabalho", com participação especial do clássico "Ele não te merece". Imperdível!

-Oficina de serralheria para aprender a polir a cara-de-pau dos homens;

- Técnicas de tai-chi-chuan, medicina ayuvédica e mentalizações, para atingir o nirvana na próxima vez que sua tia distante perguntar: "E os namoradinhos?"

-Curso intensivo de cuidados infantis, pra você que vai virar babá dos filhos de suas amigas casadas. Por uma graninha extra, já vamos te chamando de titia, porque é pra isso que você vai ficar mesmo.

- Treinamento de primeiros socorros, para acudir as amigas solteiras que perdem a linha nas baladas de sexta.

Caso precise, também fazemos intervenção no sábado de manhã, para buscar as novatas na casa da transa furada de sexta. O kit, com cura-ressaca, remédios anti-aids e pílula do dia seguinte é vendido à parte.

Ao final do curso, você será premiado com seu primeiro filhote de gato. Sugerimos que dê à ele um nome seguido do número 1, pois ele é só o começo de sua longa e próspera vida como "a louca dos gatos", que é como os filhos dos vizinhos irão te chamar!

Pare de reclamar da sua vida solitária e venha se sentir mais sozinha ainda com a gente! Insatisfação garantida ou seu dinheiro de volta!
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Robbie Jacks


Confesso que recebi com um sorriso no rosto a notícia de que a atriz Paolla Oliveira trocou Joaquim Lopes por outro ator. Não sei se a ex dele, Thais Fersoza, também riu ao receber a notícia, mas acredito que sim. É aquela piscadela do universo que demora, demora, mas um dia chega.

Lá no fundinho, uma situação dessas é o que todos queremos: a completude da vingança, o riso solto, a certeza de que há justiça no mundo e que não sofremos à toa. Aqui se faz, aqui se paga, é o que queremos acreditar. É por isso que vemos novelas, lemos histórias, torcemos para os mocinhos, vibramos quando um bandido é preso. É por isso que, até hoje, sentimos pena da Jennifer Aniston, mesmo ela sendo magra, rica, linda e noiva de um cara magro, rico e lindo. Nem o Brad nem a Angelina se fuderam ainda, então, parece que a novela não acabou. É preciso que a parte ofensora se dê mal, se estrepe, peça pra voltar de joelhos. Aí sim nos sentimos vingados, ou melhor, justiçados. É catártico.

Os defensores do amor livre olham de cara feia para nós, reles mortais. Pregam que ninguém escolhe se apaixonar por outra pessoa, que ninguém rouba ninguém de ninguém, que amor é assim mesmo. Devem ser mais evoluídos do que eu, com certeza. Porque eu só penso na sacanagem que duas pessoas fizeram com outra.

Não, eu não estou por dentro da história. Não sei se o namoro foi bom ou ruim, se o casamento foi forçado ou não. Mas ele a namorou. Pediu-a em casamento. Casaram-se e, na frente de todo mundo que importa pros dois, juraram amor até que a morte os separasse. Entraram num avião rumo a um lugar paradisíaco onde desfrutariam de seu novo status. Voltariam provavelmente para uma casa nova, desembrulhariam os presentes e começariam a dar vida, uso, cheiro e cara ao seu novo lar. Mas ele escolheu fugir de tudo isso, e pior: tomou uma decisão já calçado em outra, planejando com a amante um futuro que não incluiria nada daquilo para o qual havia se preparado. Traiu não só o relacionamento, mas todos os planos que largou com a então esposa. Covarde.

Sobra raiva para a amante também. Se for verdade que a paixão não tem tiro certo, também é verdade que podemos escolher não seguir o coração, não deixar-se seduzir pela tentação. Ora, não somos humanos, racionais e com livre arbítrio? Em tese, podemos tudo: mentir, xingar, roubar, matar, trair. Porém, o que nos impede de pôr em prática um ou mais dos verbos acima é a nossa moral. É ela quem nos dita, mais do que a Bíblia, a não cobiçar o que é do próximo. O carinha é culpado de ter traído? Óbvio! Tá feio, ta escroto. Mas ela também tem responsabilidade, pois escolheu se meter no meio de uma história que já estava andando. Se não tivesse cativado, ou se deixado cativar, ele poderia mesmo assim pular a cerca, mas com outra pessoa. E essa pessoa que lidasse com o carma no final das contas. O que que custa jogar limpo com o parceiro? Não tá afim, vai embora, termina, não casa. Mas não traia!

Agora, com a notícia de que a Paolla fez o que já sabemos que a Paolla sabe fazer, nos sentimos completos. Mesmo com a Thais já casada (e feliz, espero), estava faltando o gostinho daquele prato que se come frio e, de preferência, sangrando. Mesmo que cinco anos tenham se passado, mesmo que a Thais já nem pense mais no cara, mesmo que a maior vingança dela tenha sido voltar a ser feliz, sempre falta o bandido se dar mal no final. Sou e serei sempre team Grazi, team Scheila, team Aniston, team Calabresa (apesar dela ter lidado escrotamente com a situação).


E agora que ele já pagou pelo seu “crime” e voltou a ter ficha limpa, ele pode catar seus caquinhos, recomeçar e ser feliz de verdade. Mas, por enquanto, espero que esteja doendo bastante, viu, Joaquim? Bem feito.
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Robbie Jacks



Eu= sujeito simples.
Amo= verbo transitivo direto
Você= objeto direto

E, no entanto, é tão difícil compreender as implicações contidas neste período...

Entre o “eu” e o “você” há muito mais do que um verbo. Há uma vida, um laço, um compromisso indelével que, muitas vezes, não quer dizer coisa nenhuma. Mas eu divago.

As pessoas dizem “eu te amo” por um infinito de razões, e me pus a pensar o porquê disto.

“Eu te amo” porque você me faz bem.
“Eu te amo” porque não apareceu ninguém melhor do que você. Ainda.
“Eu te amo” porque você é lindo/rico/sarado/bom de cama, ou qualquer adjetivo fútil que se encaixe aqui.
“Eu te amo” porque não sei o que é amar, mas deve ser isso aqui.
“Eu te amo”, mas vou ali pular a cerca e já volto.
“Eu te amo”, mas não quero cuidar de você.
“Eu te amo” mas, na verdade, não amo, pois, se amasse, não estava te deixando.
“Eu te amo”, mas só daqui a dez anos.
“Eu te amo” porque já passei por um milhão de coisas ruins, e esse é o melhor relacionamento que já tive.
“Eu te amo”, mas não podemos ficar juntos, porque meu pai é um Mezenga, seu pai é um Berdinazzo e nós vamos morrer no Vale a Pena Ver de Novo.

Foi-se o tempo em que eu sonhava com um amor de cinema. Não um amor perfeito, porque os do cinema não são perfeitos, muito pelo contrário: os mocinhos começam atrapalhados, engatam o relacionamento e logo um dos dois faz merda. Aí rola um chororô pra cá, uns bons drinks pra lá, e quando parece que nada vai dar certo, uma puta coincidência aparece, e os dois reatam, felizes para sempre até os créditos finais.

Este foi um dos primeiros sonhos que tive massacrados. Meu criador nunca me escreveu numa “feliz coincidência” do destino. Minhas histórias terminam sempre no chororô pra cá, e nos bons drinks também pra cá. E depois mudam meu coadjuvante, mas o enredo é sempre o mesmo, o desfecho é sempre trágico. Talvez eu esteja assistindo ao gênero errado...

Nessas histórias, todos os “eu te amo” que ouvi parecem ter saído de um script. Ocos e superficiais. Uma vez, cheguei a ser chamada repetidamente de “amor” enquanto o sujeito admitia que só gostava um tiquinho de mim. Esquizofrenia, a gente vê por aqui.

Não vou dizer que eu também não tenha usado essas três palavrinhas em vão. Já disse “eu te amo” no calor de um momento. Já jurei amar alguém para não magoar a pessoa. Já amei e desamei com igual rapidez. Olhando para trás, nem sei te dizer se amei mesmo alguém.

Meu primeiro “eu te amo” saiu quase como um vômito. Já havia tido outros namorados, já havia ouvido outros “eu te amo”, mas, de mim, nunca havia saído algo parecido. Eu não sabia o que aquilo significava, o que comia, onde vivia. Só tinha amado de verdade, e muito profundamente, a minha mãe, e havia acabado de perdê-la.

Foi em circunstâncias parecidas que proferi as três palavras pela primeira vez.
Esse namoro foi diferente de todos os anteriores. Me tirou da zona de conforto, me fez conhecer um milhão de lugares, um milhão de pessoas. Pela primeira vez, eu estava completamente fora de mim, entregue para o outro. Queria agradá-lo, mimá-lo, ficar bonita para ele. Mas não vivíamos em um conto de fadas, e eu sentia o fim próximo. Assim, depois de um dia murcho, com a tensão fria e cortante pairando no ar, soltei as três palavras. Foi uma surpresa para nós dois. Em cinco meses de namoro, havia carinho, havia bom humor e companheirismo, mas nunca achei que houvesse amor. A impetuosidade da boca foi paga pelos olhos, que derramaram um turbilhão de lágrimas. Aliás, preciso dizer que, desde este dia, nunca mais parei de chorar por esse tal de “amor”.   


Que tipo de amor eu quero? Quero um “eu amo você” onde o “amo” seja sempre a ponte entre eu e você, que nos liga, nos aproxima, nos faz cruzá-la dia e noite. Onde o “amo” seja o elo que nos ligue ao mundo, que nos faça mais forte para enfrentá-lo. Onde o amor seja sempre um verbo ativo, companheiro, transitivo direto a mim (que me perdoe Mário de Andrade), impenetrável a terceiros, compartilhável com nossos filhos e multiplicador de anos de felicidade. Desejo, do fundo do meu coração, um "eu amo você" para a vida toda.
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Robbie Jacks


Demorei a me pronunciar sobre o assunto, em parte porque minha opinião é irrelevante para o conflito que se desdobra na França, em parte porque não sabia pra que lado cair.
Na semana passada, uma entrevista do Renato Aragão causou uma leve revolta nas pessoas, que acharam um absurdo o humorista sentir falta de poder fazer piadas de raça e sexualidade e não ser taxado de racista e homofóbico. Pessoas bradaram que a crescente vigilância e a criminalização desses atos é uma vitória para a sociedade (verdade) e não um retrocesso ao humor (verdade?).
No mesmo fôlego, veio a notícia do atentado ao Charlie Hebdo. À princípio, discutiu-se a radicalidade do ato, a violência desmedida em nome da religião, da moral e dos bons costumes islãs. Certíssimo. Logo depois, começou o trabalho de "contenção do ódio", para que a revolta não descambasse para o preconceito religioso/racial cego e generalizador. Mais do que justo. Mas aí vieram os ultra-politicamente corretos e colocaram a culpa do atentado nos próprios jornalistas. Aí ferrou.
É como se o estupro fosse culpa do short curto. É como se a pedofilia fosse culpa da criança. É como um crime racial fosse culpa da melanina da vítima. É como se a homossexualidade ferisse a moral hétero. É como se o Rafinha Bastos pudesse ser assassinado pela Wanessa Camargo ou, mais recentemente, pela Marlo Meekins só por fazer piadas de mau gosto sobre elas. Não justifica.
Ou se tem liberdade de expressão, ou não se tem. Escolham seu lado. Ou se pode brincar com raças, credos, sexualidades, ou não se pode. Rir da piada de loira pode, mas de negro não pode? Fazer piada de português pode, mas de nordestino não pode? Por favor, decidam.
Aos que defendem que há um abismo entre opressor e oprimido, e acham que fazer uma piada de gaúcho, por exemplo, é bem menos danoso do que fazer uma piada de cearense, eu digo: apenas parem. Os papéis de vitima e algoz não são lineares, mas cíclicos: ao ser humano, qualquer vantagem sobre o outro se torna uma arma em potencial. Logo, uma anedota jocosa sobre alguém que, na sociedade, ocupa uma "casta" mais alta, transforma automaticamente o alvo em vítima como qualquer outra.
Antes de sermos "politicamente corretos" em tudo, sejamos coerentes. Uma piada não dá o direito de tirar a vida do outro, por mais sem-graça que ela seja. Pode se sentir ofendido, pode processar, pode repreender. Pode censurar? Não sei. Pode matar? Claro que não. Viu, Rafinha? Te dei uns anos a mais de vida. Não precisa me agradecer.

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