
A saudade é como um bebê monstro que cresce dentro de você, sem nunca ser verdadeiramente parido. A cada gestação, ele, antes só um embriãozinho sem muita atividade, se alimenta de suas tristezas, fica mais forte a cada data importante, até que se torna tão poderoso que rompe suas entranhas e se jorra no mundo. Como você o expulsa, eu não sei. Eu choro. Muito. Como se o motivo da minha dor estivesse de volta, como se meu algoz, voltasse de um cochilo pronto para me punir novamente. Choro até não ter mais forças pra chorar. Aí a saudade volta a ser um embrião.
Quando escrevi esse texto, com seu aniversário em mente, mãe, achei que não estaria me aguentando em pé hoje. No dia que escrevi esse texto foi o dia em que minha saudade explodiu. Em forma de choro e de texto. Hoje, que o preparo para publicação, noto que a saudade voltou a sua forma primitiva, um vazio que preenche o espaco, que faz voltar no tempo, e torna tudo relativo.
Ainda me lembro do seu último aniversário na Terra. O ano era 2002. Estávamos brigando muito, havia uma nova sensação de revolta em mim que você não conseguia domar. Eu estava adultescendo, te desafiando como sempre, mas agora com argumentos que você não antecipava. Sentia que a vida não estava sendo justa comigo, sua saúde foi piorando, não havia tempo para nós e isso me angustiava. Nossas brigas eram constantes. Mas não naquele 5 de janeiro.
Ao invés de cartões multicoloridos e de grafia desajeitada, ou discos de seus artistas favoritos acompanhados de bilhetes com palavras genéricas de amor de filha, lhe comprei um bolo. Da nossa delicatessen favorita, onde tantas vezes compramos os bolos meu e do Júnior, e as fatias de doce que tanto saboreamos juntas.
Na minha distração juvenil, esqueci de comprar as velas. Um pouco decepcionada, mas sem me deixar abater, procurei na gaveta da cozinha e achei algumas branquinhas, que não dariam na pista a sua idade. Mulher tem dessas vaidades, eu já sabia. Preparei o bolo e as velas, sem que percebesse, e reuni a família em volta da mesa.
Eu sei que os filhos são egoístas por natureza. Não é bonito, mas hoje entendo que o comportamento faz parte de nossas "férias" até nos tornarmos pais, ou pais de nossos pais, quando entendemos que a vida de quem amamos vale muito mais do que a nossa. Mas juro que não sabia o quanto estávamos te negligenciando até aquele 5 de janeiro.
As velas ardiam em cima da camada espessa de brigadeiro, criando um círculo branco ladeado de chamas azuis e amarelas que bem poderiam coroá-la diretamente em cima de seus cabelos negros. Ao meu comando, iniciamos um desajeitado "parabéns pra você", que tantos aniversários te ouvimos cantar. Mas agora você não canta. Olha para o bolo com incredulidade. A grossa cobertura de chocolate, os granulados displicentemente posicionados, a cera derretida a criar novas formas na vela. Mamãe só olha, E chora.
Meu irmão e eu nos entreolhamos, desconcertados. Não era assim que se fazia uma festa? Compramos um bolo ruim, as velas não agradaram, faltou gente? Mãe, o que fizemos de errado?
"Ninguém nunca cantou parabéns pra mim", disse, e enxugou as lágrimas na barra da blusa.
Hoje você faria 80 anos, mas é esse aniversário de 65 anos que vou lembrar para sempre. Foi seu último e seu primeiro também. Desculpa não ter me dado conta antes, mãe,

