Robbie Jacks



 E quando você está pensando na pessoa, e a pessoa está pensando em você, mas falta coragem para se aproximar? Não, coragem não é a palavra certa, nunca nos faltou determinação. O que falta para este recomeço é o fim da etapa prévia, falta jeito, falta o chão à frente. O que fazer com todos os planos construídos, todas as promessas, toda a vida que se delineou à caneta? Não, o tempo não é certo.

 Mas aí eu me pergunto: e quando será? Seria o tempo que já foi e perdemos? Pois parece que os dias que virão não resolverão a questão. Os novelos tendem a se embolar cada vez mais ao passo que o gato (porque a vida é um bichano, que se alimenta de você e vai embora, ronronando sonsamente) brinca com as frágeis estruturas que você chama de porto seguro. E um dia, como um marionete descontrolado, os fios que te sustentam caem. Por força do “destino”, esse mal amado.

Não gosto de deixar minha vida na mão do acaso. Quem me conhece, sabe. Gostaria de brincar de destino e ser dona da minha própria sorte de vez em quando. Quem disse que há tempo certo e tempo errado para ser o que se quer, fazer o que se quer? Estou cansada de esperar por Deus (desculpai!). Ou pelo acaso. Ou pela sorte. Ou pela vida. Não espere até que seja tarde demais. E, se for tarde demais, mas ainda houver esperança, corra atrás do tempo perdido. Mesmo que não haja vista à frente, mesmo que haja bagagem, mesmo que objetos e sentimentos tenham se espalhado pelo caminho. Talvez o tempo não seja tão calhorda assim.
Robbie Jacks

Qual o sujeito da oração “choveu”? Sou eu. Eu sabia que ia chover. Mas não sabia que seria tão cedo.

O dia amanheceu brilhante, mas eu sabia que ia chover. A atmosfera muda, alguma coisa mexe lá dentro da gente, até bicho sente. Os ventos estavam fortes, mas não haviam derrubado a árvore podre. Ela só cairia com a chuva que veio a seguir.

E eu ainda pensei que não fosse chover. Achei que o tempo agüentaria, que o Sol sairia detrás das nuvens pretas. Achei que fosse passar, mas me precavi. E quando choveu, eu já estava preparada.

 Não para a melancolia que a chuva trouxe. Não para a cidade vazia, para a cabeça cheia, para o cheiro de chuva e saudade. Não para a torrente de água e sentimentos que inundavam a mim e a rua como se nunca mais fossem parar. Não pelos pingos gelados das nuvens que se misturaram com os pingos quentes dos meus olhos. Eu não estava preparada para nada disso. Eu só tinha um guarda-chuva.

Ao meu redor, alguns corriam apressados, tentando escapar da fúria dos céus. Tadinhos, eu poderia tê-los avisado: ó, vai chover. Porque eu sabia. Só não sabia que ia ser tão cedo. Outros, já encharcados, poderiam até saber que ia chover, mas não acreditaram. Agora que ela havia chegado com força, não lutaram contra, apenas aceitaram as consequências do aguaceiro. Eu pensava como eles, embora estivesse semi-protegida pelo meu teto de pano: vai chover? Claro que vai! Não se pode ter um belo dia de Sol sem um pouco, ou um muito, de chuva.

Passaram também diversos casais. Uns bastante molhados, uns se espremendo debaixo de uma mísera proteção, alguns mais preparados carregavam cada um seu próprio guarda-chuva. Mas todos unidos contra a intempérie. Tenho muita admiração por eles, por conseguirem enfrentar os tempos adversos juntos. Vão pra casa, tomam um banho quente, colocam uma roupa sequinha e pronto: acabou-se a tempestade. Não foi meu caso.

A chuva destrói, desanima, deprime. Mas ela também renova, alimenta, limpa. Sozinha, na chuva, eu e meu guarda-chuva esperamos. Não pela alma e meias encharcadas secarem, não pelo coração pesado de água voltar a seu ritmo normal. Nós simplesmente esperávamos. Um dia essa chuva há de passar. Um dia eu não irei mais precisar de proteção.
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