
FELISHHHHIDADE
Um dia, eu estava muito, muito, muito feliz. Queria explodir de tanta alegria. Essa epifania me ocorreu no meio de uma dentada num bolinho. 'Que sorte a minha, a felicidade devia estar misturada no recheio', pensei. Tudo corria às mil maravilhas, o futuro parecia promissor, o bolinho tava daora. O mundo era bão mesmo, Sebastian.
Mas eu parei. Subiu um frio da barriga até a garganta, e meus olhos arregalaram, como eles costumam fazer quando nos damos conta umaverdade irrefutável. "Cara, alguma merda federal vai acontecer", disse eu, tão devagar que parecia que haviam me posto em câmera lenta.
"O que houve, Roberta?", perguntou meu interlocutor, perplexo.
"Nada, tá tudo bem agora, mas alguma coisa de muito ruim vai acontecer, tenho certeza. O universo tem esse jeito escroto de balancear as coisas, e eu não estou felizona desse jeito à toa".
"Deixa de ser paranoica, mulher! Essa felicidade toda é sua e é seu presente, então aproveita!"
"Shhhhhhh! Tá maluco? Vai ficar jogando pro universo que eu tô feliz? Se esse merda te escutar, vai tratar logo de vir aqui e acabar com a minha festa! Porque o universo é um cu! O CU ME ESPERA!"
PERA: "o cu me espera" ou "o cume espera"? Será que dá para ser ainda mais feliz do que isso? Tipo, 100%-tudo-de-boa-nada-mais-me-incomoda? Aquele jogo de palavras ficou girando na minha língua, e eu queria botar pra fora, acreditar que sim, eu podia escalar ainda mais nesse morro chamado life, e que lá no cume haveria um pote de ouro, toddynhos e filhotes de buldogue me esperando. Queria gritar "Hey, dor, eu não te escuto mais", dar uma banana pro mundo, escrever "Fora, Temer" na testa, sair dançando macarena no meio do chafariz do shopping.
Mas aí eu fiquei com medo da veia treteira e do desejo de vingancinha do universo e me contentei em dar mais uma bocada no bolinho. Ainda tinha recheio, eu ainda estava feliz.
