Robbie Jacks




Roseli acendeu a última vela e colocou no altar. Ajoelhou-se, juntou as mãos, fechou os olhos e rezou com o fervor de sempre. Perdeu-se no tempo e nas orações, até ser interrompida por uma batida na porta.

“Vambora, Rose, o jantar tá na mesa”, gritou a avó, impaciente. 

Roseli terminou a última prece, fez o sinal da cruz e levantou-se. 

“Daqui a pouco eu volto, meu amor”, disse, dando um beijo em uma foto em preto e branco. 

“Eu já falei que essa minina tá ficando maluca, daqui a pouco tem que internar”, disse a avó, enquanto trazia a travessa de macarrão da cozinha. 

”Isso é coisa da idade, vai passar”, respondia a mãe, passando a mão nos cabelos de Roseli. 

“Que idade, fia? Acorda! Minha neta já tá beirando os trinta, tá virando uma solteirona encruada. Isso é falta de homem”, retrucou a avó, dando ênfase na última palavra. 

Roseli já estava acostumada com esse tipo de troca entre a mãe e a avó. As duas tinham suas opiniões acerca de sua vida amorosa, mesmo que a delas não tenham dado certo. Os comentários da avó costumavam magoá-la muito antigamente, mas não mais. Agora, Roseli tinha um amor, o amor mais puro e verdadeiro que existia no mundo, e ela duvidava que alguém já tivesse sentido o que ela sentia naquele momento. 

“... eu tô dizendo, minha filha, não é normal alguém ficar enfurnada num quarto acendendo vela pra morto que nem conhece”, continuava a vó, falando sobre Roseli como se ela nem estivesse ali. 

“Mãe, vamos jantar e deixar essa conversa pra outra hora, sim?”, suplicava a mãe, olhando com pena para a filha. De cabeça baixa, Roseli fazia o máximo para engolir rápido a comida e voltar para seu amado. 

Depois de terminar de lavar a louça, Roseli voltou para o quarto e trancou a porta atrás de si. Ao contrário do resto da casa, era ali que se sentia realmente à vontade. Ali era seu santuário, onde guardava suas melhores lembranças. Uma explosão de rosa cobria as paredes, enfeitadas com fotos de sua infância e pôsteres de seus artistas favoritos. Suas bonecas continuavam enfileiradas nas prateleiras, todas muito bem arrumadas e penteadas. No entanto, era na penteadeira que estava seu cantinho favorito. Ao invés de maquiagens e produtos de cabelo, Roseli havia transformado o local em um altar. Era ali que passava incontáveis horas, rezando. E não era para um santo qualquer não. Era para seu noivo, Alberto, com quem se reuniria muito em breve.

.......

“Solange, você tem certeza de que a Roseli tá bem?”. Vó Alda estava preocupada. 

“Mãe, eu também me preocupo, sabe? Mas acho que não vai ajudar em nada ficar falando mal da Rose na frente dela”, respondeu a filha.

“Mas minha filha, como é que ela pode estar apaixonada por esse tal de Alberto se ela nem nunca o conheceu?? Ele morreu antes dela nascer, isso é doença!!”

“Eu sei, mãe, mas eu acho que ela vai melhorar quando conhecer um homem de bem”

“Mas COMO que ela vai conhecer um homem de bem se ela só sai de casa pra ir ao maldito cemitério? Ela vai casar com quem, com o coveiro???”

“Deus te ouça, mãe, Deus te ouça...”

Sentada à penteadeira, Roseli, terminava seu penteado. Estava se achando linda em seu vestido rosa cheio de babadinhos, e arrematou o look prendendo uma flor no cabelo. Colocou seu melhor perfume, pegou uma das várias cópias da única foto de Alberto que possuía e colocou-a ao lado de seu próprio rosto, mirando o espelho. 

“Você gosta deste vestido, Alberto? Comprei especialmente pra você”.
Rose sorria, enquanto olhava para o reflexo dos dois. “A gente faz um casal lindo, e logo, logo estaremos juntos para sempre”. 

Rose pegou um buquê de flores e saiu porta afora sem dar atenção para a mãe e para a avó na sala que, para variar, estavam falando dela. 

“Olha lá! Lá vai ela pro cemitério namorar o morto! Ela nem sabe se esse cara foi direito na vida! Pra morrer cedo desse jeito, boa coisa não deve ter sido”, lamentou a avó, largando o crochê.

Realmente, Rose sabia pouco sobre o amado, mas isso era até melhor. Gostava do mistério em volta de sua personalidade, tentava desvendar quem ele havia sido e o que o levou a falecer tão jovem. Não que não tenha investigado. Procurou nos arquivos da biblioteca da cidade, mas ninguém tinha registro da morte de Alberto Lima, ocorrida em 1986. Foi até o cartório, mas a certidão havia sido perdida num grande incêndio em 1990. Assim, Roseli só tinha a lápide do morto para montar sua versão dos fatos. Sabia que ele havia nascido em 1950 e, portanto, tinha 36 anos quando faleceu. Não devia ter família, já que ninguém o visitava desde que começou a frequentar o cemitério. A foto em sua lápide era a única evidência de seu corpo físico, e foi por ela que se apaixonou há dois anos, quando esteve no local para o enterro de sua tia-avó. 

Foi amor à primeira vista, como dizem. Rose passou o enterro todo vidrada na lápide de Alberto e, quando o cortejo se preparou para deixar o cemitério, roubou a foto e escondeu-a no sutiã. Assim que chegou em casa, inventou uma desculpa para sair de novo, e foi correndo para o bazar da esquina. Lá, pediu para ampliar a foto e fez várias cópias, todas laminadas, e voltou para casa. Era o começo de seu namoro com Alberto.

Roseli chegou com as flores e depositou-as carinhosamente no túmulo de Alberto, como fazia todos os dias. Retirou as flores secas dos dias anteriores, sacou um paninho e um frasco de sua bolsa e pôs-se a polir o túmulo, enquanto conversava com o amado. 

“Feliz aniversário, meu amor. Olha o vestido que comprei pra você, gostou? Hoje à noite, meu amor, nós vamos ficar juntos para sempre. É uma pena que eu não conheça a sua família, aquele bando de desnaturados que nunca vieram te visitar - er, desculpa, mas é verdade”, disse Rose, jogando perfume em volta da lápide. “Mas não importa, né? A minha família é como se estivesse morta também, ninguém liga pra mim. Me chamam de louca porque eu amo você, acredita? Mas eles não te conhecem como eu te conheço, não sonham com você como eu sonho. E hoje é nosso grande dia!”, Rose se levantou com um pulinho animado. “Até daqui a pouco meu querido, vamos selar nossa união e aí todos vão ver que nosso amor é verdadeiro e eterno!”

..........

Na hora do jantar, Rose estava animadíssima, tanto que sua mãe e sua avó perceberam e, claro, comentaram. 

“Que bicho te deu, hein, menina? Parece que viu passarinho verde!”, disse a avó, entre uma garfada e outra. 

“Vai ver que ela conheceu um rapaz de verdade”, respondeu a mãe, esperançosa.

Rose não dizia nada. Não tinha fome, mas se forçou a comer para não levantar suspeitas de seu plano. Absorta em seu mundinho, às vezes deixava escapar uma risadinha, para a consternação da avó.

“Ih, não sei não...”, disse Vó Alda, pressagiando algo muito sinistro. 

Às onze e meia, quando todos na casa estavam dormindo, Rose terminou de ajeitar o véu sobre a cabeça. Afofou as mangas bufantes de seu vestido de noiva. Olhou-se no espelho da cômoda com a foto de Alberto ao lado e sorriu. “Estou pronta, meu amor”, anunciou. Pegou um buquê de rosas brancas, uma mochila e dirigiu-se até o cemitério. 

Apesar da escuridão, Rose chegou com facilidade ao túmulo de Alberto. Já conhecia o caminho de trás pra frente. Ajoelhou-se em frente ao túmulo, retirou as rosas que havia trazido de manhã e pousou o buquê em seu colo. Tirou de sua mochila um gravador, colocou a mão esquerda na foto de Alberto e apertou o play. 

“Senhoras e senhores, estamos aqui reunidos para celebrar a união de...”

“ALBERTO E ROSELI”, proferiu Rose, abafando a voz do padre.

“em sagrado matrimônio”, continuou a gravação. 

“Cláudio, você aceita a mão de Dalva em nome de Jesus?”

“ALBERTO”, corrigiu Roseli.

“Aceito”, respondeu o áudio. “Dalva, você aceita a mão de Cláudio em nome de Jesus?”

“ROSELI”, corrigiu a noiva novamente. “Claro que aceito, Alberto, meu amor”.

“Pelo poder investido em mim, eu vos declaro marido e mulher”. 

Roseli pausou a gravação. Lágrimas brotavam de seus olhos. “Foi lindo, meu amor, este é o momento mais feliz da minha vida”, disse Rose, enxugando as lágrimas. “Agora é a hora da nossa lua de mel”. 

Ainda emocionada, a noiva tirou da mochila um pé de cabra. Afastou o véu do rosto, encaixou a ferramenta no túmulo e fez força. Lentamente, a tampa começou a deslizar, deixando entrever um buraco fundo e fétido. Com mais alguns empurrões, Roseli conseguiu afastar a tampa por completo, e agora estava ali, a um palmo, ou melhor, a sete palmos, do amor da sua vida. 

Desceu o buraco com cuidado para não sujar muito o vestido, afinal, não queria que Alberto a visse toda desarrumada. De pé em cima do caixão, Roseli pegou o pé de cabra novamente e forçou, forçou, forçou, até que a tampa do caixão se abriu...

.......

A manhã seguinte foi de burburinho intenso na cidade. Dizem que o coveiro levou um susto quando encontrou uma lápide violada. Mas o cara quase bateu as botas mesmo quando foi investigar e viu que dentro da cova havia um vestido de noiva cuidadosamente dobrado e mulher seminua, morta, envolta em um cadáver putrefato que vestia com um terno novinho, ainda com a etiqueta pregada. Dizem também, mas aí eu não sei se é maldade do povo, que o coveiro relatou a mulher morreu sorrindo, e que estava segurando uma parte bem pouco ortodoxa do falecido Alberto Lima...


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Robbie Jacks


Júlio mal podia esperar para chegar na escola. Estava animadíssimo com o novo celular que havia ganhado do pai, mais potente, e queria mostrá-lo aos amigos. 

“Nossa, mano, esse é o último modelo!”, admirava Patrick, tirando o celular da mão de Júlio. “Dá aqui que eu quero ver que jogos você tem”.

“Ah, eu baixei os melhores, né”, respondeu Júlio, se gabando para os amigos. “Zombie War, Hunter Jack, Danger Zone, Ghoul Attack...”

A lista era enorme. Enquanto Júlio recitava todos os jogos violentos que cabiam na sua RAM, Patrick ia confirmando no celular, um a um, uma pontinha de inveja lhe amargando na garganta. Até que viu um ícone que não reconheceu.

“Ué, o que é esse aplicativo aqui, ‘Sanatório’? Nunca ouvi falar!”

“Como não? Esse é um RPG maneiríssimo, acabou de ser lançado, cara!”, disse Júlio, tomando o celular de volta. “A galera vai jogar na hora do recreio, vai lá assistir a gente”, disse Júlio, desligando a tela. “Vambora que já está na hora da aula de Matemática e eu tô quase reprovando nessa matéria”.

No intervalo, Júlio já saiu da sala com o celular na mão, e encontrou seus amigos em um canto mais quieto do pátio. Cada um sacou seu smartphone e a batalha começou, em meio a muitos gritos e palavrões do grupo. O objetivo do jogo era matar uma penca de monstros assassinos para escapar do manicômio onde os personagens estavam presos. João estava encurralado entre um cara com uma serra elétrica e um zumbi sem braço, enquanto Silas lutava no terceiro andar contra uma horda de aranhas gigantes. Pedro e Júlio estavam em um porão escuro e assustador, tentando encontrar a chave da porta para poderem sair e lutar com os outros personagens. Já haviam feito algumas descobertas mas, como tudo o que é bom acaba, o sinal tocou e os amigos se viram obrigados a voltar para a aula. A aventura teria que esperar. 

Ao fim do dia, Júlio só tinha um pensamento: jogar Sanatório. Chegou em casa ansioso e já foi colocar o celular para carregar. 

“Boa noite, filho, você não vai me dar um beijo?”, perguntou a mãe, da cozinha.

“Ai, fala sério, mãe, eu hein”, gritou Júlio do quarto. 

“Seu pedido é uma ordem”, retrucou a mãe, chegando na porta do quarto do filho. “Vamos falar sério: cadê o boletim?”

“Er...”, Júlio olhava para a mochila e para a mãe, o medo passando por seus olhos.

“Anda, dá cá logo, vamos ver se as aulas particulares adiantaram alguma coisa”, ordenou a mãe. 

Sem saída, Júlio abriu a mochila e tirou um boletim pontilhado de notas vermelhas e entregou. Viu as bochechas da mãe ficarem muito vermelhas e a maldita veia na testa começar a pulsar, nervosa. Lá vinha o sermão... 

“EU FALEI PRA VOCÊ PARAR DE FICAR VENDO TV E JOGANDO JOGUINHO E METER A CARA NO ESTUDO, MOLEQUE! VOCÊ TÁ ACHANDO QUE EU SOU RICA, QUE VOU TE SUSTENTAR O RESTO DA VIDA? E TEU PAI AINDA TEM A CO-RA-GEM DE TE DAR UM CELULAR NOVO DE PRESENTE? ALIÁS, ME DÊ CÁ ESSE CELULAR QUE VOCÊ ESTÁ PRO-I-BI-DO DE MEXER NELE ATÉ SUAS NOTAS MELHORAREM!”, gritou a mãe, arrancando o celular com fio e tudo da parede.

Júlio estava revoltadíssimo, mas sabia que não adiantava discutir. Bateu a porta do quarto e ficou a noite toda com a raiva fervilhando por dentro, achando a vida muito muito injusta e prometendo a si mesmo que iria fazer as malas e se mudar para a casa do pai. 

De birra, Júlio não saiu do quarto nem para jantar. Lá pelas tantas, no entanto, a fome era tanta que ele não conseguia pegar no sono. Sem querer dar o braço a torcer, abriu a porta devagarinho para ver se a mãe ainda estava na sala. Não estava. Foi até a cozinha pé ante pé e abriu a geladeira. “Hmmmm, frango com batatas”, pensou, enquanto devorava uma coxa gelada e enfiava umas batatas na boca ali mesmo. Quem tem fome não tem frescura, não é mesmo? 

Com o bucho forrado, ia voltar para seu quarto quando viu: o fio do carregador de seu celular estava pendurado em cima da mesa, com uma ponta dentro da bolsa da mãe. Júlio olhou para o corredor para se certificar de que a mãe não iria surpreendê-lo (o que resultaria em coisa pior do que o esporro que acabara de levar) e abriu a bolsa. Lá estava ele: grande, estalando de novo, e com seu avatar lhe esperando para abrir a maldita porta do porão. Júlio não pensou duas vezes: agarrou o aparelho e correu para seu quarto, fechando a porta atrás de si.

Com a luz apagada para não levantar suspeitas, Júlio sentou-se na cama, conectou o carregador na tomada e escondeu-se debaixo das cobertas. Com uma mistura de nervosismo e excitação, abriu o aplicativo do jogo e ficou olhando a barrinha de carregamento 

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“Anda logo, vai”

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“Nossa, que lerdeza”
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“QUE???”

O celular apagou. Júlio sacudiu, apertou todos os botões, mas o celular não ligava. Tirou a coberta da cabeça e procurou a tomada, mas o fio estava pendurado ao lado da cama. “Ué, será que se soltou?”, se perguntava, enquanto tateava no escuro pelo buraco da tomada. 

Assim que encostou a mão na parede, Júlio sentiu uma gosma muito gelada escorrer por ela. “Eeeew, que porcaria é essa?”, falou baixinho, limpando a mão na camisa. Seu quarto estava mais escuro que o normal, e não enxergava um palmo à frente. “Talvez tenha faltado luz no bairro”, pensou. Deixou o celular na cama levantou-se para ir até o quarto de sua mãe, mas deu uma topada em alguma coisa muito dura no meio do caminho. 

“Aaaaaah, sh@&$*#%!”, gritou Júlio, segurando o pé que latejava de dor. “Bem que a mãe falou para eu guardar os brinquedos”, falou para si mesmo, tentando mover o dito-cujo do caminho. 

Mas não era um brinquedo. Era grande demais, largo demais. E estava preso ao chão. Júlio se ajoelhou no chão e, com as duas mãos, começou a explorar o objeto. Parecia uma grande caixa de concreto. Subiu em cima e colocou as mãos à frente. Achou mais uma um pouco mais adiante. Continuou tateando. Outra mais acima. 

Era uma escada. 

Júlio levou um susto tão grande que se desequilibrou e caiu com um estrondo onde tinha começado. A adrenalina era tanta que o menino não sabia nem por onde começar a pensar: “onde estou?”, “cadê meu quarto?, “o que tá acontecendo?”, “como essa escada veio parar aqui?, “cadê minha mãe?”, “será que eu vou morrer aqui?”, eram só algumas das perguntas que passavam zunindo por sua mente. 

Júlio desligou o sensor de “vai dar M” e ligou o Modo Ação. Agora precavido, pôs-se de joelhos e foi, devagarinho, tentando achar alguma coisa para acender a luz. É, aquele definitivamente não era seu quarto. Esbarrou em vários móveis que nunca existiram em seu quarto, derrubou o que parecia ser uma bandeja cheia de objetos metálicos, tropeçou em sua cama que, pela finura e frieza da cabeceira, deduziu ser uma maca de hospital (o que lhe deu um frio tenebroso na espinha), até que chegou em uma cômoda. Algumas gavetas estavam trancadas mas, na última, achou um fósforo e uma vela. Procurou por cima do móvel e achou um cinzeiro. Acendeu a vela e prendeu-a ali. 

Júlio parou por um segundo, orgulhoso de sua própria sagacidade, e olhou em volta. Pelo que a chama fraca da vela lhe deixava perceber, o lugar em que estava tinha um aspecto asqueroso. Das paredes escorria a tal gosma que ele havia tocado, o chão de tábua corrida estava sujo e empoeirado, assim como os móveis, grilhões e instrumentos que só poderiam ser de tortura dividiam espaço com vários itens de hospital. Apesar de repugnante, o ambiente não lhe parecia totalmente estranho, parecia que já o tinha visto antes em algum lugar. 

Júlio perambulava com a vela, bem devagar, quando se deu conta de que algo se mexia em um canto que ainda não havia visto. Morrendo de medo, mas decidido a sair dali a qualquer custo, Júlio caminhou até o canto inexplorado e aproximou a vela. 

“AAAAAAAAAAAARGH!”

Júlio deu um pulo pra trás tão alto que quase apagou a vela. Uma aranha enorme correu por entre suas pernas, fugindo daquela luz incômoda. Do canto de onde saiu, o menino viu, através da chama amarelada, uma fração de rosto com um olho aberto, caído de lado no chão, imóvel. Pensando que fosse um boneco, Júlio reuniu toda a sua coragem e se aproximou novamente para investigar. Passou a vela pelos pés, pernas, tronco. O boneco estava vestido com um uniforme branco, desses de hospital. Tinha mais ou menos o seu tamanho, o que o tornava ainda mais ameaçador. Viu os cabelos ruivos e longos, que cobriam parte do rosto do boneco. Tremendo, tirou os cabelos do rosto do boneco e tomou outro susto: era seu amigo de escola, Pedro. 

Com a mente a mil, Júlio começou a sacudir e chamar pelo amigo, mas logo percebeu que realmente era só um boneco idêntico ao amigo. Além do mais, por que Pedro estaria ali naquele buraco com ele, usando aquelas roupas, se há um minuto atrás ele estava em seu quarto prestes a jogar ‘Sanatório’? 

“Ei, espera um pouco”. Júlio começou a juntar o quebra-cabeças. Colocou a vela no chão e começou a investigar as roupas do boneco Pedro.

“Ahá!”, gritou, triunfante, quando descobriu uma pequena insígnia em forma de triângulo com o símbolo da Dharma, empresa fabricante do jogo. 

“Quer dizer que estou preso dentro do jogo, justamente na parte que Pedro e eu paramos antes da aula de Matemática”, concluiu o menino. Júlio só não entendia o que um boneco de Pedro estava fazendo ali. “Esse deve ser o avatar do Pedro, e como ele está dormindo, o boneco também não está jogando”, concluiu, satisfeito. 

Mas ainda restava um problema: como iria sair dali? E outro problema bem maior: será que não estava mais seguro ali dentro? Pelo que tinha ouvido falar, o jogo era um dos mais sangrentos e aterrorizantes dos últimos tempos. E se ele morresse no jogo, será que morreria de verdade, ou voltaria para morrer mais mil vezes enquanto o game existisse? 

Júlio decidiu enfrentar um dilema de cada vez. No momento, o que ele queria era abrir a porta. O que quer que o estivesse esperando do outro lado iria ter que fazer justamente isso, esperar. 

Subiu as escadas para tentar forçar a maçaneta, mas ela continuava impassível. Não adiantava: ele ia ter que jogar. Tentou então refazer os passos que já tinha explorado com Pedro no recreio. Correu para a maca, tateou embaixo do travesseiro e achou novamente um pedaço de barbante. Foi até a parede mais distante, abriu o quadro de luz e encontrou um canivete. Lembrou-se que Pedro havia encontrado um pedaço de papel. Voltou para onde estava o boneco e colocou a mão em seus bolsos, tomando o cuidado de não iluminar aquela cara assustadora dele. 

De posse do papel, Júlio aproximou a vela para ver do que se tratava. “Q-7-T-11”, era só o que dizia. Olhou em volta para procurar um possível cofre onde pudesse usar o código. Aproximou-se da cômoda e viu que a última gaveta estava trancada com um cadeado. A escuridão do porão era agonizante, e o menino mal podia esperar para se aproximar do fim daquele pesadelo. Usou o código para abrir o cadeado, e BINGO!, a gaveta destrancou. Animado, Júlio esperava encontrar a chave da porta, mas havia apenas um ímã dentro da maldita. 

Agora Júlio tinha um canivete, um pedaço de barbante e um ímã. O que fazer com aquilo? Ele queria pensar, queria que Pedro estivesse ali para ajudá-lo, queria se lembrar de outros jogos que já havia jogado, mas o medo de estar numa situação tão insólita tornava muito difícil focar. Júlio se forçou a parar e analisar, mas um barulho incômodo não o deixava em paz.

Ping-ping-ping

“Que barulho é esse?”

Ping-ping-ping

Seria um cano? Júlio seguiu o som do vazamento pelo porão. Descobriu que vinha de uma pia imunda, cuja torneira pingava um líquido escuro e fedorento. 

Júlio tentou abrir a torneira, mas ela estava emperrada. Pensou em usar o canivete, mas achou mais prudente não fazer jorrar aquela água putrefata. Examinou a pia em busca de alguma pista, até que viu: no fundo do ralo havia um brilho metálico, que poderia ser uma chave. Sem pensar, Júlio enfiou o dedo indicador no ralo, e imediatamente sentiu uma dor lancinante. As bordas eram afiadas e haviam rasgado seu dedo, fazendo o sangue jorrar. Urrando de dor, o menino correu até a maca, rasgou um pedaço do lençol e amarrou em volta do dedo. E agora, como iria tirar aquela chave dali? 

Júlio lembrou-se dos itens no bolso. Com dificuldade, amarrou o fio em volta do ímã e, devagarinho, desceu a isca. BINGO, a chave grudou no ímã! Muito lentamente, Júlio puxou o barbante de volta e, com um sorriso triunfante, pegou a vela e correu escada acima para abrir a porta. Mas a chave não coube na fechadura. 

“AAAAAAAAAH!”. Desesperado, Júlio chorava, urrava, o dedo latejando e a cabeça também. “Eu nunca mais vou sair daqui, eu nunca mais vou ver ninguém”, pensava. Fez o possível e o impossível para se acalmar de novo. 

“Essa chave tem que abrir alguma coisa”, pensou.

Voltou a percorrer o quarto, procurando por cofres, alçapões, paredes falsas. Às vezes acontecia da porta principal não ser a porta de saída nos jogos, racionalizou, como se quisesse se acalentar. Por fim, encontrou uma caixa de metal debaixo da maca. Estava trancada. Tentou pôr a chave na fechadura e BINGO, ela se abriu. Dentro, havia uma foto e um bilhete. Colocou a foto mais perto da chama. Se surpreendeu ao ver a imagem dele e de Pedro, juntos no recreio, celular em punho, olhos fixados na tela. Parecia que tinha sido tirada naquele mesmo dia, na hora do recreio. Seus olhos arregalaram, Júlio engoliu em seco. Com as mãos trêmulas, abriu o bilhete. 

DOIS AMIGOS SE JUNTARAM
NUMA AVENTURA PERIGOSA
QUEM VAI SER O MAIS CORAJOSO 
E SE LIVRAR DESTA BANANOSA?

O PRIMEIRO VIROU FANTOCHE
O SEGUNDO ACORDOU NUMA MACA
QUER SAIR DESTE PESADELO?
EXPERIMENTE USAR SUA _______ 

Júlio ainda estava assimilando a charada, quando um barulho arrastado no outro canto da sala lhe deu um susto. Instintivamente, Júlio botou a mão no bolso e retirou seu canivete, caminhando de lado em direção à escada. 

“Quem tá aí?”, gritou, sem vontade nenhuma de descobrir a resposta. 

Júlio ouviu passos lentos e pesados vindo em sua direção. 

“Pe-Pedro, é você?”, perguntou, com a vela empunhada em uma mão e o canivete do outro. 

De repente, a chama iluminou fracamente a cara bonequizada de Pedro. O avatar do amigo estava de pé, e vinha em sua direção, com as mãos esticadas e uma expressão demoníaca no rosto. Júlio sufocou um grito enquanto tropeçava ao subir as escadas de costas, enquanto aquele filhote de Chuck se aproximava, vela e canivete tremendo violentamente. 

“Pe-Pe-Pedro, eu sou seu amigo, pa-pa-para com isso”, implorava Júlio, mas o boneco continuava avançando, cada vez mais ameaçador. Júlio chegou no topo da escada, a porta trancada atrás de si. Estava encurralado. A criatura estava a um degrau de distância, seus dedos pálidos se aproximando dos ombros de Júlio, que já tinha deixado cair a vela e o canivete, esmurrava a porta desesperadamente, gritando e chorando, quando sentiu um par de mãos geladas em seu ombro. 

“Que que houve, meu filho?”, perguntou sua mãe, consternada. 

Ouvindo a voz familiar, Júlio abriu os olhos e se viu no corredor de casa, bem na frente da porta de seu quarto. Sua mãe o segurava pelos ombros e o olhava, preocupada, pois ele tremia dos pés à cabeça.

“O que foi, meu filho, você tá pálido, tá tremendo, e que cheiro é esse?!”, disse a mãe, torcendo o nariz.

Júlio estava confuso. Uma hora estava em seu quarto, noutra estava no porão, agora estava novamente em casa. Olhou para trás, e seu quarto estava ali, do jeito que se lembrava. Pensou em mentir, mas não conseguiria criar em nenhuma desculpa plausível naquele estado. Pensou em contar a verdade, mas quem acreditaria nele? Decidiu um meio-termo. 

“Mãe, foi horrível! Me desculpa, eu peguei o celular pra jogar ‘Sanatório’, mas foi tão real, tão real que eu quase morri”. As palavras jorravam numa torrente de culpa e alívio. “Mãe, me desculpa, eu nunca mais vou te desobedecer, eu prometo que vou estudar, não quero mais saber desses jogos!”, respondeu Júlio, com sinceridade.

Eu gostaria de dizer pra você que Júlio nunca mais desobedeceu sua mãe. Mas não é isso que os garotos fazem, né? A mãe de Júlio também sabia disso. Mas tudo bem, ela já tinha outros cenários terríveis como o daquela noite preparados para quando seu filhinho amado resolvesse sair da linha novamente. 

“Tudo bem, filho, que esse susto te sirva de lição”, retrucou a mãe. “Vem, vamos lá na cozinha tomar um leite quente para te acalmar”, disse, enquanto tirava a chave da porta do quarto do filho e colocava novamente no bolso.

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