Fiquei olhando aquele pacotinho por um bom tempo... como falar pros meus pais que em breve eles terão um netinho? Será que eles vão aceitá-lo? Será que eles vão ME aceitar depois disso ou vão me expulsar de casa? Dúvidas...
E se ELE não quiser? Disser que somos muito novos, que ELE ainda tem muita vida pra curtir, que não quer casar, que não me ama a esse ponto? O que eu faço? Crio um filho sem pai?
E se eu entrar em desespero, com aquela vida mal-vinda dentro de mim? Acabo com a minha vida? Ou acabo com a dele?
Não, não tenho coragem... iria até o fim. Adeus faculdade, shopping, festas,praia,amigos... eu sei que todos eles vão continuar no mesmo lugar. Eu é que não.
Tá, eu tive o filho. E agora? Eu tenho que sustentá-lo, não? Como vou arrumar um emprego e cuidar dele ao mesmo tempo? Ninguém quer saber dele a não ser eu. Ser mãe solteira e sozinha é triste demais. E o que vou dizer à ela? Que seu pai não a quis? Que seus avós a rejeitaram? Que nem EU a queria?
E depois? Quem sou eu? Uma criança criando outra criança. Uma menina estúpida que não teve coragem de fazer a coisa certa. Não,essa não pode ser eu. Não vou deixar isso acontecer comigo.
Abri o pacotinho. Me virei pra ELE e disse,decidida : “Não, sem camisinha eu não faço”.
Sério! Eu cresci recitando esse mantra!!! Passei minha infância inteira repetindo essa ladainha para todas as tias gorduchas e cadernos de perguntas que cismavam em querer saber O que você quer ser quando crescer?. Quando caí na realidade,ou melhor,na adolescência, percebi que nunca tive uma resposta concreta pra essa pergunta,e pior: tinha desenvolvido 2 Robertas: a que eu era e a que eu queria ser.
Meu pai costumava me chamar de “Miss Brasil Ano 2000”. Acho que ele só falava isso porque rimava, já que eu nunca fui uma beldade. Quando o dito-cujo do ano chegou, o ano do bug do milênio, onde a Escultural Roberta assumiria o trono usando seu biquíni de lacinho e faria um discurso emocionado na tv agradecendo ao pai e dizendo o quanto ele a apoiou e misticamente ‘previu’ sua coroação, a Roberta Real nem lembrava mais da brincadeira, e continuava vivendo sua vidinha acima do peso e nem aí pra carreira de modelo. Nessa época, as duas só queriam fazer Publicidade!
Enquanto eu imaginava a Brilhante Roberta nos bastidores de uma badalada revista, ou de um canal de TV para jovens, conversando com celebridades e criando anúncios dignos de condecorações, a Roberta Real estudava pra ser professora! Imposição da mãe,lógico. Sabe quando você rema,rema,rema, e a maré INSISTE em te levar para o lado oposto? Pois é. As duas Robertas tinham um sonho, que morreu na praia. Depois de 3 anos de Normal, 4 de Normal Superior e 4 vestibulares frustrados, nem a Real,nem a Brilhantee Escultural, nem ninguém tinha mais ânimo para sonhar. E se contentaram com a realidade.
Hoje, as duas tentam um meio-termo: a Real faz faculdade de Inglês/Literaturas e promete à Brilhante que, assim que terminar, faz alguma coisa pra satisfazer o ego da coitada. Só não sabe ainda o quê.