Robbie Jacks





O dia amanheceu, abri os olhos, me espreguicei, olhei em volta, tudo normal.


Me levantei, escovei meus dentes (embora não saiba por que diabos as pessoas escovam os dentes ANTES de comer, mas enfim...) escovei meus dentes, fiz meu café, abri o jornal. Tudo igual.



Senti falta de algo. Quer dizer, falta não era bem a palavra, mas eu sabia que algo estava ausente. Tudo normal, tudo igual, só que gostoso, diferente do cinza-bolor de ontem (mas eu não havia percebido isso).

Continuei meu dia e experimentei sensações há muito esquecidas. Havia um novo sabor no arroz do almoço, ou talvez o velho sabor de volta. A programação da televisão, desta vez, estava muito mais agradável. Ouvi o canto dos pássaros, por mais piegas que possa parecer, e me perguntei por que os pássaros se silenciaram por tanto tempo.



Aquele sábado estava anormalmente leve. Como acometida por uma súbita amnésia, ou talvez meus sentidos estivessem mais, digamos, sensíveis, tudo me parecia confortavelmente familiar, como se estivesse voltado para casa depois de uma longa e cansativa viagem.



De repente, como vítima de transe, uma palavra me fez sentir novamente o que estivera felizmente ausente naquele sábado diferente. A dor, aquela que tanto me apertou, que me jogou para o fundo do ralo do fundo do poço, não estava mais lá. Depois de me triturar com suas garras feitas de lembranças e sentimentos doentios, ela se tornou uma ingrata companheira, uma dedão inchado que cismava de pulsar dolorosamente cada vez que encostado. Eu, infeliz hospedeira dessa dor malvinda, me acostumei a carregá-la comigo, e ela fazia questão de sugar cores, cheiros e sabores da minha vida.



No dia em que acordei e ela não estava mais lá não houve comemoração, fogos de artifício ou champagne para estourar. Houve apenas a certeza de que sou muito mais forte do que jamais pude imaginar e a constatação de que, realmente, tudo vai passar. O fim mais feliz é o que encerra a escuridão. E veio o amanhecer, com seu novo Recomeço.


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Robbie Jacks




"I promise you kid, I'll give so much more than I can get
I just haven't met you yet"



Dessa, ninguém escapa. Longa, penosa, sofrida. Todos a rejeitamos, todos a recebemos. Não há saída.

Não adianta cruzar os braços, fazer bico, abrir o berreiro. Eu, você, seu vizinho barulhento: todos nos renderemos à ela. Dizer que não quer, que não aceita, também não adianta. Simplesmente não funciona. Mais cedo ou mais tarde, todos seremos obrigados a pegar nossos banquinhos e sentarmos lá com a Cláudia.
Quem vive, espera por definição. Não dá pra fugir. Pense na alternativa. Só há uma. E ela é muito, digamos, "final", se é que você me entende.
É desesperador no começo, desolador no meio, e entediante no final. Pois a espera só acaba quando você pára de pensar nela. Note bem: você nunca deixa de esperar- você apenas se acostuma a esperar, entra no piloto automático da vida. Esta é a pior maneira de viver, mas fazer o quê? Este é o estado conformador da espera, também não dá para escapar.
Então posso sugerir? Olhe pela janela e aprecie a paisagem, ou leia um bom livro. Quer você definhe por causa dela, quer você se distraia, ela não está nem aí. Porque a espera simplesmente não tem pena de suas vítimas. Mas pode ter certeza: um dia, ela acaba. Seja pela morte dela ou pela sua mesmo.
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