Robbie Jacks


Lute contra os (m)achismos de pai, avô, marido, filho, namorado, chefe, vizinho, tio.

Sê mulher. 

Respeite as manas, as minas, as monas, as ex, as atuais, respeite AS.

Sê mulher.

Se olhe, se goste, se conheça, se aprofunde, se reconheça. Você é parte de um todo, de uma família, de uma sociedade, de uma sororidade. Vamos juntas?

Sê mulher.

Mesmo que você não se enquadre naquele pensamento. Mesmo que você ache que é tudo mimimi (não é mimimi). Respeita quem não atingiu o teu nirvana. Só respeita e você já vai estar fazendo um grande favor.

Sê mulher.

Entenda que as mulheres existem em todas as cores, tamanhos e formatos disponíveis no mercado. Tem quem goste de pêlos, tem quem não goste de batom. Tem quem use roupa curta, tem quem pilote avião. Às vezes, isso tudo aparece junto na mesma mana. Aprecie cada uma a seu jeito, deixa as minas serem as minas.

Sê mulher.

“Louca, mimizenta, histérica”. Não reproduza discurso de ódio, amiga. Sê mulher, vai? Entenda que, por trás de cada denúncia, há uma dor. Não minimize o fardo da outra. Não se use como régua pra medir o sofrimento alheio. Sejamos solidárias.

Sê mulher.

Não pergunte “mas a MULHER tava onde que deixou uma coisa dessas acontecer?”. A gente não carrega o mundo nas costas porque quer. Aliás, se fosse pra seguir a (i)lógica do machismo, quem tinha que carregar o mundo nas costas era o homem, né, já que eles têm a tal da testosterona sobrando. Mas não. Em todas as situações onde os homens fazem cagada, tem mina culpando uma mulher: a mãe, a filha, a namorada, a esposa. Como se todas fôssemos Evas perpetuamente expulsando esses (vi)Adões do paraíso. Mais amor, por favor.

Sê mulher.

O mundo que a gente quer precisa ser (re)construído. (Re)Clamado. A gente mora nele, mas ele ainda não é nosso. A gente cuida dele, mas ainda não temos a escritura. Então lute, lute, lute sempre. Porque a vida da mulher é luta atrás de luta, até o dia que não for mais.

(Feliz?) Dias de Mulher.
Robbie Jacks

“Concheta Bibiana”. Sim, é isso mesmo que você leu. Esse palavrão em outra língua ia ser meu nome, reza a lenda aqui de casa: “Concheta Bibiana”. Mas uma sociedade racista fez minha mãe mudar de ideia.
Não que eu esteja triste por não ter sido homenageada com os nomes das minhas bisavós guerreiras. Embora elas tenham sido mulheres de fibra na época delas, os nomes escolhidos também devem ter sido maneirões só na época delas. Mas não é por isso que escrevo este texto.
Veja você: minha mãe é negra. Negra, professora, inteligente, linda, criativa, independente, forte, austera e muito educada. Ela já faleceu, mas isso é só um detalhe. Pois bem. Quando engravidou de mim, aos 45 anos, mamãe quis colocar na filha a combinação dos nomes de mulheres que vieram muito antes de mim e deixaram suas marcas na Terra. Talvez mamãe quisesse que eu herdasse a força delas. Ou a resistência. Ou a doçura, sei lá. E esta foi a maneira que encontrou.
Mas a barriga de mamãe começou a crescer, e as dúvidas também. “Como seria minha filha? Que aparência teria?”, mamãe pensava. Seu esposo, meu pai, era um italianão branco de cabelos negros e ela, negra de olhos de jabuticaba. Meu irmão nasceu “café com leite”, com o olhar de mamãe e o sorriso de papai. E eu, como viria? Mais “leite” ou mais “café”?
Seus devaneios a levaram a me imaginar numa sala de aula. Primeiro dia do ano letivo, turma cheia de pequeninos seres ávidos por aprender. A professora adentra o recinto, toda pomposa. Apruma-se na cadeira e abre seu caderno de frequência pela primeira vez.
Anelise...
PRESENTE!
A professora olha para a aluna, com a mãozinha levantada, dá um sorriso e volta a anotar no caderno.
Alfredo...
PRESENTE!
Bárbara...
PRESENTE!
Cláudia...
PRESENTE!
Concheta...
Mamãe enrijece no cantinho da sala. A professora pára e olha aquele nome inusitado. Volta os olhos ao início da linha para ter certeza de que não está ficando míope.
“Concheta Bibiana”. Sim, é isso mesmo. “Que nome diferente, deve ter saído de algum livro de história de 1927”, ela pensa. “Bom, esse nome deve pertencer a alguma menininha linda, branca, de cachinhos tão loiros quanto os de um anjinho”, conclui a mestra. Mamãe a olha, aflita. Já sabe o que está por vir.
“CONCHETA BIBIANA”, a professora chama, com entusiasmo, e procura a dona do nome com o olhar.
De lá do fundo da sala ergue-se uma mãozinha tímida e magrela. A palma da mão rosada contrastando com a pele pretinha.
“Pre-presente, professora”, diz a menina de olhos de jabuticaba e cabelos muito crespos amarrados com lacinhos vermelhos em duas marias-chiquinhas. A professora olha com cara de espanto, que logo se torna desdém como se duvidasse que tal criança fosse capaz de carregar um nome tão grandioso e antigo. O coração de mamãe se parte ao meio e, resignada, ela decide que talvez esse não seja o melhor cartão de visitas para sua filha.
E foi por isso, meus queridos, que hoje me chamo Roberta. Nome, aliás, sugerido pelo meu irmão. Mamãe não suportou a ideia de que sua filha passasse pelas humilhações que ela mesmo já havia passado, mesmo que tudo não passasse, naquele momento, de hipótese.
Porque o racismo faz isso com a gente: nos leva a imaginar o pior, a pensar o pior, e sabe por quê? Porque existem pessoas que SÃO o pior, que FAZEM o pior, e muitas vezes temos o desprazer de cruzar com esses infelizes em nosso caminho. O racismo faz com que a gente deixe de fazer muita coisa que gostaria por medo do preconceito, e nos faz tomar muitas outras atitudes pelo mesmo motivo.
O racismo existe. Machuca a alma e, por muitas vezes, o corpo. Enfraquece e fortalece. E tem seu preço.
Minha mãe tinha uma força descomunal, mas não há proteção materna no mundo que te impeça de sofrer preconceito. Eu só gostaria que ela soubesse que podia ter me batizado Concheta. Que aquele bebê que ela estava gerando ia carregar com força esse nome, e ia desafiar qualquer um que ousasse lhe levantar a voz. Mas ela não sabia que quem estava na barriga dela era eu.
O jeito que minha mãe encontrou foi o de me dar um nome forte para me fazer forte. E hoje eu sou Roberta, ou Robbie, como vocês me conhecem. Geniosa, sarcástica, defensora ferrenha dos meus ideais, amiga dos amigos. E muito orgulhosa da minha pele misturada, dos traços africanos e europeus que se misturam no meu rosto. E orgulhosíssima, é claro, dos meus cachinhos louros e crespos, que mamãe tanto sonhou mas não botou fé que eu ia ter.

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