Robbie Jacks


Demorei a me pronunciar sobre o assunto, em parte porque minha opinião é irrelevante para o conflito que se desdobra na França, em parte porque não sabia pra que lado cair.
Na semana passada, uma entrevista do Renato Aragão causou uma leve revolta nas pessoas, que acharam um absurdo o humorista sentir falta de poder fazer piadas de raça e sexualidade e não ser taxado de racista e homofóbico. Pessoas bradaram que a crescente vigilância e a criminalização desses atos é uma vitória para a sociedade (verdade) e não um retrocesso ao humor (verdade?).
No mesmo fôlego, veio a notícia do atentado ao Charlie Hebdo. À princípio, discutiu-se a radicalidade do ato, a violência desmedida em nome da religião, da moral e dos bons costumes islãs. Certíssimo. Logo depois, começou o trabalho de "contenção do ódio", para que a revolta não descambasse para o preconceito religioso/racial cego e generalizador. Mais do que justo. Mas aí vieram os ultra-politicamente corretos e colocaram a culpa do atentado nos próprios jornalistas. Aí ferrou.
É como se o estupro fosse culpa do short curto. É como se a pedofilia fosse culpa da criança. É como um crime racial fosse culpa da melanina da vítima. É como se a homossexualidade ferisse a moral hétero. É como se o Rafinha Bastos pudesse ser assassinado pela Wanessa Camargo ou, mais recentemente, pela Marlo Meekins só por fazer piadas de mau gosto sobre elas. Não justifica.
Ou se tem liberdade de expressão, ou não se tem. Escolham seu lado. Ou se pode brincar com raças, credos, sexualidades, ou não se pode. Rir da piada de loira pode, mas de negro não pode? Fazer piada de português pode, mas de nordestino não pode? Por favor, decidam.
Aos que defendem que há um abismo entre opressor e oprimido, e acham que fazer uma piada de gaúcho, por exemplo, é bem menos danoso do que fazer uma piada de cearense, eu digo: apenas parem. Os papéis de vitima e algoz não são lineares, mas cíclicos: ao ser humano, qualquer vantagem sobre o outro se torna uma arma em potencial. Logo, uma anedota jocosa sobre alguém que, na sociedade, ocupa uma "casta" mais alta, transforma automaticamente o alvo em vítima como qualquer outra.
Antes de sermos "politicamente corretos" em tudo, sejamos coerentes. Uma piada não dá o direito de tirar a vida do outro, por mais sem-graça que ela seja. Pode se sentir ofendido, pode processar, pode repreender. Pode censurar? Não sei. Pode matar? Claro que não. Viu, Rafinha? Te dei uns anos a mais de vida. Não precisa me agradecer.

Robbie Jacks



"Essa vila do “8” nada mais é do que um pedaço do Inferno, especialmente preparado para receber seus hospedes, mortos e condenados no julgamento final. 

Dona Florinda e o Pro­fessor Girafales foram libertinos do porte do Marquês de Sade e Messalina (ou os próprios). Mestres na arte da luxúria, acabaram condenados a eternidade de abstinência sexual. Frigida e impotente, a mente almeja, mas o corpo não acompanha. Consomem infindáveis xícaras de café que, com propriedades estimulantes, alimentam ainda mais o fogo que não podem debelar. "

http://www.revistabula.com/768-pecados-demonios-e-tentacoes-em-chaves/

Poucas vezes vi um autor viajar tanto na maionese. E nem é ironia! Em seu texto, o colunista Ademir Luiz traça um paralelo entre as visões e descrições do inferno/purgatório através dos tempos com o seriado Chaves. CHAVES! Entendeu? Roberto Bolaños teria escrito um seriado perverso sobre um bando de almas condenadas a (con)viver num espaço diminuto, repetindo seus pecados "ad eternum", pois não haveria o conceito de tempo, ou redenção, na demoníaca vila.

Por favor, tirem um minutinho para ler o texto e voltem aqui para ler meu desabafo, sim?

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Passou o susto? Conseguiu tirar a imagem horrorosa da cabeça? Então vamos lá.

Podemos considerar como plausíveis suas teses? Sim. Dentro de sua própria lógica, o texto faz sentido. Oito personagens, sete pecados capitais, repetidos pela eternidade. O tempo que não passa, as referências dos elementos, é tudo possível, plausível, quiçá.

 No entanto, é ter muita maldade no coraçãozinho, especialmente hoje, dia em que o gênio criador dessa obra se foi, cogitar a ideia de que "Chaves" foi concebido de maneira tão crua e cruel por Roberto Bolaños. Ao mesmo tempo, por que não? Uma obra não termina com o ponto final do autor. É aí que ela ganha o mundo, e se enche e reenche de sentidos, sempre e continuamente. Dos mais simplórios aos mais elaborados, como nesse texto de Ademir Luiz.

Tenho poucas certezas na vida, mas disso eu sei: se formos tomar essa teoria como verdade, temos que aceitar também um Mestre dos Magos que é pai do Vingador e manteve as crianças, já mortas, sob a ilusão de que voltariam para casa; um Harry Potter praticante de wicca, desejoso de usar magia negra nos inimigos; uma Xuxa que fez pacto com o diabo e proferia frases satânicas nos discos tocados ao contrário e a profusão de pênis e sacanagens inseridas para desvirtuar meninos e meninas nos desenhos da Disney. Temos que aceitar que o mundo não é bão, Sebastião, e que tudo está intrinsecamente contaminado com o que há de mais sórdido na face da Terra: a estupidez humana.

Não, Ademir, prefiro crer que o seriado é tão inocente quanto apregoou seu criador, e que, se a América Latina está de luto hoje, é porque CHoram os corações entregues à fantasia criada por Bolaños.


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