A idade adulta às vezes me faz esquecer como as coisas mais simples da vida, como um banho de chuva, podem ser libertadoras. A primeira chuva do ano, dizem, tem o poder de renovação espiritual. Sentada na praia escura, na primeira noite de 2010, pensando na minha insignificância frente àquele mar de águas negras, percebi o quanto isto era verdade. A chuva que me molhou dos pés à cabeça mudou meu jeito de ver a vida. Não quero acreditar que essa chuva, que me trouxe algo de bom, levou tanta gente embora não muito longe dali. Não a minha Lluvia. Não mesmo.
O que aconteceu foi inesperado. Não teve clima, pergunta ou porquê: na infinitude de um segundo, senti seu rosto perto do meu. Vi, ao me virar, por trás de seus olhos baixos, a alusão de um sorriso. O assunto de antes me fugiu à mente. Nenhuma pergunta, nenhum porquê, nem um olhar: simplesmente aconteceu.
E os lábios, ao se encontrarem, foram umedecidos não pelo desejo, mas por um líquido ao mesmo tempo refrescante e estranho. À medida que os corpos se aproximavam, os céus pareciam clamar por parcimônia, aumentando em igual escala o ritmo de seu desague. O que era para separar, no entanto, acabou unindo mais, e a chuva se tornou parte de um momento que, sem ela, talvez não fosse tão especial. Sei que a fantasia do ideal me prega peças, mas tenho a liberdade dos escritores para dizer que aquela chuva não foi igual à nenhuma outra que já experimentei. La Lluvia, como gosto de me lembrar, só não foi papel principal pelo fato de um estranho ter me roubado um beijo e, com isso, a cena. La Lluvia fria e firme como um tapa do pai que desperta o filho para a vida veio para lavar minha alma, se misturar às lágrimas que derramei em 2009 e carregá-las para o mar, onde o vai e vem maternal das ondas acalentou e reaqueceu meu coração.
Ali, na beira do mar, as ondas quebravam suavemente em nossos pés, enquanto o tempo parava para que eu pudesse enxergar toda a grandiosidade da Lua como se fosse a primeira vez. Neste momento, quis ser como a ela que, embora o céu estivesse carregado de nuvens, se exibia, impassível e cheia de si, como se dissesse que nada, nem uma noite chuvosa, poderia atrapalhar seu brilho. E assim, em completo transe, eu falava abobrinhas, divagando sobre passados e futuros. Ele, por sua vez, me escutava pacientemente, talvez entediado, talvez confuso, parando aqui e ali apenas para oferecer um comentário, um sorriso, um carinho, tentando (em vão, posso adiantar) me garantir que as coisas das quais eu falava realmente tinham um propósito.
E assim minha virada foi feliz. Depois de um 2009 tão violento, tão difícil, fui encontrar meu otimismo, meu Recomeço, perdido no abraço molhado de lluvia de um estranho tão estranho que, do jeito que veio, se foi, assim como minha lluvia. Dois perfeitos estranhos. Dois estranhos perfeitos.
